a banalização do bem, por Zê Carota

a banalização do bem

por Zê Carota

em 1963, dois anos depois de cobrir para a revista The New Yorker o julgamento, em Israel, do nazista eichmann, a filósofa Hannah Arendt publicou “Eichmann em Jerusalém”, livro no qual apresenta, além de novos fatos da cobertura, reflexões mais aprofundadas sobre as razões (sic) do horror que o criminoso praticava não por prazer pessoal, mas por ofício, acreditando que, fosse obediente e eficiente, ascenderia socialmente, e é com base nisso que Arendt formula o conceito que cunha a expressão “banalização do mal”.

para a filósofa, quando o mal alcança setores da sociedade, ele é político,  se estabelece institucionalmente e se propaga mobilizando grupos os mais variados, mas com algo em comum: o “vácuo de pensamento”, que naturaliza a violência – e esta tem muitas formas de expressão, tão ou mais graves quanto a física.

nas redes sociais – predominantemente, no facebook –, além da banalização do mal, que se constata no conteúdo propagado por certas páginas e perfis que se creem “do bem”, é crescente uma variação do conceito de Arendt, com as mais variadas motivações, ou pseudo militância, desde questões de gênero e etnia, passando pelo que é o que não é cultura, chegando ao que é certo (lato sensu) comer.

é a banalização do bem.

 

em sã consciência, ou, pra reforçar Arendt, sem “vácuo de pensamento”, ninguém questiona a vital importância de se combater todo e qualquer preconceito (e suas consequências sempre trágicas, variando apenas a gradação) e o criminoso modus operandi da indústria alimentícia.

questionar essas lutas é falta de caráter, não de consciência.

o problema, porém, é como muitos e tantas têm se colocado nessas lutas, fazendo a já citada pseudo militância.

 

seja para aceitação social (ainda que virtual), seja por que prenhes das malditas melhores intenções, mas vítimas vocacionais do “vácuo de pensamento”, seja, mais comum, por fazerem de seus perfis no facebook um misto de caça-níqueis para o ego e tamborete para visibilidade de nano celebridade, o fato é que estas pautas mobilizam hordas de pessoas para um simulacro de debate – não querem debater nada, apenas validar seus argumentos sobre tudo –, divididas em dois grupos: um, o que apenas repete palavras de ordem, expressões e hashtags aprendidas de orelhada e compartilhadas por mimetização; o outro, dos caga-regras, que sempre têm opiniões formadas sobre tudo, as quais vomitam no máximo de perfis que lhes for possível, e sempre desprezando o fato de que opinião pessoal não é verdade absoluta ou lei…

 

ambos promovem o mesmo e lamentável estrago: banalizam pautas, discussões e expressões de, repetindo, vital importância, e com tal obtusidade violenta (em um post de duas linhas, são capazes de, nos comentários, escrever o Gênesis, e com a mesma fúria messiânica e doutrinária), que, mais das vezes, conseguem afastar até quem defende as pautas – imaginemos, então, a reação daqueles que mais precisavam se abrir para o valor delas, os reacionários, os conservadores e os incautos…

 

todos nós temos, por baixo, uma dúzia de conhecidos que já nos segredaram preferir nem tocar nesses assuntos, alegando temor das reações que eles provocam.

obviamente, referem-se aos mesmos a que circunscrevo minhas críticas neste texto, que não podem ser confundidos com a militância preparada – composta por quem tem legitimidade na causa defendida, da qual é estudiosa e atuante –, mas o fato é que é essa pseudo militância que está insuflando medo para o que deve inspirar respeito.

 

não sei quando discordar tornou-se sinônimo único de ser contra.

sei que fraturas múltiplas na democracia, sejam causadas por regimes totalitaristas, como o nazismo que inspirou Arendt às suas reflexões, ou por golpes (em nossa curta história como república, eles têm muito mais horas de expediente do que a democracia), levam a dualismos, e estes são lavouras férteis ao “vácuo de pensamento” a que Arendt se referiu, e do qual ela mesma foi vítima: até hoje, pelo fato de não ter classificado o burocrata nazista como bom ou mau, por entender que ele era odiosa consequência, não a nefasta causa, é acusada de hibridez…

 

seu recado é muito óbvio: o problema é não pensar.

sem isso, banaliza-se tudo.

 

melhor exemplo recente disso é ver setores da militância de esquerda compartilhando críticas do reinaldo azevedo às arbitrariedades do ditatorial judiciário brasileiro, porque elas, de um jeito grotesco, corroboram a inocência de Lula, e pouco importa se, num passado muito recente, ele foi parte fundamental na obsessiva e criminosa demonização não só de Lula, mas de toda a esquerda brasileira, unicamente para agradar a seus dono$ e ascender social e profissionalmente – tal como fez eichmann.

 

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4 comentários

  1. Sobre as críticas do R A

    Sempre fico pensando que a critica à atuação da justiça pontualmente num processo pode servir para, depois, em outros processos que apresentem detalhes diferentes (por exemplo, o do sítio, em que não pode ser usado o argumento de que não houve usufruto), aí sim, voltar à carga contra Lula. Porque o que ele repete é que não há provas, não que o Lula seria inocente. 

  2. a….

    Antes de tudo, quando tivemos Democracia nos últimos 40 anos? Na formação de novos Feudos e nova Elite dentro do Estado e Orçamentos Público? Agora que o feudo do Judiciário incomodou? Quem legislou para criar o ‘monstro’? Realmente caro sr., nossas discussões são risíveis. Inventamos um factóide de Presidente a combater Marajás há 1/4 de século.  Nossa Elite se diz espantada com tal aberração em 2018? Quem legislou com este propósito? Elites são sempre os outros. AntiCapitalistas juram sua pureza e castidade, na promessa do continuísmo de um Salvador da Pátria. Outro assunto sempre tratado de forma risível e sob a ótica de notícias e interesses de potências do pós-guerra é esta da perseguição aos judeus. Primeiro, quando se quer falar em Julgamento com Cartas Marcadas se exemplifica com estes de Jerusalém. As forcas foram construídas antes dos Tribunais. Este Povo que covardemente não se organizou nem combateu na Grande Guerra, permitindo que milhares dos seus fossem perseguidos e enviados à Campos de Concentração, no final da Guerra já construiam um novo país, guerreando com Potências Regionais e expulsando os habitantes do território desejado. Como tal milagre?  Perseguição a determinado Povo e formação de guetos, foi sua política nos últimos 70 anos. É possível aceitar isto, de um Povo que vive a propagandear ter sido vitima de tais ações? O Povo, que formou um país em território invadido, dando apoio logo em seguida de forma financeira, estratégica, militar, institucional, tecnológica a um Governo Abjeto e Pária que perseguiu de foma racista, facista, nazista a milhões de pessoas, habitantes do próprio país na África do Sul, apenas por sua cor e sua origem. Existe explicação para isto? Qual é a visão que devemos ter de tudo isto como Brasileiros? Realmente estamos banalizando nossas discussões. 

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