“A Bíblia”, o resgate civilizatório necessário (parte I), por Carlos Russo Jr.

Assistimos hoje a uma disseminação explosiva de movimentos cripto-religiosos e fundamentalistas por todo o planeta. De maneira nenhuma esse movimento significa um renascer espiritual, muito pelo contrário.

do Espaço Literário Marcel Proust

“A Bíblia”, o resgate civilizatório necessário (parte I)

por Carlos Russo Jr.

“A Bíblia” é o mais conhecido e o menos compreendido produto humano de todos os tempos. E, possivelmente, o mais estranho.

De sua leitura e interpretação formam-se agrupamentos religiosos e seitas. Num sentido amplo, temos os cristãos e judeus ortodoxos, os pastores e “apóstolos” agrupados sob o slogan de neopentecostais e seus rebanhos, assim como judeus, católicos, espíritas e protestantes históricos dotados de espírito crítico e humanista. Além disso, em todos os tempos, temos tidos leitores da Bíblia que são céticos e cientificistas.

Assistimos hoje a uma disseminação explosiva de movimentos cripto-religiosos e fundamentalistas por todo o planeta. De maneira nenhuma esse movimento significa um renascer espiritual, muito pelo contrário. Mesmo o colapso do marxismo é um fenômeno absolutamente ambíguo. Foi no marxismo que o Ocidente investiu suas esperanças messiânicas, foi através dele que se expressou a fome de justiça no mundo. Tanto o “Sermão da Montanha” quanto o “Manifesto Comunista” proclamam suas origens nos ensinamentos de Moisés e Amós. A própria derrocada do ideal comunista significa também um enfraquecimento do Cristianismo autêntico.

No século que vivemos os fundamentalistas da ortodoxia judaica, de comunidades cristãs ortodoxas e pentecostais têm “A Bíblia” como uma coletânea de antigos testemunhos, dos quais todas ou quase todas as palavras são diretamente inspiradas ou ditadas por Deus. Qualquer tentativa de questionamento da “verdade destes documentos divinamente compostos”, seja em nome das ciências naturais, da tolerância política, da crítica historia ou de mudança de valores éticos, constituem para eles blasfêmia e absurdo.

Para tal visão, quem são Darwin, Freud e Einstein, todo o aporte científico que a humanidade desenvolveu para erguerem a voz dissonante de certa “sarça ardente” que falava a Moisés no Monte Horebe, há três mil anos atrás? O que é a ciência positivista para discordar do mito do “criacionismo”, a criação pronta e acabada do homem por Deus, de Adão, Eva e de seu Paraíso Perdido?

É verdade que, na miséria cultural em que se transformou o século XXI, ademais dos ortodoxos, milhares de charlatães se têm apropriado mais e mais da Bíblia. Em sua maioria eles se autodenominam pastores e apóstolos neopentecostais, embora tal fenômeno também ocorra com facções ligadas à Igreja Católica. Da Bíblia conhecem e divulgam dos púlpitos, rádio e televisão tão somente trechos que lhes interessem no negócio de manipular o coração e mentes.

Encontraremos naquelas diferentes seitas muitos pilares que lhes são comuns, tal qual a “doutrina da prosperidade” e a da “confissão positiva”; conceitos comuns como “a pobreza e a doença derivam de maldições, de fracassos, das vidas em pecado ou da falta de fé religiosa” e, em decorrência destes um “verdadeiro cristão” deve ter a marca da plena fé, ser bem-sucedido financeiramente e possuir saúde física.

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Outro pilar comum é a permanente batalha espiritual entre os componentes da “Santíssima Trindade” e o Diabo, trazendo um renascer de conceitos medievais, tais como o confronto direto entre o homem e os demônios, as ditas maldições hereditárias, a posse dos crentes pelas forças “magnéticas” do mal. Desenvolveram ainda formas arcaicas de encarar a fé religiosa, tendo por foco a busca de revelações diretamente feitas por Deus ou pelo Espírito Santo a seus “pastores”, “bispos” ou “apóstolos”, em relações de privilégios nas quais o rebanho é conclamado a inserir-se.

As maiores dessas seitas, como a Assembleia de Deus, fazem uso da Bíblia para propostas quase sempre totalitárias, anseiam pela exclusão do Estado laico, atrelando, por exemplo, a educação a formas do criacionismo bíblico. Como contraponto, negam a realidade e a evolução, e mistificando o conceito do divino, apegando-se a determinadas passagens bíblicas com o espírito do apocalipse e da intolerância religiosa, racial e de gênero, praticam o mais cru materialismo, numa estreitíssima aliança do espiritual com o poder político, da fé com o dinheiro, da intolerância com a violência.

E é, principalmente contra estes apóstatas do Sagrado, do bem, da humanidade e dos valores civilizatórios que necessitamos preparar uma ação de verdadeira guerra: O resgate do Velho e do Novo Testamento.

Para os céticos, o Antigo e o Novo Testamento são um acervo de mitos, fábulas, código de leis, tratados morais, escritos eróticos, litúrgicos, rituais, crônicas históricas reportadas com intenção política, tudo isso alinhavado de maneira mais ou menos aleatória no decorrer dos séculos, em situações étnico-sociais absolutamente diversas. Um texto compostos por muitas e muitas mãos. E nessa montagem abundam absurdos, contradições internas, ferocidades, desigualdade de talentos discursivos e espirituais que a simples ideia de uma autoria divina e coerente é absolutamente sem sentido!

Teriam sido homens e mulheres, muitos sem dúvida de elevada visão moral e de enorme talento intelectual, que produziram os escritos de modo também absolutamente natural, totalmente comparáveis às maneiras como escreveram outros importantes pensadores, poetas, historiadores e legisladores de numerosas culturas e épocas. Para eles, “A Bíblia” provém deste mundo, o planeta Terra, tanto em sua inspiração quanto em sua composição.

