A entrevista de Rafael Ramirez à CNN, por Andre Motta Araujo

Ramirez conheceu e conhece os cantos mais escuros do regime de Maduro e deu um depoimento importante para adicionar ao complicado quebra-cabeças em Caracas.

A entrevista de Rafael Ramirez à CNN

por Andre Motta Araujo

O engenheiro Rafael Ramirez foi figura importante do regime chavista da Venezuela de 2002 a 2007, foi Ministro de Minas e Energia de 2002 a 2014 e Presidente da estatal de petróleo PDVSA de 2004 a 2014. Depois foi Ministro das Relações Exteriores do governo Maduro e, finalmente, Embaixador da Venezuela na ONU até 2017, quando rompeu com Maduro e foi demitido. Hoje vive fora da Venezuela em lugar secreto por estar ameaçado de morte.

Ramirez deu uma impactante entrevista ao premiado jornalista Andrés Oppenheimer, da CNN, transmitido no domingo último pela manhã. Ramirez conheceu e conhece os cantos mais escuros do regime de Maduro e deu um depoimento importante para adicionar ao complicado quebra-cabeças em Caracas.

1.CHAVEZ MORREU NA VENEZUELA E NÃO EM CUBA – Ramirez esteve com Chavez no dia anterior à sua morte e disse que Chavez não estava informado que poderia morrer logo. Chavez pensava que o tratamento tinha dado certo e que ele sobreviveria. RAMIREZ INSINUOU QUE CHAVEZ PODE TER SIDO ASSASSINADO, disse que na véspera de sua morte Chavez estava disposto e fazendo planos, não estava moribundo e nem planejando sucessão.

2.A VENEZUELA DE MADURO NADA TEM A VER COM A DE CHAVEZ – Ramirez disse que o governo Chavez era relativamente próspero, que havia emprego e renda apesar de alguns erros e que Chavez jamais agiria com a incompetência de Maduro, que Ramirez considera absolutamente desqualificado.

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3.A SUCESSÃO DE CHAVEZ NÃO ESTAVA CLARA QUANDO ELE MORREU – Segundo Ramirez, Chavez não preparou sua sucessão porque não imaginava que fosse morrer em curto espaço de tempo, a sucessão foi improvisada e Maduro é cercado e protegido por segurança não-venezuelana, enclausurado em uma bolha, não disse que é a segurança cubana mas deu essa pista, Maduro governa em nome dos militares que são a fonte de seu poder.

4.OS MILITARES SÃO A CHAVE NA MUDANÇA DO REGIME MADURO – Nenhum plano de mudança de governo pode ser efetivado sem os militares.

5.GUAIDÓ NÃO REPRESENTA NADA NA VENEZUELA – Segundo Ramirez, Guaidó foi eleito presidente da Assembleia e só, não representa uma sucessão de Maduro aos olhos da população, é apenas um oportunista, não representa nenhum segmento e não tem nenhum poder de mobilização.

AVALIAÇÃO DE ANDRES OPPENHEIMER: O jornalista fez uma avaliação da entrevista de Ramirez, dada em lugar não revelado por questões de segurança.

Segundo Oppenheimer, Ramirez QUER ENTRAR NO JOGO DA SUCESSÃO DE MADURO, é o político venezuelano no exílio com maior envergadura no chavismo, do qual é hoje dissidente, mas não é ligado à oposição ao regime, que desqualifica como não representativa. Ele quer uma sucessão DENTRO DO CHAVISMO.

Lembro que há outro nome chavista de peso no exterior, JOSE ROJAS, que foi Ministro das Finanças de Chavez e número 2 da PDVSA e hoje é representante da Venezuela (e mais 9 países) no FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Engenheiro de petróleo pelo Instituto Francês do Petróleo, foi dele a decisão de participar de uma refinaria no Nordeste do Brasil com a Petrobras para refinar petróleo pesado venezuelano, decisão tomada na churrascaria El Alcazar, em Caracas, maio de 2003, entre Rojas e brasileiros. Dessa reunião saiu a refinaria Abreu e Lima, em Recife. Rojas tem trânsito maior que Ramirez no exterior.

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A situação política venezuelana é hoje muito fluida e o PT NÃO deve se abraçar a Maduro como fez irresponsavelmente com a presença da presidente do PT na última posse. Como já escrevi aqui em outro artigo, Maduro hoje justifica os regimes de direita na América Latina, o que é uma pena, acaba ajudando os ultra-direita a se manterem no poder e ganhar eleições. Se Stalin fosse vivo jamais apoiria Maduro só porque tem a capa de esquerda. Stalin não apoiava regimes fracassados ou que fossem fracassar, por isso retirou seu apoio aos comunistas espanhóis em 1939 e aos comunistas gregos em 1949. Como dizia Talleyrand a Napoleão, “certas decisões, mais que um crime, são um erro”. Apoiar Maduro é simplesmente um erro geopolítico.

