A diferença entre Lula e Bolsonaro: O que está em jogo?, por Thomas Bustamante

A liberdade sem responsabilidade é o elemento mais central do bolsonarismo.

A diferença entre Lula e Bolsonaro: O que está em jogo?

por Thomas Bustamante

O Partido dos Trabalhadores acaba de publicar um jingle para promover o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva no seu 76º aniversário, que antecipa o tom da campanha de Lula para as eleições de 2022. O jingle marca um contraste acentuado entre as visões políticas de Lula e de Bolsonaro.

O discurso de Bolsonaro se fundamenta em um ethos que pressupões duas noções: de um lado, a ideia de que a sociedade é dividida entre cidadãos de bem, que sustentam os valores conservadores do bolsonarismo, e os pseudo-cidadãos que aderem a formas de vida menos valiosas; de outro lado, a ideia de que cidadãos de bem, diferentemente de cidadãos ordinários, estão intitulados a uma liberdade especial que pode ser descrita como “liberdade sem responsabilidade”.

A liberdade sem responsabilidade é o elemento mais central do bolsonarismo. Ela rejeita o conceito liberal de autonomia, que está lastreado na noção kantiana de que somos livres na medida em que somos seres racionais capazes de controlar nossos instintos e assumir responsabilidade pelo que fazemos aos outros ou a nós mesmos. Em contraste com a concepção iluminista de mundo, o bolsonarismo autoriza os seus defensores (e mais ninguém) a agir com base em inclinações e sem o ônus de examinar a si mesmos.

A resposta de Lula está baseada na ideia oposta, é dizer, em um apelo à esperança e uma fé na capacidade de pessoas comuns e humildes decidirem o seu próprio destino. O marketing político de Lula não precisou mais do que três frases para passar essa mensagem. O jingle começa com a frase: “quero tanto ter alguém que sinta a dor da gente”. O valor primário, portanto, é a empatia, a capacidade de compartilhar a angústia do povo e de responder às suas necessidades. Noutros termos, ele afirma um dever do governo de tratar os seus cidadãos como sujeitos iguais, merecedores do mesmo tipo de consideração e respeito.

Sob a melodia de um forró, o vídeo mostra imagens de pessoas comuns, de raças misturadas, e introduz uma segunda sentença: “pense bem no que viu e no que virá. Imagina Lula lá”. Essa é provavelmente a mensagem mais poderosa. Ao invés de prometer vingança contra os seus opositores ou responder a Bolsonaro, Lula está dizendo ao povo brasileiro (especialmente aos vulneráveis, oprimidos e pessoas comuns) que eles são capazes de fazer juízos responsáveis acerca de si mesmos. Ele está tratando as pessoas como capazes de fazer inferências e de imaginar as consequências de suas escolhas políticas. Ele está convidando a população a refletir sobre o que nós (brasileiros) perdemos na última década e apelando às nossas conquistas da primeira década do século, para percebermos o que somos capazes de fazer.

A terceira citação é igualmente poderosa: “sofrimento pede pressa. Imagina Lula lá”. Lula está se dirigindo a um povo que perdeu mais de 600.000 vidas para a COVID (500.000 delas quando já havia vacinas disponíveis no mercado), vivenciou o retorno da fome e hoje tem mais de 40 milhões de pessoas na pobreza extrema. Ele está chamando os eleitores a quebrar a inércia e reagir ao ceticismo que levou à ascensão do bolsonarismo. Em resposta às crises moral, econômica e social que a presidência de Bolsonaro impôs à sociedade brasileira, Lula está nos dizendo que a política é o lugar adequado para nos emanciparmos.

As próximas eleições presidenciais no Brasil serão um dos mais importantes eventos políticos do Século XXI. Enquanto Bolsonaro tem o apoio de Trump e insiste em uma campanha de mentiras, negacionismo em relação à ciência, indiferença ao meio-ambiente e ressentimento com as instituições, Lula apela aos melhores anos da história brasileira e nos assegura de que a razão e a emoção podem trabalhar juntas. Ele nos diz que a política democrática é um locus imprescindível para realizarmos algo de valioso com as nossas vidas, e nos oferece a confiança de que o Brasil pode deixar para trás o anti-liberalismo. As promessas e comprometimentos divergentes de Lula e Bolsonaro se encontram no centro do desacordo político mais fundamental do nosso tempo.

Thomas Bustamante – Professor da UFMG

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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