A banalização do valor da vida, por Eleonora Cruz Santos

Planos de combate à violência surgem como esperanças que, não concretizados, acabam por provocar descrença, sensação de desamparo, impotência e baixa autoestima.

A banalização do valor da vida

por Eleonora Cruz Santos

De acordo com o Global Study on Homicide 2019, elaborado pelas Nações Unidas, o Brasil encontra-se em sétimo lugar no ranking de homicídios no mundo. Dentre o grupo de países que compõem o BRICS, o Brasil encontra-se abaixo da África do Sul e nos países membros do Mercosul, lidera com larga vantagem essa estatística. Segundo estimativas do Ministério da Justiça, o ano de 2019 apresentou redução expressiva em relação aos anos anteriores, sobretudo pela queda do homicídio doloso, responsável por mais de 90% dos casos de homicídio.

A violência é uma questão que tem permeado a sociedade brasileira há décadas. Planos de combate à violência surgem como esperanças que, não concretizados, acabam por provocar descrença, sensação de desamparo, impotência e baixa autoestima. Os dados do Atlas da Violência, produzido pelo Ipea, encenam o cenário perfeito do desalento: a violência concentra-se nas periferias de grandes centros urbanos e sua incidência se dá mais sobre pessoas de baixa renda, de cor parda e negra, e jovens. Deflagra-se um quadro onde, ao imaginário coletivo de desamparo soma-se o baixo valor pela vida humana. E com esse pano de fundo o país recebe a inesperada pandemia do Covid-19, trazendo, em primeiro momento, a urgência dos governos encontrarem seus cidadãos invisíveis, não identificados nas falhas de cobertura do Cadastro Único (onde se inclui o Bolsa Família) e o desafio de lidar com a ausência de políticas públicas sociais capazes de atravessar situação de “guerra”, como a vivida atualmente.

Nas duas últimas semanas, ao menos duas análises econômicas de destaque sobre a pandemia do Covid-19 tocam direta e dramaticamente na realidade brasileira. Graphing the Pandemic Economy, artigo de autoria de Michael Spence – Nobel de Economia – e Chen Long, publicado no site Project Syndicate, delineia cinco  fases da pandemia no mundo, através da construção de um índice único que mede a taxa de mobilidade – taxa de circulação em lojas, supermercados, farmácias, locais de trabalho, transporte público, caminhadas etc. – antes e durante a pandemia. O índice é proxy para a atividade econômica em tempo real (calculado semanalmente) e sua validação responde por ¾ da atividade econômica dos países pré-pandemia.

Os autores analisam os países por ondas, iniciando pelos asiáticos (primeira onda), passando por Europa, Estados Unidos e Oceania (segunda) e chegando na América Latina (terceira). Do primeiro ao terceiro grupo, nota-se um crescimento do tempo de duração do isolamento e, por conseguinte, de aumento da desaceleração da atividade econômica. As duas primeiras ondas já reiniciaram sua fase de recuperação da atividade econômica. Dentre os países da América Latina, o Brasil destaca-se por aquele que mais tempo tem levado para sair da fase de contaminação.

Gita Gopinath, economista chefe do Fundo Monetário Internacional, em duas aparições recentes – podcast realizado pelo World Economic Forum e webinar na Bendheim Center for Finance  da Universidade de Princeton – deixa sinais claros de que a combinação entre nível de endividamento, estrutura de programas sociais, capacidade e nível de investimento em infraestrutura e suporte sanitário robustos (testagem em massa, protocolos rigorosos e capacidade de desenvolvimento de vacinas) são determinantes para que definir a capacidade que as economias terão para atravessar essa fase. Evidencia-se o quanto os países mais vulneráveis, dentre eles o Brasil, encontram-se em posição extremamente frágil e desfavorável.

A cultura brasileira tem revelado, cada vez mais nessa pandemia, que o valor da vida é relativamente baixo. De um lado tem-se uma sociedade desmobilizada e susceptível às discórdias políticas explícitas entre as três esferas de governo, impactada diretamente sobre suas próprias vidas humanas. De outro, tem-se uma ausência de política econômica e social. Em bom economês, vivemos o ”pior de Pareto” na combinação entre atividade econômica x políticas de contenção da pandemia.

No ano de 2019, o Ministério da Justiça computou quase 40.000 mortes por homicídio doloso. Em pouco mais de três meses, o país já enterrou por Covid-19 valor superior a um ano de homicídios dolosos, o tipo de morte mais violenta dentre os crimes ocorridos no País. E o início da flexibilização com curvas de contágio ainda em ascensão mais parece estratégia deliberada de retorno cujo principal critério é custe o que custar. O Brasil segue em busca cega rumo à necessidade de encontrar o ponto de inflexão de sua curva de contágio, sem perceber que precisa, antes de mais nada, alcançar o ponto de inflexão na sua curva de valores humanitários, ressignificar o sentido da vida e promover um basta às diversas formas de violência, desamparo e desigualdade.

Eleonora Cruz Santos é economista, mestre em demografia e doutora em administração, com pós-doc em economia da saúde.

 

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