A concentração de riqueza é o caminho natural do capitalismo, mas o malthusianismo será a última etapa, por Rogério Maestri

Durante o século XX vimos a introdução do Fordismo, do Toyotismo e agora a Uberização da economia.

A concentração de riqueza é o caminho natural do capitalismo, mas o malthusianismo será a última etapa

por Rogério Maestri

Muitos tomam a concentração de riqueza como uma deformação do capitalismo, com essa interpretação começam a discursos de saída fiscal de uma fase que seria uma anomalia, porém uma análise histórica nos leva a conclusão que essa concentração é simplesmente um produto da evolução desse modo de produção e que inevitavelmente não há saída por meros arranjos do tipo tributação de grandes fortunas ou de impostos progressivos maiores, pois isso tudo é produto tendência da queda da taxa de lucro das empresas.

Se analisarmos a economia a partir do fim do século XIX e início do século XX veremos que o processo de acumulação capitalista se processou sempre na direção do Imperialismo e do aumento cada vez mais intenso de grandes monopólios e a extinção das pequenas e médias empresas como a base do capitalismo da época anterior ao início do século XX.

Durante o século XX vimos a introdução do Fordismo, do Toyotismo e agora a Uberização da economia. Até as últimas décadas do século XX, o chamado setor de serviços absorvia parte da mão de obra liberada pelo setores primários da economia, as fábricas diminuíam a mão de obra aumentando o que Marx chamou de composição orgânica do capital, ou seja a relação entre o capital constante (máquinas, equipamentos, instalações fixas) e o capital variável (mão de obra). Como o lucro das empresas vem da retirada da mais valia dos trabalhadores, pois como diz o nome, o capital constante é fixo e não há como depois de instaladas máquinas ou ferramentas fazer com que essas trabalhem por menor valor, a taxa de lucro pela produção unitária de produtos tende a cair, resultando para as empresas que atinjam maior capacidade de maior capital constante baixar seus preços para vencer a concorrência. Com esse movimento resulta que as empresas com maior capital consigam menores preços unitários do que eles produzem. Esse aumento de produtividade que é decantado em prosa e verso pelos economistas capitalistas, paradoxalmente gera produtos de menor preço para uma quantidade cada vez menor de consumidores. Ou seja, maior produção com menor número de trabalhadores cria o que chamamos o desemprego estrutural, pois não há maior necessidade de trabalhadores.

A perda de empregos na extração de minerais, na indústria e na agricultura foi em parte absorvida pelo setor de serviços, empregos que no início possuíam salários aproximados aos setores primários. O setor de serviços crescia simplesmente porque em grande parte deles não era possível a concentração da riqueza nas mãos de poucos capitalistas, impossibilidade criada pelas dificuldades gerenciais de uma gama imensa de pequenos comércios. Com a concentração do setor comercial nas mãos de redes integradas sob a propriedade de grandes grupos capitalistas, começou a eliminar os pequenos comerciantes com um grande número de funcionários, porém o limite gerencial e de controle dos estabelecimentos comerciais inibia a formação de empresas imperialistas que pudessem se espalhar ao longo do mundo.

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Essa dificuldade de expansão do mesmo padrão da indústria monopolista para o setor de serviços foi vencida por dois elementos, a homogeneização do consumo universal e a informatização da gerência e controle do setor terciário, um magazine pode ter o mesmo tipo de loja em qualquer continente e com isso o mesmo tipo de controle. Com a uniformização e informatização do controle do comércio permitiu que o próprio setor terciário começasse a reduzir ainda mais o lucro dos setores que produzem riqueza como indústria e agricultura, pois se o fornecedor de um determinado país não baixar o seu preço ao máximo comprimindo os salários e benefícios sociais de seus empregados simplesmente o comprador muda de fornecedor para outro país ou mesmo para outro continente.