Rafael Ramirez entra no jogo venezuelano como alternativa a Maduro. Propôs uma JUNTA PATRITICA, com os militares, para tirar Maduro. Não vejo muita viabilidade nesse plano, mas foi uma entrevista importante para entender o xadrez venezuelano, cujo fim não está ainda visível e tampouco claro.

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24 comentários

  1. É bom esperar mais para saber QUEM apoiar na Venezuela. Muita mentira e notícias duvidosas de um lado e falta de clareza de outro.

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  2. André, uma dúvida: é líquido e certo que os militares são o centro do xadrez político da Venezuela, mas os coletivos também não entram como uma fator forte a favor de Maduro? Me parecem que esses coletivos, que funcionam como uma força paramilitar, são leais a Maduro. Logo, mesmo que os militares quisessem tirar Maduro do poder ( e razões não faltariam dado a absoluta incompetência dele no campo econômico ), os militares correriam o risco de combater esses coletivos, gerando um banho de sangue sem precedentes e tornando pior ainda o caos econômico do país ?

    • Voce tem razão, os coletivos são e serão um problema em qualquer equação do conflito venezuelano.
      Não tenho resposta para essa situação complexa, os coletivos sobrevivem com a paga que recebem,
      são violentos e pouco sujeitos a disciplina militar, o que aumenta o problema.

  3. O desespero dos empregados do imperialismo só não é maior que o de seus patrões. Onde já se viu alguém invocar o santo nome de Stalin para justificar o injustificável? Ora, ora… O truque de entrevistar um ex-qualquer coisa venezuelano com a pretensão de indicar uma alternativa sem pé nem cabeça, para não falar das raízes, para o processo revolucionário daquele país é mais conhecido que uma nota de dois reais. Acredite quem quiser e não puder pensar por si mesmo. A CNN não tem qualificações para apoiar quem quer seja, mesmo que seja mais um candidato a ventríloquo. O que essa empresa jornalística noticia, mesmo que for sobre um prédio que caiu ou um tsunami, não merece crédito. Pode estar errado! Vai que o prédio em questão seja outro, o que está ao lado de minha casa, por exemplo, ou o tsunami aconteceu em Caraguatatuba e não em Java!

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  4. Penso que os militares venezuelanos são nacionalistas. Portanto, enquanto houver o risco de uma submissão ao poder dos EUA, Maduro continuará presidindo a Venezuela. A existência de regimes neoliberais, entreguistas, na América do Sul contribui para a manutenção de Maduro. Um governo como o de Bolsonaro, que bate continência à bandeira dos EUA, coloca de prontidão os militares venezuelanos.
    Porém, estão ocorrendo mudanças pelo voto e por manifestações violentas em vários países sulamericanos. Se ocorrerem mudanças para regimes democráticos e nacionalistas, haverá mudança negociada no regime venezuelano.

    • A politica venezuelana não pode ser simplificada. CHAVISMO e MADURISMO são grupos bem diferentes, CHAVISTAS de origem estão quase todos fora do poder, Guaidó é de origem chavista,
      a OPOSIÇÃO DE DIREIATA, Leopoldo Lopez e Henrique Capriles é um um grupo compleamente diferente do grupo de Guaidó, mesmo dentro do MADURISMO, o Presidente e Diosdado Cabello
      não são a mesma coisa, Cabello em certo sentido manda mais que Maduro e tem mais ligação
      com os militares do que Maduro. A entrevista de Ramirez que é chavista não-madurista precisa ser vista nesse contexto.

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      • Guaidó de origem chavista?!!! Aquele canalhinha infame que desceu ao ponto de pedir a invasão da Venezuela pelos Genocidas do Norte?!! Guaidó, o vagabundinho e um dos fundadores, em cumplicidade com leopoldo lópez, do Voluntad Popular, um partido que ao fim e ao cabo é uma extensão do infame Pacto de Punto Fijo? Caro André, tenha respeito pela inteligência alheia!

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        • Meu caro, Leopoldo Lopez foi prefeito de Chacao, o bairro dos ricos de Caracas e sua familia é das mais conectadas da Venezuela, seria a elite caraquenha mais nobre, Guaidó é classe média de La Guaira, são contextos bem distintos e obviamente Lopez e Guaidó são hoje concorrentes para liderar a oposição a Maduro embora possam numa fase de lutas estarem inicialmente juntos. A entrevista de Ramirez é a
          prova explicita de que há um chavismo anti-madurista se posicionando.

