A Covid 19 e a volta da utopia socialista, por Eduardo Borges

Mas não só a extrema-direita, com sua postura tosca e cretina, pode ser exclusivamente responsabilizada por essa primavera obscura que estamos vivenciando.

A Covid 19 e a volta da utopia socialista

por Eduardo Borges

Muito tem se falado de que o mundo não será mais o mesmo depois da crise gerada pelo coronavírus. Outros mais sensíveis e otimistas chegam a imaginar uma humanidade mais solidária e menos egoísta. Tem os que apostam em mudanças em termos de consumo. Tudo isso quando a Covid 19 virar a esquina e tornar-se uma leve lembrança do passado. Admito publicamente que não tenho tamanho otimismo.

Contudo, consigo acreditar que algum impacto deve gerar no campo da mentalidade política. Desde a eleição de Donald Trump e de uma leva de políticos de extrema-direita, neles incluído Jair Messias Bolsonaro, que uma nuvem obscurantista vem cobrindo o Brasil e parte do mundo trazendo o regresso de valores abjetos que achávamos já devidamente sepultados pelo progresso e pela civilidade humana. 

Mas não só a extrema-direita, com sua postura tosca e cretina, pode ser exclusivamente responsabilizada por essa primavera obscura que estamos vivenciando. Reacionários de todas as matizes invadiram nos últimos anos a blogosfera vomitando canalhices contra todo e qualquer pensamento progressista. Partidos e políticos da chamada direita liberal, capitaneado por PSDB e DEM e outros menos votados, tripudiaram contra a democracia ao desrespeitar a vontade de milhões de brasileiros que votaram na ex-presidente Dilma Rousseff. Para governos que não gostamos a democracia nos oferece as urnas para fazermos justiça. Juntamente com o apoio da chamada grande mídia escrita, falada e televisiva, aquela que o saudoso Paulo Henrique Amorim apelidou de PIG, um impeachment de laboratório foi criado apoiado em um processo diário e ininterrupto de demonização do PT (como se fosse o único responsável desde Tomé de Souza pelas as mazelas do país) e de qualquer projeto político voltado para os interesses dos menos favorecidos.

Hoje, diante das ações abjetas do clã presidencial que eles ajudaram a eleger, não lhes resta alternativa que não seja o de atacá-lo em nome da civilidade. Mas essa mesma civilidade foi fortemente aviltada nos últimos anos através da nefasta fake News, das passeatas com a camisa da CBF pregando a intervenção militar ou de políticos cretinos (hoje alguns pousam de civilizados governadores) que demonstraram toda sua pequenez humana como aquele que desfilou com uma camisa que levava uma imagem da mão de Lula faltando um dedo. Essa mesma mídia hoje arrependida, deu voz e publicidade às ações sórdidas dos seguidores da seita bolsonarista (quando elas serviam para destruir o PT e a esquerda) e de grupos de imbecis mais polidos como MBL e cia. Juntos, a grande mídia e direita conseguiram estacar a sangria, e iniciaram com o governo Temer o processo de desmonte das estruturas estatais responsáveis em sustentar minimamente a seguridade social dos menos favorecidos e da classe trabalhadora.

A terceirização e a reforma trabalhista de Temer criou o preâmbulo necessário para que o banqueiro Paulo Guedes et caterva colocassem em ação seu horrendo plano de desmonte do que ainda restava do Estado de bem estar social brasileiro. 

A Reforma previdenciária, sem a taxação dos mais ricos (Paulo Guedes não vai atirar no próprio pé) e sustentada pela exploração do andar de baixo é apenas o exemplo mais explícito do cinismo dessa gente. A Carteira de trabalho verde e amarela simplesmente corresponde à ampliação de direitos de uma elite historicamente usurária e insensível em detrimento da precarização das condições de proteção e bem estar  da classe trabalhadora. 

Voltando à série “o mundo não será como antes depois da Covid 19” talvez a única certeza é de que para a classe trabalhadora seus dias de proteção social estarão contados. Em nome de um “eterno” reequilíbrio orçamentário em decorrência da crise, a burguesia brasileira encastelada ao lado dos donos do poder fará o possível e o impossível para prolongar a narrativa do estado de crise na economia. Com um presidente cujo discurso é o de frontal ataque aos “privilégios” da classe trabalhadora que somente atrapalha o desenvolvimento da “sofrida” classe patronal, esse quadro tende apenas a se agravar. No mundo pós Covid 19 cabe também a legitimação absoluta do processo de “uberização” das relações trabalhistas. Por trás do “moderno” e falacioso discurso do empreendedorismo individual esconde-se a realidade de “todo direito ao patrão nenhum direito ao empregado”. Seremos todos uma S.A em potencial. E estaremos todos fadados ao limbo social.

