A diversão de Bolsonaro, por Clarisse Toscano de Araújo Gurgel

No pior dia da pandemia no Brasil, Jair Bolsonaro resolveu anunciar um churrasco. Enquanto isto, os lúcidos seguiam tentando se proteger para não morrer

Foto: Reprodução

A diversão de Bolsonaro

Por Clarisse Toscano de Araújo Gurgel*

 

No pior dia da pandemia no Brasil, Jair Bolsonaro, seguindo sua metodologia, resolveu enganar todo mundo, anunciando um grande churrasco. Enquanto isto, os lúcidos – em casa, ou forçados a trabalhar -, seguiam tentando se proteger para não morrer de doença, de fome ou de desgosto.

Já é sabido que Bolsonaro sofre de um traço psicótico. Em termos simples, isto envolve uma ausência de distinção entre fantasia e real. De tal modo que a patologia de Bolsonaro envolve uma incapacidade de discernir entre sua vontade e a realidade.

Dito deste modo, no entanto, Bolsonaro poderia ser tratado como um doente. Algo que despertaria em nós uma certa piedade. Ocorre, porém, que, entre tantos psicóticos por aí, não são todos aqueles a possuírem as mesmas vontades de Bolsonaro. O problema do atual presidente não é, pois, sua esquize, a divisão que venha a ocorrer em sua alma, em seu espírito, ao ponto de ele não saber ao certo nem mesmo o que ele é. Sendo apenas isto, ele teria nossa compaixão. O problema é sua alma, sua psiquê – aquilo que se inscreve em sua série prazer-desprazer – esteja ela cindida ou não. Em outras palavras, o mal está no que diverte Bolsonaro, em suas fantasias. E aí, queira ou não, todo reacionário carrega um pouco de Bolsonaro em si.

Bolsonaro cresceu tendo prazer na violação humana e tendo desprazer com comunistas. Um soldado perfeito para cumprir a tarefa de eliminar qualquer um que estivesse no meio do caminho dos capitalistas, qualquer opositor, de tal modo a constranger a própria política. Em um contexto de Guerra Fria, isto não soaria caricato. Mas hoje, após o “trabalho bem feito”, após o assassinato, espancamento, prisão, perseguição e desaparecimento de milhares de militantes, sindicalistas, lideranças populares, o sucesso dos Bolsonaros, no Brasil, é duplo. Sua aparente alucinação é tão concreta como antes, apenas tem, em seu gozo, um mais-de-gozar, um mais-valor: como muitos da esquerda já foram liquidados, sua meta – em grande medida, já atingida – é um plus.

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Este mais-de-gozo terá sempre uma natureza de clichê, mas, quanto mais obsoleto, mais fora da realidade aparentar Bolsonaro, mais próximo ele terá chegado da realidade que ele quer. E, para nós mesmos não confundirmos nossos desejos com o real, precisamos encarar os fatos: sindicalistas, lideranças populares e indígenas, militantes do campo e da cidade continuam sendo perseguidos, presos, torturados, assassinados, no Brasil. Esses “comunistas” existem. A prova disto é seu sumiço.

Bolsonaro expandiu suas perversões: age no abuso e na violação da lei, agora, em âmbito nacional. Sua escola foi a ditadura empresarial-militar de 64, no Brasil. Seu espelho são os arapongas. À base de cadeiras do dragão, pianola de Boilesen, pau-de-arara, os mortos, sobre os quais a lépida Regina acha “estraga-prazer” falar, foram, por sua turma, criados.

Portanto, quando falamos do presidente, não estamos falando de um psicótico. Estamos tratando de um psicótico com má formação e que encontra lugar em nossa cultura nacional. Suas fantasias encontram a verdade de sua representação na fiel reprodução da história do Brasil. A ele sempre esteve reservado o papel de muitos outros. O que há de estranho é Bolsonaro agir, na institucionalidade, tal como age fora dela, quando a regra é: agir fora, como se estivesse dentro. É assim como atua uma milícia, paramentada de Estado. De tal modo que o fora e o dentro se revelam uma questão de grau e de conveniência. Por isto, assim como, nos porões da ditadura, fazia-se necessário um gerente da tortura, encarregado de controlar os mais ávidos por ferir, os mais sedentos por gerar sofrimento, figuras como Mourão são como aqueles que cumprem, hoje, o papel de “gerenciar os excessos”. Apenas os excessos.