Pese todas essas considerações, “A Bíblia” não é um livro entre outros! De maneira nenhuma é um “livro velho”. Ela é, sim, “O LIVRO DOS LIVROS”.

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Enorme parcela da produção cultural dos últimos dois mil anos, passando pelas artes plásticas, pelo teatro e, inclusive por livros, por mais diferentes que sejam seus assuntos e organização, relacionam-se direta ou indiretamente a ela. E mesmo, a toda parte do planeta a que “A Bíblia” foi levada e ela já foi traduzida para duas mil línguas e dialetos, grande parte da identidade histórica e social dos povos ocidentais foi por ela dada. “A Bíblia” Hebraica e o Novo Testamento forneceram instrumentos de memória e citação à consciência de inúmeras gerações.

Aqueles que se posicionam claramente na defesa do humanismo e dos valores civilizatórios, que têm clara a consciência de que no Ocidente estes se originaram da civilização greco-romana e da cultura judaico- cristã, jamais poderemos permitir que a apropriação da “Bíblia” se dê exclusivamente por aqueles prestigiadores e corruptores da alma humana! “A Bíblia” é repleta de passagens de um humanismo autêntico, concentra muitos de nossos valores civilizatórios e, principalmente, éticos, que os cultos daqueles que foram um dia por Jesus Nazareno expulsos do Templo, ocultam e dissimulam.

O que sabemos da “Bíblia Hebraica” e dos que a compuseram não passa de conhecimentos esparsos. As perguntas às quais somos capazes de responder com algum grau de segurança são quase irrelevantes quando comparadas às que não sabemos responder. Um desconhecimento fundamental prevalece em áreas fundamentais como cronologia, geografia, relações essenciais entre história e mito, entre o literal e o alegórico. A composição básica do Antigo Testamento como a conhecemos hoje, não data de antes de 850 a.C. e incursões posteriores como Zacarias ou o Livro de Daniel só foram escritas entre 168/ 150 a.C..

Muitas dúvidas permanecem. Houve realmente um êxodo do Egito? Quando passou realmente a prevalecer o monoteísmo em Israel? É possível atribuir-se evidência histórica a personagens centrais como Abraão e Moisés? Quantos autores participaram de Isaías? Que significados, que propósitos, em que contextos existiram Jó e os Eclesiásticos? Como explicar a investida física de Jeová contra Moisés e mesmo à punição genocida que recaiu sobre Israel quando seu governante cometeu a transgressão de instituir um censo? Em resumo, o que são realmente esses agrupamentos de vozes desconexas, de textos absolutamente distintos em suas origens e registros que compõem as Leis, os Projetos e as Escrituras? O que dizer da fé e do terror desses seres humanos que desde então e por toda parte professam ouvir neste livro e nele colherem as palavras de Deus?

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Na “Bíblia Hebraica”, sagrados são os Cinco Livros de Moisés, a Torá. Os demais Livros foram sendo acoplados a posteriori. A noção em si de um “Antigo Testamento”, comumente denominada, é exclusivamente cristã, para os judeus um “Novo Testamento” inexiste.

Foi o cristianismo de Paulo e de João que se esforçou por transformar as escrituras hebraicas em prefigurações da vinda e da palavra de Jesus. Logo, os grandes temas bíblicos são interpretados como anunciação e previsões dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos.

A árvore fatídica de Adão e Eva reaparecerá como a madeira da Cruz; o povo de Israel atravessando o Jordão prefigura o batismo do Nazareno; a viagem solitária de Jonas no interior da baleia é uma projeção de Jesus sepultado; o servo sofredor que aparece em Isaías é uma intuição inspirada da humilhação e do martírio de Cristo. E o “Sermão da Montanha” é, na sua substância, um contraponto dos “Dez Mandamentos” da lei de Moisés.

De tal forma que ponto por ponto a doutrina cristã se esforçou por ancorar o Novo Testamento na autoridade do Antigo. E essa concatenação foi vital para que o cristianismo se apresentasse como um propósito divino, como a vontade de Deus explicitada na missão de seu filho, nascido em Belém, da Casa de David, da tribo de Judá, descendente direto de Jacó- Israel.

Marcião de Sinope, um bispo cristão do século II, considerado herege no seu tempo, percebeu as inverdades paradoxais em toda essa apropriação do material hebraico pela Igreja Cristã. Como é possível, perguntava ele, que o Jeová feroz, implacável e vingativo do Pentateuco e dos Profetas seja identificado como Pai, uma entidade de amor e compaixão sem limites do cristianismo? Como conciliar o mistério da Trindade, no qual cristo é um Deus feito homem, com o monoteísmo judaico? Marcião propugnava que, com o advento de Jesus de Nazaré, a história e as circunstâncias da alma humana haviam tido um novo início. E quanta razão ele possuía!

E quão diferente poderia ter sido o destino do povo judeu e da humanidade caso suas teses plenas de honestidade e bom senso tivessem sido aceitas?

De todo modo, “A Bíblia” é o livro que maior influência exerceu em toda a história civilizatória da humanidade ocidental.

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2 comentários

  1. A moral e consequentemente “o bem” não depende (nunca dependeu) de religião. Aliás, as religiões em geral tem o moralismo como base, e como nos lembra André Comte-Sponville, o moralismo é imoral.

  2. A moral, e consequentemente “o bem”, não depende (nunca dependeu) de religião. Aliás, as religiões em geral tem o moralismo como base, e como nos lembra André Comte-Sponville, o moralismo é imoral.
    As religiões nada mais são que uma compilação de caráter suspeito de vários conhecimentos morais de outras sociedades.

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