Mas o que nos resta de alento? O que de positivo podemos tirar dessa crise mundial? É fato que será uma luta de Davi contra Golias, mas que não pode ser perdida de maneira antecipada. Teremos uma luta em vários flancos e o primeiro deles é o da narrativa do pós-crise. 

Entendo que por mais que o cenário seja desanimador, existe um lado que favorece a certo otimismo. O primeiro fato a ser publicitado é o da necessária importância do Estado como indutor de desenvolvimento. Na Meca do capitalismo mundial, os Estados Unidos da América, terra dos baluartes do neo-liberalismo, é um Estado forte, intervencionista e protecionista que está liderando a luta contra o vírus. Isso pode ser desdobrado para outros importantes países do capitalismo mundial como Alemanha e Inglaterra. 

Da terra da rainha vem um ilustrativo exemplo da tese que defendo nesse texto, qual seja: a Covid 19 tem o potencial de trazer os valores da utopia socialista para o centro do debate mundial. Aqui me refiro ao socialismo não como um circuito fechado de conceito absoluto. Mas como uma ideia de sociedade mais solidária, menos individualista, e de uma democracia verdadeiramente popular que enxergue as pessoas como gente de carne e osso e não como um custo no orçamento público. Um socialismo cuja utopia se assemelhe à ideia de Eduardo Galeano, vejamos: 

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
Esse é o mundo a ser construído após o vírus nefasto. Mesmo sabendo que a igualdade suprema entre os indivíduos é uma utopia inalcançável não podemos deixar de caminhar em direção a ela, contudo, cientes de que o que realmente importa são as boas ações que praticamos durante a caminhada. 

Desde que a crise começou que o mundo vem reverenciando o SUS brasileiro e o NHS (National Health Service) da Inglaterra. Ambos são exemplos extraordinários de um sistema universal de saúde pública. Quanto ao SUS, tão detratado pelos inimigos do Estado dito intervencionista, entre eles o próprio partido do ex-ministro Mandetta, sua existência vem desmascarando o discurso hipócrita  e egoísta da elite e da classe média brasileira. Lembrando um antigo comercial de uma bandeira de cartão de crédito: “ver o Mandetta usar o colete do SUS não tem preço”. O SUS é somente um único exemplo do quanto defender um Estado voltado para a universalização do bem estar social de seu povo, não é uma simples figura de retórica ideológica é uma ação humanista. 

Quanto ao NHS (National Health Service) faço dele um pequeno estudo de caso. Por trás da criação do NHS está um interessante personagem da história política do Reino Unido. Em 1897 nascia na pequena cidade de Tredecar, no País de Gales, Aneurin Bevan. Filho e neto de mineiros seu pai foi um ativo sindicalista convertido mais tarde ao movimento socialista. Esse foi o ambiente em que cresceu o jovem Aneurin Bevan. Não tardou para que viesse se aproximar do movimento trabalhista e defender causas pacifistas como posicionar-se contrário à presença da Grã-Bretanha na Primeira Guerra Mundial. Em 1928 chegou à Câmara dos Comuns representando sua comunidade e derrotando com seu discurso social os adversários liberais e conservadores. Bevan foi opositor de ninguém menos do que o futuro todo poderoso Winston Churchill. Depois de passar vários anos defendendo causas voltadas para a melhoria de vida da classe trabalhadora, Bevan chegou ao poder em 1945 ao tornar-se Ministro da Saúde do governo trabalhista do Primeiro Ministro Clement Attlee. Em 1948, o Parlamento aprovou o National Health Service Act. O sonho de Bevan de um serviço estatal e universal de saúde para todos os cidadãos do Reino Unido se realizava.

Será que todos que elogiam o NHS (National Health Service) têm conhecimento de que saiu da cabeça e da vontade de um socialista?