A situação até esse momento já estava crítica, entretanto ainda está se tornando pior, com os processos de Uberização e um comércio feito sem a necessidade de lojas e todos os custos trabalhistas que possuem essas estruturas, está se passando para outra fase de concentração ainda mais perversa, o uso de gigantescas empresas de venda por aplicativos que são meras intermediárias entre os fabricantes e consumidores. Se estivéssemos numa situação de pleno emprego, a diminuição do custo das mercadorias traria vantagens aos consumidores, mas ante de alguém ser um consumidor ele deve ter dinheiro e para tanto emprego.

Esse nó górdio no lugar de se simplificar cada vez aumenta mais, pois na medida em que se comprimem os custos pelo aumento da chamada produtividade se diminui cada vez mais as pessoas que teriam condições de aproveitar esse aumento de produtividade e diminuição de preços.

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Então qual é o futuro? A resposta é simples, ou se elimina o capitalismo ou simplesmente começa-se uma nova fase que parece se deslumbrar adiante, a chamada renda mínima universal, ou seja, a drogadição completa da imensa população do mundo. Porém essa será a armadilha, que capturando-se grande parte da humanidade para essa depois segue a segunda parte, o extermínio.

Como será isso e porque as duas fases? Basicamente é simples, como o desemprego estrutural continuará aumentando continuamente se substituirá esse desemprego por um ou mais benefícios que supram as necessidades básicas da população sem que essa precise trabalhar, provavelmente essa renda será por família e terá um valor unitário, simplesmente para que haja um primeiro controle populacional para diminuir os custos dos oligarcas que possuirão a 99% (ou mais) da riqueza do mundo. Quanto mais as pessoas receberem essa renda sem o trabalho essas ficarão fora da sociedade que produz e não terão nenhuma ligação com a realidade, ou seja, se transformará a imensa parte da população do mundo num nível abaixo do que se chama de proletariado lumpen, ou seja, serão como são os mendigos na sociedade atual. Como quem está fora da produção não tem capacidade de propor uma sociedade diferente eles ficarão a mercê daquilo que a oligarquia achar que eles devem consumir e como ocorre com a atual “elite” eles comprimirão ao máximo o consumo até o ponto que essa massa de pessoas se tornar algo dispensável para as oligarquias. Quando se chegar esse ponto aí teremos a volta de regimes totalmente fascistas onde todos os “parasitas” da sociedade serão eliminados por ela.

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4 comentários

  1. É isso, caro Maestri, não adiantam soluções neokeynesianas ou invenções liberais-progressistas, estilo MMT ou ‘jogar dinheiro de helicóptero’, pois a questão está na taxa de lucro. A existência de um mercado consumidor, que os keynesianos tanto enfatizam, depende da lucratividade e não dos gastos do estado ou aumento da dívida pública, que são soluções paliativas.
    E os agora lucros estão diminuindo, como você mostrou, também no setor terciário, a última vávula de escape do capitalismo para a absorção massiva de mão de obra: o resultado no mundo todo é o desemprego estrutural. E, como você diz, se não mudarmos o sistema, a atual situação nos levará para a barbárie, com renda minima e tudo.
    É preciso acabar com as ilusões liberais e progressistas e assumir que a única saída realista é nos emanciparmos do capitalismo e sua lógica da mercadoria.
    Parabéns pelo artigo!

  2. Isso tudo ocorrerá se antes (a) o confronto entre os capitalismo ascendente chinês e decadente norte-americano não eclodir uma guerra atômica; (b) o processo capitalista não esgotar os recursos naturais e a humanidade entrar em processo hobbesiano para sobreviver e, claro, se extinguir enquanto civilização.

  3. A hipótese (a) é fracamente possível já a hipótese (b) é impossível, pois o esgotamento de recursos naturais é algo que numa emergência ambiental pode ser substituído pela reciclagem algo que a medida que o custo da extração de recursos naturais aumenta naturalmente o reuso se viabiliza. Se isso significa uma mudança completa de paradigma e da sociedade atual, não significa extinção da civilização.

  4. Já pensaram em neofeudalismo?
    Sim, eu sei que o imperio romano quando desagregou não tinha armas nucleares.
    Pode ser o capitulo 80 do tao te ching, não?
    ou enfim o milênio

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