A comunidade científica e o Parlamento, por Renato Dagnino

A carta enviada ao Parlamento deveria salientar que, nos os países desenvolvidos, o subsídio que essas instituições recebem é discricionariamente decidido e alocado pelo Estado.

Foto Sapo.pt

A comunidade científica e o Parlamento

por Renato Dagnino

As organizações que representam a comunidade científica enviaram em 2 de outubro uma carta aos parlamentares para convencê-los a evitar os cortes do recurso alocado para as instituições públicas de ensino e de pesquisa anunciados pelo governo. Penso que, para ser mais efetiva, a carta deveria conter argumentos especificamente endereçados a cada uma das suas duas correntes.

Para os que defendem um modelo de desenvolvimento motorizado pelas empresas privadas, que cada vez mais dependerão das tecnologias emergentes cuja adequação à nossa realidade demanda o concurso daquelas instituições, a carta deveria enviar uma mensagem mais incisiva. Além de argumentar pela via positiva, citando casos – raros e por isso emblemáticos – em que o resultado de seu potencial tecnocientífico, ao ser orientado para gerar inovações que aumentaram a lucratividade das empresas, a carta deveria salientar que, nos os países desenvolvidos, o subsídio que essas instituições recebem é discricionariamente decidido e alocado pelo Estado. Nos EUA, é bem conhecida a expressão warfare and welfare para designar o modo como ele decodifica as demandas cognitivas da sociedade para manter as instituições que subsidia. A carta deveria também mostrar que no Brasil, muito mais do que lá, o recurso que as empresas podem a elas aportar é insignificante. O que torna insubstituível a manutenção daquele subsídio para o modelo de desenvolvimento que defendem. 

Para os que no Parlamento defendem um modelo mais igualitário do que aquele que nosso capitalismo periférico, cada vez mais dependente e financeirizado, pode produzir, a carta deveria conter um argumento adicional. Sabedores do fato de que mais de 80 milhões de brasileiros dos 160 em idade de trabalhar muito provavelmente nunca serão utilizados por empresas, e de que as necessidades coletivas (dos mais pobres, mas também dos ricos) não serão satisfeitas pelas tecnologias emergentes que já nascem “carimbadas” com o interesse das multinacionais que as geram, eles teriam que ser seduzidos pela comunidade científica de outra maneira. Um argumento irrefutável e convincente é o de que nem a mais sofisticada empresa de consultoria do mundo dispõe do potencial tecnocientífico multidisciplinar que possuímos nas nossas instituições para o reprojetamento e a adequação sociotécnica dessas tecnologias ao modelo que defendem. Com mais razão do que no caso anterior, dado que seria destinado a atividades que não têm precedentes na história – de muito maior complexidade e originalidade tecnocientífica -, o subsídio a essas instituições públicas teria que ser discricionariamente decidido e muito cuidadosamente alocado pelo Estado. Para ser coerente com esse novo modelo, o resultado do trabalho de nossas instituições públicas não deveria ter que passar obrigatoriamente pelas empresas para beneficiar a sociedade como tem sido a norma (muito menos orientado pelo “inovacionismo”). Se fosse minimizado o custo social associado à operação empresarial, que compreende desde a logística, até o lucro concentrado e financeiro, passando pelo marketing, e os malefícios derivados da obsolescência planejada, deterioração programada, consumismo exacerbado e degradação ambiental, todos – inclusive os seus netos – teriam a ganhar!

Os parlamentares que defendem esse modelo alternativo já estão convencidos de que uma estratégia democrática – de geração de “trabalho e renda” – baseada em arranjos econômico-produtivos diferentes daqueles empresariais, deve complementar a de “emprego e salário” que depende do investimento das empresas. Só precisamos convencê-los de que sua implementação exige uma política de educação e de CTI também democrática.  

 

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