A denúncia de Paulo Marinho e a anulação das eleições, por Wilton Cardoso

Na guerra total contra o bolsonarismo, a direita tradicional arma, para o ano que vem, a anulação da eleição presidencial, possibilitando que o Congresso escolha um Presidente por eleição indireta.

A denúncia de Paulo Marinho e a anulação das eleições

Por Wilton Cardoso

Do blog do autor

Na guerra total contra o bolsonarismo, a direita tradicional arma, para o ano que vem, a anulação da eleição presidencial, possibilitando que o Congresso escolha um Presidente por eleição indireta.

A denúncia de Paulo Marinho, de que Flávio Bolsonaro teria sido avisado das investigações sobre a rachadinha entre o primeiro e segundo turnos das eleições de 2018, mais do que um depoimento fortuito do amigo de Bebiano para vingar-lhe a morte “por tristeza”, faz parte de um jogo maior na guerra total entre o fascismo bolsonarista e as elites da direita tradicional ― luta em que as esquerdas enfraquecidas podem apenas assistir ou serem, no máximo, coadjuvantes.

O medo de Mourão e do remake de 1964

Bolsonaro está cercado por todos os lados, mas o processo de impedimento é complicado para direita, primeiro porque a maioria de dois terços é difícil de se atingir. Segundo e, talvez o principal, porque Mourão não inspira confiança nas elites.

O medo da direita tradicional (banca e empresários, mídia, judiciário e legislativo) é que a caserna, ao provar o vinho embriagante do poder sob comando de Mourão, não aceitaria largar o osso em 2022 . Reconheçamos que se trata de um medo justificável e realista, pois em 1964 foi exatamente isso que aconteceu.

Se Bolsonaro for impedido e Mourão assumir, é grande a possibilidade da crise perdurar para além de 2022 e o país se afundar no caos social e econômico. O que seria a desculpa perfeita para os militares se manterem no poder depois de 2022, para manter a lei e a ordem com pulso firme.

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A anulação das eleições e um novo presidente eleito pelo Congresso

Onde entra a denúncia requentada de Paulo Marinho nessa história? É que ela possibilitaria anular as eleições apenas com os votos do TSE, tirando Bolsonaro e Mourão da jogada, matando dois coelhos com uma cajadada só. Maria Cristina Fernandes, em sua coluna no Valor Econômico, já deu a senha para a nova frente de batalha aberta pela direita, desta vez contra Bolsonaro e Mourão (leia-se militares), ao mesmo tempo.

E ela lembra que no TSE há vários processos correndo para anular as eleições, entre eles um que se baseia nas fake news eleitorais. Como o assunto é investigado também no STF, por Alexandre de Moraes, há a possibilidade da investigação retroagir até 2018 e alimentar, não um processo de impedimento, mas de anulação das eleições do TSE.

Como lembra Fernandes, tudo depende da correlação de forças, que envolve a popularidade de Bolsonaro, mas também a avaliação popular do Exército e a disposição da caserna em aceitar o afastamento de Mourão e de todos os militares pendurados no poder. O Exército costuma ser bem avaliado pela população, mas justamente por se manter longe da política.

Ao pactuarem com o Governo Bolsonaro, que certamente, será desastroso, os militares correm o risco de se desmoralizarem completamente, dificultando um Governo Mourão e, mais ainda, uma continuidade autoritária pós-2022. E um ditadura, mesmo líquida, não se impõe apenas com o medo e as armas. É preciso também uma boa base de apoio nas elites e no povo

Muito provavelmente, esse jogo da direita tradicional de cassação da chapa é uma carta na manga para ser utilizada no médio prazo, caso Bolsonaro e militares se desmoralizem conjuntamente e os últimos aceitem o expurgo de seus membros do governo, junto com Mourão.

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A jogada é para 2021, quando a anulação das eleições não provocam novo pleito e sim uma eleição indireta para Presidente no Congresso, muito mais rápida e manejável pela elite.

Parlamentarismo, o sonho da direita tradicional

E certamente deve estar no radar das elites da direita tradicional a mudança para o sistema parlamentarista, por emenda constitucional e sem consulta popular, para impedir que outsiders como Bolsonaro assumam o poder.

Mas a ideia do parlamentarismo é impedir, também, que a esquerda volte ao poder, com a eleição de um presidente progressista. E da maneira como os deputados são eleitos atualmente, somado às tendências conservadoras do eleitorado nacional, um parlamentarismo afastaria a esquerda do poder por um longo tempo.

Um parlamentarismo armado de forma que impossibilite a volta da esquerda ou a eleição de outsiders fascistas acalmaria, ao mesmo tempo, os militares e a elite de direita. Então, ambos deixariam de lado as tensões atuais e voltariam a conversar como os velhos amigos que sempre foram.

Só falta combinar com o Sr. Crise e sua vítima mais sofrida, o Sr.Povo ― nome que não se refere apenas ao Zé Povinho da ralé, mas vai abarcar cada vez mais as classes médias empobrecidas ou perigando empobrecer. E classes médias tensas e amedrontadas, na quadra atual do capitalismo, tem resultado em recrudescimento do fascismo, no país e no mundo.

Os planos de controle total da política urdidos pela direita tradicional têm chances reais de se concretizarem, seja via impedimento de Bolsonaro, seja via anulação das eleições em 2021, afinal a elite tem poder econômico e meios políticos para manejar as instituições.

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O problema é que, com a agravamento da crise, o diabo (o fascismo) expulso pela porta da frente, sempre dá um jeito de entrar pelos fundos. Não custa lembrar que Hitler chegou ao poder na Alemanha pelo voto, e o regime era parlamentarista.

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