O socialista Aneurin Bevan foi influenciado pela Sociedade Fabiana e pelo que hoje é conhecido como Socialismo Fabiano. Muito se tem falado no Brasil sobre o fabianismo, mas quase tudo de maneira completamente equivocada. Em poucas palavras, o socialismo Fabiano se apresentou como uma alternativa ao socialismo revolucionário. Sua estratégia para se alcançar a sociedade socialista é o do gradualismo, em que o Estado seria colocado como o responsável por criar políticas públicas universais que construíssem os alicerces de uma sociedade mais igualitária e menos assimétrica socialmente. Os Fabianos defendem uma saúde a uma educação pública e universal. Apostam na democratização da justiça e na criação de um sistema que ampare a classe trabalhadora. São defensores também do direito das minorias ofendidas historicamente. 

A Sociedade Fabiana existe até hoje (https://fabians.org.uk/) e se mantem ativa no debate pela construção de um mundo melhor e mais justo para todos. A sociedade publica uma revista periodicamente e a edição de 2019 trouxe o sugestivo título de: “People not problems”. O título de alguns artigos demonstra a sensibilidade social Fabiana:

– “Every child matters: We need a new national mission to improve the life chances of our most vulnerable children”.

– “The first 1,001 days: Belief in a child’s potential must sit at the heart of government early years policy”

– “In the right place: Places matter because they build the communities and relationships that are so important in times of crisis.”

Comecei esse artigo demonstrando pessimismo sobre alguma profunda mudança da humanidade no pós Covid 19. Mas concluo  com a esperança de que a crise pode nos fazer perceber o quanto a política é importante para nosso bem estar social. Entretanto, essa política pode ser nefasta se encampada por uma mentalidade elitista e individualista que enxergue as pessoas como custo e não como investimento. Uma alternativa transformadora dessa realidade somente a mentalidade socialista pode nos proporcionar. Aqui mora minha esperança de dias melhores.

Eduardo Borges – Doutor em História e Professor da UNEB

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4 comentários

  1. Muto bom texto Eduardo, não conhecia esta veia do socialismo chamada fabianismo, vou pesquisar mais no google e wikipedia. Alguma célula(?) aqui no Brasil?

    • Prezado Edivaldo,

      Acredito que não tenha no Brasil algum tipo de organização fabiana, possivelmente fabianos. Acompanho o movimento fabiano diretamente a partir do site na internet e dos boletins periódicos que recebo.
      Abraços.

  2. O grande problema com um texto que quer colocar perspectivas para depois da pandemia do Coronavírus Covid-19 é determinar a data do ‘depois’. Assim, não ficamos sabendo para quando é essa utopia e se será mesmo uma utopia. O mundo pode não ser mais o mesmo e o novo normal vir a ser a solidariedade. O socialismo pode triunfar, assim como um estado de bem estar social. Mas isso depende do tempo em que durará a pandemia. Ou, ainda, se haverá ondas, isto é, se teremos, uma, duas ou mais ondas (momentos em que os contágios e, infelizmente, as mortes, se intensifiquem). Se a pandemia for muito longa, algo em que poucos apostam, mas que pode ser possível, as probabilidades de avançarmos muito nas direções acima apontadas podem ser muito grandes. Imagine o pleito (não só o de 2020, mas o de 2022) sendo realizado sob um clima de pandemia e de destruição não só da imagem daqueles que se elegeram contra tudo o que estava aí, mas destruição mesmo… Melhor parar de imaginar. Será que alguém consegue imaginar as consequência de uma pandemia que se estenda direto por dois anos? E de forma intercalada, uma pandemia que tenha três ou quatro ondas, estendendo-se até 2026 ou 2027, por exemplo? Qual delas pode ser mais destruidora? Será a volta daquilo ou daqueles que estavam aí? Sobreviveremos? A aposta dos doidos que fazem pouco da pandemia é que ela acabará logo se ocorrer toda de uma vez num grande pico. Pode ocorrer isso. Mas podemos avaliar o tamanho desse pico? Quantos serão os contaminados? E se todos estiverem doentes a ponto de não conseguirmos sequer a criação de uma vacina? Cenários de horror. Melhor nem pensar neles. Enfim, entendo que pode ser hora de sonhar. Livre pensar é só pensar. Mas é melhor parar por aqui pois “a família do ‘se’ costuma ser muito grande!

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