A dimensão política da cultura brasileira é incansável na busca pelo Brasil autônomo e soberano, por Mariana Barreto Lima

A dimensão política da cultura brasileira é incansável na busca pelo Brasil autônomo e soberano

por Mariana Mont’Alverne Barreto Lima

Em tempos de constrições às políticas de Estado brasileiras, de franqueados ataques à soberania nacional, de afrontes à Constituição e demais instituições, parte importante da história de consolidação de nossa moderna tradição, de nossa modernidade conservadora é colocada em xeque. A incapacidade nos abate e, combinada aos dramáticos episódios trazidos pela atual crise sanitária e seus efeitos deletérios, esbarram na cultura brasileira de forma atravessada, evocando um caminho reflexivo que, assim como ontem, pode suscitar algumas estratégias de superação do desditoso momento.

Em menos de uma semana fomos surpreendidos pelas emissões, na Rede Globo de Televisão, em programas cujas audiências ainda são consideráveis para os parâmetros da televisão aberta no Brasil e por isso considerados programas populares, de duas odes à música popular brasileira. Primeiro, a execução de “Trenzinho Caipira” pela Orquestra de Câmara da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Na interpretação, a música de Heitor Villa-Lobos serviu de base sobre a qual misturaram-se “referências da MPB”[1]. Poucos dias depois foi a vez de assistirmos a Orquestra Sinfônica de Campinas executar “O Guarani” de Carlos Gomes[2]. A mesma emissora, parte conhecida de um grande grupo de comunicação, fautora do descerramento do caminho que nos conduziu ao atual estado de desmantelo de nossas instituições democráticas, recorreu aos irretocáveis concertos de duas expressões musicais populares de nossa formação nacional, para dirimir as correntes dores dos brasileiros. As obras executadas e seus compositores exprimem projetos de representação da identidade nacional, daquilo que foi ou é emblemático, a partir de reinterpretações do popular, da cultura brasileira e do povo brasileiro.

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Projeto semelhante ao que encontramos no nacional e no popular que aparece nas composições combinadas à “Trenzinho Caipira”. Inclusive muitas inspiradas por projetos de modernização, também nacionais, alinhados às esquerdas brasileiras. Boa parte dos compositores arregimentados para aliviar os brasileiros é representativa destes projetos de nação, ainda que situados em tempos distintos, procurou em suas obras,  fecundar o ideal nacional, que seria transmutado pelas interpretações de novos grupos sociais em outros momentos históricos. Sem esquecermos suas orientações políticas, podemos afirmar que, combinadas às estratégias de construção ou transformação do Estado brasileiro, buscou atenuar sua submissão e avançar na conquista da autonomia[3].

Creio que esta parte representativa da cultura brasileira, artistas e obras, é hoje considerada, pelo governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro e seus apologistas, como expressão daquilo que confusamente nomeia “marxismo cultural”, produção da esquerda (sim, ela é única), de comunistas (sim, são vários). O problema é que estes artistas e obras execráveis nos unem, nos tocam a todos, diluem boa parte das polarizações simplistas advindas da pobreza intelectual que assola nossas intervenções nos debates públicos. A própria emissora faz uso deles para atualizar a força do país frente à debilidade do presidente, e sua equivocada atuação política, que ela matizou para eleger. Embora abundem lives de música popular brasileira, recorre-se às produções do passado, àquelas que num tempo remoto consolidaram uma imagem do país, da nação e de seu povo. No entanto, os eventos nos afastam de qualquer nostalgia, nosso melhor momento não está no passado, mas no oportuno, e irrecusável, convite que ele nos faz para  trabalhar, hoje, com seus elementos. As duas apresentações levadas a efeito num breve espaço de tempo, objetivando acalentar os lares brasileiros em meio à pandemia e ao horror das estatísticas obituárias que nos atualizam, explicitam uma nação que foi imaginada, inventada, sonhada, fabulada, criada, realizada, frustrada, não faz muito tempo.

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As configurações e movimentos da realidade da cultura brasileira são maiores e mais complexos que as ideias e palavras, irrefletidas, desidratadas e efêmeras, do presidente da república e dos seus secretários de cultura. Tudo isso passará, para agora acredito que algumas passagens se apresentam: denegar o desastre, como de hábito, ou debater sobre o lugar político das culturas brasileiras. Independente das intenções da emissora, a consciência sentimental de nós mesmos e de nossa situação frente ao outro, que as apresentações nos trouxeram, confrontam projetos de nação que estão em movimento, se desenvolvem, se transformam ou se rompem[4]. As relações sociais, substrato daquilo que chamamos realidade, se fazem numa combinação de elementos do passado e do presente, deixando sempre que entrevejamos o futuro. A tragédia política da cultura brasileira é nosso desafio prático, nosso desafio teórico e prático de fôlego talvez deva concentrar-se na articulação de estratégias para a realização de uma democracia política e social que reconheça o “povo brasileiro” nas diversidades e desigualdades sociais, raciais, regionais, culturais, metamorfoseadas nas culturas brasileiras. Se retrabalhadas, serão capazes de dar novas fisionomias a outros projetos de nação.

[1] Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2020/05/17/fantastico-encerra-com-clipe-de-trenzinho-caipira.ghtml. Acesso em 21/05/2020.

[2] Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2020/05/21/longe-dos-palcos-musicos-da-sinfonica-de-campinas-gravam-opera-o-guarani-cada-um-da-sua-casa-video.ghtml. Acesso em 21/05/2020.

[3] ORTIZ, R. Cultura Brasileira  e Identidade Nacional. 4ª Edição. São Paulo: Brasiliense, 1994. Vale a leitura rápida de Bernardo Ricupero em: https://www.brasil247.com/blog/a-destruicao-do-brasil. Acesso em 17/05/2020.

[4] Voltando a um antigo mas não datado artigo de Octavio Ianni: IANNI, O. A questão nacional na América Latina. Estudos Avançados, vol. 2, N. 1, Jan-Mar 1988, P. 5-40.

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