  5. Ao longo dos últimos anos, montei um respeitável banco de dados sobre a Venezuela com matérias de jornalistas e estudiosos do mundo inteiro. Em lugar nenhum encontro nada parecido com algumas dessas colocações feita pelo Ramirez, a não ser quando vindos da oposição Venezuelana ou de elementos da direita. Como o GGN é extremamente suspeito e parcial em se tratando da Venezuela, fica a ressalva

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    • Não há uma só oposição na Venezuela, há uma oposição de direita, tambem dividida entre os grupos de Leopoldo Lopez e Henrique Capriles e há uma oposição CHAVISTA contra Maduro, representada por Juan Guaidó, que vem do campo do chavismo. Dentro do MADURISMO há o grupo de Maduro e o grupo de Cabello, que são rivais. Ramirez é a mais alta expressão da OPOSIÇÃO CHAVISTA a Maduro.

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  6. É o velho diz-que-diz dos políticos visando o de sempre……chegar ao poder….. nenhuma preocupação com o bem estar do povo…….

    Tanto lá, como cá, é um jogo que já encheu os pacovàs ….ahhhh…mas tem os “cientistas” políticos pra explicar toda essa idiotice…..

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  7. Então juntemo-nos aos imperialistas e vamos apedrejar o Maduro.

    Pelamor, Caro André.

    Achei interessante esse entrevistado insinuar que o Chávez foi assassinado (a mando do Maduro) e mesmo assim aceitar integrar o seu governo.

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    • Não estou de modo algum endossando ou defendendo Ramirez, seu carater e suas intenções, estou comentando uma entrevista dele, que foi de fato um personagem muito importante do regime.

    • Os Impearialistas ataca o Maduro por causa do petróleo. E quanto à nós, qual o nosso interesse em atacar o Maduro?

      De grátis?

  8. “Apoiar Maduro é um erro geopolítico”… quer dizer então que em matéria política Putin, Xi Jinping e Erdogan estão errados e André Araújo está certo. Economistas chutam tudo e erram sempre.

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    • Putin, Xi Jinping e Erdogan apoiam Maduro POR SEUS PROPRIOS INTERESSES GEOPOLITICOS que significam diminuir a esfera de influencia dos EUA na região e não porque achem Maduro bom.
      Pela mesma razão Putin apoia o governo Assad na Siria e Trump o governo da Ucrania, inimigo da Russia.

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    • Nada a ver.Os apoiadores de Maduro Russia, China e Turquia não o fazem por admiração a Maduro e sim porque lhes interessa desgastar o poder dos EUA na região e pelo mesmo motivo Trump apoia o
      presidente da Ucrania, para aborrecer a Russia, ao passo que Putin apoia Assad na Siria para garantir espaço geopolitico no Oriente Medio e não porque ache Assad um grande personagem.

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      • Durante a segunda guerra mundial o Getúlio Vargas se levantou contra o nazi-fascismo não porque não admirasse Hitler e Mussolini, mas porque o Brasil é o quintal dos EUA.

        Nihil novi sub sole

        • Nada é tão simples e esquematico em geopolitica. Houve uma reversão de alianças na A.Latina, liderada pelo Brasil nas Conferencias de Havana e Rio em 1942, depois o afundamento de 5 navios brasileiros com perda de 364 vidas no litoral da Bahia, isso
          numa só noite, por submarinos alemães, que provocou a declaração
          de guerra do Brasil, o Brasil LIDEROU a America Latina contra o Eixo,
          com exceção de Argentina e Chile, que ficaram neutros até março de 1945. O Brasil cobrou alto preço pelo apoio, a siderurgia de Volta Redonda, começo da industrialização do Brasil.

  9. O Mundo descobriu a Venezuela. Como era aquela estória que a AL não representava nada e ninguém se importava? Quem produziu tamanha miséria entre o Povo venezuelano, maiores reservas e maior produtor mundial de petróleo fora do Oriente. Isto depois e durante mais de 1 século. Foi Chaves e Maduro? Quem estaria então, no Governo Venezuelano, produzindo uma realidade diferente? Outro lacaio do interesse norteamericano? Quantos já apareceram juntamente com Guaidó? Uma meia dúzia? Democratas se dizendo Autoproclamado Presidente? Autoproclamado e Democrata? Fora isto a Venezuela é a ‘joia da coroa’ dos interesses mundiais. E Maduro jogou muito bem. Garantiu seu posto e autonomia e soberania políticas do Povo venezuelano se apoiando na Russia e China. Sairá da sua posição fortalecido e exigindo vantagens à sua Nação. Seja por parte dos Americanos, seja dos russos ou chineses. Além de expor toda hipocrisia das ‘Democracias Ocidentais’ que o acusam de Ditador, enquanto mancomunam com Arabia Saudita. Excelente lição de Estratégia e Politica Internacional por parte da Venezuela.Uma lição para o Anão Diplomático, que novamente não soube preservar seus interesses nem mesmo na porta da sua cozinha.

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  10. + comentários

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