A Caixa de Pandora de nossos dias, por Doney Stinguel

A Caixa de Pandora de nossos dias – por Doney Corteletti Stinguel (Política Nada Imparcial)

Na mitologia grega, no princípio não era a Palavra, mas sim a história do casal Gaia (que personificava a Mãe-terra) e Urano (que personificava o céu), sendo que estes praticavam uma espécie de incesto das deidades, já que Urano também fora criado por Gaia.

Urano tinha receio de ser substituído no trono por algum de seus filhos com sua consorte, por isto, fazia com que Gaia reinserisse seus filhos em seu útero (na terra). Ao fazê-lo ele acabava torturando-a, pois os seres queriam sair de seu corpo e ela sentia dores atrozes por mantê-los, já concebidos, dentro de si.

Em razão disso, Gaia insuflou seus filhos a lutarem contra a atitude cruel de seu progenitor. Cronos, o mais obstinado deles e o único que aceitou participar da conspiração, armado de uma foice oferecida por sua própria mãe, saiu da terra e decepou o pênis de seu pai Urano no momento em que ele copularia mais uma vez com ela.

Este gesto explica, dentro da mitologia grega, a separação existente entre o Céu e a Terra – que tão bem podemos ver quando olhamos para um horizonte distante: os consortes foram cindidos pelo golpe lancinante de Cronos.

O sangue profícuo que verteu de Urano deu origem a diversos seres fabulosos, porém, Urano profetizou que também um dos filhos de Cronos viria a derrubá-lo.

Por conta disso, Cronos passou a sempre devorar seus filhos logo depois de seu nascimento. Isto durou muito tempo, até o dia em que sua consorte, Reia, auxiliada por Gaia, protege Zeus e impede que ele seja morto, fazendo com que Cronos devore uma pedra ao invés do infante.

Salvo por tal gesto, anos depois Zeus e outras divindades gregas batalham contra os Titãs (do qual Cronos era líder) e os derrotam, conseguindo ainda resgatar seus irmãos devorados (com algumas acepções da lenda dizendo que eles foram vomitados, e com outras dizendo que foram resgatados depois de Zeus eviscerar seu pai).

A mitologia grega alcunha tal conflagração de Titanomaquia.

Porém, a história não acaba aí, muito ao contrário. Dois Titãs irmãos, Prometeu e Epimeteu, não lutaram a favor de Cronos – eles se aliaram a Zeus. Como recompensa por tal gesto, Zeus permitiu que os dois irmãos criassem as primeiras criaturas que viveriam na Terra. Epimeteu criou os animais, dando a cada um uma forma que pudesse sobreviver, um tipo de proteção para resistir à vida na Terra – tanto atributos morais (tais como força, astúcia e coragem) como físicos (asas, garras, carapaças etc.). Prometeu despendeu um tempo maior em sua concepção, mais complexa e intrincada, invenção esta que seria o homem – moldando-o através do barro e da água. Porém, ao finalizar sua obra, ele observou que seu irmão já havia despendido todas as habilidades e formas de proteção nos outros animais. O homem não tinha garras, visão aguçada, força física invejável ou outro predicado de destaque. Desta maneira, ele solicitou a Zeus que pudesse conceder ao homem o fogo, dando assim a sua criação algum tipo de proteção. Temendo que os homens ficassem tão poderosos quanto os deuses, Zeus negou o pedido, porém, Prometeu desobedeceu a ordem. Apanhou um caule de nártex, aproximou-se da carruagem do Sol e o incendiou. Trouxe esta tocha e entregou o fogo à humanidade, dando assim a possibilidade de o homem dominar o mundo e suas criaturas.

Por essa desobediência, Prometeu foi castigado a permanecer preso no monte Cáucaso por 30.000 anos. Durante o dia uma gigantesca águia comia seu fígado e, à noite, ele se regenerava, permanecendo nesta tortura por muito tempo (o Titã depois veio a ser liberto por Hércules, em outra história que não cabe aqui).

Como podemos observar, a mitologia grega por vezes relembra uma novela mexicana, tamanha a quantidade de caprichos, vinganças, traições e vaidades.

Nesta história, por exemplo, Zeus não guardou sua retaliação apenas contra Prometeu, mas também a desferiu contra a raça humana, que até então vivia livre de todos os males, trabalhos árduos ou tonitruantes enfermidades – também se assemelhando muito ao paraíso cristão. A mando de Zeus, Hefesto e Atena criaram a primeira mulher, Pandora, que foi feita para se parecer com a graciosa deusa Afrodite. Pandora recebeu diversos dons de todos os deuses: além da beleza, também a paz, a bondade, a generosidade etc.

Zeus Olímpio a enviou de presente para Epimeteu e, a despeito de seu irmão tê-lo alertado para nunca aceitar presente dos deuses, ele não resistiu aos encantos de Pandora e resolveu se casar com ela.

Como presente de casamento de sua criação, Zeus enviou de presente uma caixa, advertindo Pandora, entretanto, de que ela nunca deveria abri-la (algo assim como a árvore do conhecimento do bem e do mal, que também existia só para não ser utilizada). Pandora, que tinha uma curiosidade inata, resistiu algum tempo até que, por fim, não suportou mais e abriu a caixa – desobedecendo assim a ordem dos deuses e, por isso, acarretando uma grave punição, em ideia também similar a do Jardim do Éden.

Se os deuses haviam dado diversos atributos positivos a Pandora, cada um deles também havia depositado alguma coisa maléfica dentro da caixa (ou do vaso, a depender da versão) que Zeus posteriormente veio a dar de presente.

Ao abri-la, Pandora libertou toda a sorte de desgraças que acomete a humanidade, nelas inclusas a inveja, o ódio, a dor, a pobreza, a guerra, a ganância, a morte etc.

Pandora tentou rapidamente fechar a caixa, porém, depois de conseguir fazê-lo, ouvia apenas um pedido de súplica vindo de lá de dentro. Epimeteu refletiu que não havia nada pior que poderia sair e, resolveu abri-la. De fato, a última coisa que lá estava era a esperança, que ele então deixou que saísse.

Nietzsche, em seu eterno pessimismo, observou a esperança como mais um dos males contidos dentro da caixa, mais uma punição dos deuses – pois ela faria com que os homens, a despeito das agruras, continuassem a sofrer na expectativa de que algum dia as coisas melhorariam.

Entretanto, a maioria das pessoas que se debruçaram sobre o mito observaram na esperança algo de positivo, pois ela nos impede de desistir e nos dá forças para lutar contra os males que advêm inevitavelmente em nossas vidas.

E se em um país tão grande como o Brasil podemos observar no segundo turno das eleições presidenciais (presidenciais, gente, pelo amor de Deus), um candidato que sequer se esforça para disfarçar sua mediocridade intelectual, sua arrogância pretensiosa, seu farisaísmo religioso, suas contradições aberrantes, seus preconceitos vigorosos, podemos fazer uma analogia com nosso tempo presente. Se fosse utilizar uma metáfora cristã, poderíamos afirmar que nosso país se aproxima neste momento de abrir as comportas do inferno.

Mas aproveitando do antigo mito grego, podemos inferir que estamos na iminência de abrir outra caixa de Pandora.

E desta vez, sequer a esperança restará para nos apegarmos.

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