A destruição na selva das cidades, por Paulo Fernandes Silveira

Poderíamos dizer, seguindo o raciocínio de Benjamin, que assim como há uma violência pura, há uma destruição pura.

(“Na selva das cidades”, de Brecht, direção de Zé Celso e cenários de Lina Bo Bardi)

A destruição na selva das cidades

por Paulo Fernandes Silveira

Num artigo instigante, o filósofo do direito Andityas Matos aproxima as ideias de Walter Benjamin sobre a violência e a destruição e a Gotham City dos quadrinhos e do cinema. Com a influência dos vilões Coringa e Bane, Gotham enfrentaria algo semelhante à violência pura analisada por Benjamin. Impondo o caos à cidade, esses dois criminosos estimulam o povo a praticar a violência pela violência, sem ter qualquer causa ou objetivo aparente. A mesma ausência de razões marcaria, para Benjamin e para os criadores de Gotham City, o impulso à destruição.

Poderíamos dizer, seguindo o raciocínio de Benjamin, que assim como há uma violência pura, há uma destruição pura. Num texto curto sobre o caráter destrutivo, afirma o filósofo:

“O caráter destrutivo não tem ideais. […] O caráter destrutivo não vê nada de duradouro. Mas, por isso mesmo, vê caminhos por toda a parte. Mesmo onde os demais esbarram em muros ou montanhas, ele vê um caminho. Mas porque vê caminhos por toda a parte, também tem que abrir caminhos por toda a parte”.

O tema do caráter destrutivo do homem também aparece nas peças de Bertolt Brecht, interlocutor e amigo de Benjamin. Em “A ópera de três vinténs”, escreve o dramaturgo: “Pois de que vive o homem? Tão-somente de maltratar, morder, matar como um animal insano, e tendo esquecido inteiramente de que ele próprio é um ser humano. Não vos deixeis, senhores, iludir: o homem vive só de destruir”.

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Na excelente tese transformada no livro Dentro do nevoeiro, o arquiteto Guilherme Wisnik comenta a montagem de José Celso Martinez Corrêa da peça “Na selva das cidades”, de Brecht. Quando foi a público, em 1969, no Oficina, a prefeitura da cidade estava construindo ao lado do teatro o viaduto que ficaria conhecido como Minhocão. Responsável pelo cenário e pelos figurinos, Lina Bo Bardi levou ao palco os restos de materiais da construção e do lixo que a obra produzia. Nas palavras de Zé Celso: “Ela saía feito doida no meio da rua: ‘Que bonito! Que maravilha!’ Os maquinistas pensavam que a mulher estava maluca; ela catava o que havia de mais sórdido, triava e botava no cenário”.

Segundo Wisnik, o palco da peça era um ringue de box “que ia sendo destruído pelos atores e pela plateia ao longo da encenação, até converter-se ao final em carcaça nua, ruína”. Após verem o palco destruído nas muitas encenações de “Na selva das cidades”, uma metáfora da destruição das velhas estruturas sociais, Zé Celso e Lina Bo Bardi decidiram demolir o próprio teatro para construir um novo edifício.

Em sua análise do livro de Wisnik, o filósofo Vladimir Safatle afirma: “O que faz a singularidade desse livro é certa compreensão, digamos, dialética da demolição, na qual uma nova forma de sensibilidade e existência pode emergir depois do nevoeiro”.

Quem sabe, na companhia de tão belas reflexões e criações, possamos esperar a produção de novas subjetividades e de uma nova sociedade superadas a violência e a destruição que enfrentamos atualmente na selva das cidades.

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Paulo Fernandes Silveira (FEUSP e IEA-USP)

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