Engana-se, portanto, quem pensa que Bolsonaro age em completa dissonância com as instituições brasileiras. São dois braços – o legal e o ilegal – comandados por um mesmo cérebro. E o nome deste cérebro é Doutrina de Segurança Nacional, ordenamento sob o qual se deu a transição democrática no Brasil, a partir de um Estado de Quarto Poder: um modelo voltado para a governabilidade, para uma “democracia viável”, em que as Forças Armadas tutelam os outros três poderes da República, no interior de cada um deles. Nestes termos, o fascismo mais caracteriza Bolsonaro, um oficial eleito, do que o próprio exército, eternizado no poder.

Bolsonaro, assim, sempre fez a mais velha das políticas. Elas datam de 64. E seu poder de negociação sempre contou com o chorume dos velhos esquadrões da morte. Da década de 60 pra cá, a história do Brasil coleciona os danos gerados por assassinos políticos, cujo prazer, muitas vezes, envolvia assistir sessões de tortura, tal como se assiste um espetáculo de ópera. Entre os mortos, estão, desde seus capangas, fáceis de matar, até seus principais inimigos intoleráveis. Assim, entendemos as obras deste velho roteiro: o acidente de Teory Zavascky, a execução de Marielle, a perseguição a Adriano da Nóbrega, a morte repentina de Hugo Chávez, de Nestor Kirchner, o câncer de Lula, de Dilma, de Rafael Correia, de Cristina… Se estas conjecturas parecerem ao leitor fantasias em demasia, declaro que nossos fantasmas encontram verdades indubitáveis, no mundo.

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Batalha defensiva e Diversionismo

Leitura de muitos adeptos da guerra, Carl Von Clausewitz chamou de “diversão” um ataque em território inimigo que lança as forças para longe do ponto principal. O termo se traduzirá, na política, por “diversionismo”, a tentativa de mudança de foco, a partir da inserção de um ponto diverso ao debatido. Bolsonaro passa seu governo na diversão, nos dois sentidos do termo: 1. Diverte-se com a experiência de reviver a ditadura civil-militar brasileira, como líder de um Estado de segurança do grande capital com verniz eleitoral e; 2. Diversifica a pauta, tirando o foco do principal.

Até hoje, o foco, que deveria estar na destruição que Paulo Guedes faz no serviço público e nas condições de trabalho, fica nas estripulias de Bolsonaro. Agora, o diversionismo e a diversão de Bolsonaro são cometer atos não tipificados – desrespeitar orientação da OMS – para tirar o foco nos crimes pelos quais sua família é investigada. Esta é sua batalha defensiva, em que a diversão, tal como ensinou Clausewitz, tem, inclusive, o papel de atrair aqueles que, porventura, estão desanimados no campo adversário. E não são poucos os que querem ser convencidos de que é só uma gripezinha para poder curtir um churrasco e uma pelada.

Bolsonaro diverte e se diverte. Atende às demandas dos especuladores, acabando com a seguridade social, com os direitos trabalhistas e, agora – extraordinariamente, tal como queria, ordinariamente -, com o serviço público e com a administração pública. Com a tarefa cumprida, alguns aliados de Bolsonaro já buscam a linha de retirada e abandonam seu capataz.

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Diante de tantos desprazeres, torna-se emergencial olharmos um pouco mais para nós mesmos, de revolucionarmos a ideia de Brasil. Algo que consiste, dentre outras coisas, em assumirmos a autoria desta nova forma de fazer política. Foi este um ponto decisivo para os brasileiros indecisos, quando iludidos por Bolsonaro. Isto passa por transplantarmos para a política uma lição da economia: aprendemos que nós trabalhadores não podemos cair na armadilha da concorrência entre si. Contra isto, temos como guia a fraternidade. Lutemos para que os trabalhadores organizados – os partidos da esquerda – não fiquem, também entre si, reféns da concorrência política. Assim, talvez, sem interdições e desmentidos, sem recalques e censuras, a esquerda possa aproximar seu sonho da realidade.

 

*Clarisse Toscano de Araújo Gurgel é Cientista Política, professora da Faculdade de Ciências Sociais, da UNIRIO

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