A era dos vulneráveis, por Daniel Afonso da Silva

A era dos vulneráveis, por Daniel Afonso da Silva

Bernardo Kliksberg – vale muito acessar sua página em http://www.bernardokliksberg.com/ – vem há muito tempo chamando a atenção para a vulnerabilidade do progresso social. Seu As pessoas em primeiro lugar, em parceria com Armartya Sen, virou livro de referência mundial dessa reflexão.

Na última quinta-feira, 05/11, no sóbrio auditório da suntuosa Maison d’Amérique Latine em Paris, ele voltou formidavelmente a esse tema abordando na ocasião especialmente a situação social nas Américas.

Mesmo sem querer desagradar, suas constatações constrangem. Segundo ele, os progressos sociais, especialmente nas Américas nos últimos quinze anos, são incontestavelmente positivos. Porém não são sustentáveis.

Com a regressão da taxa de crescimento dos países emergentes, a taxa de desigualdade social nesses países voltou a aumentar ou, ao menos, deixou de diminuir. Essa flutuação decorre da fragilidade estrutural dos avanços que – malgrado necessários e fundamentais para a retirada de milhões de pessoas da indigência, sendo o caso brasileiro dos mais destacáveis – são impotentes diante da complexidade da miséria e da pobreza do mundo moderno e contemporâneo.

2008 e 2012 são balizas de importância em seu raciocínio. Quando da crise financeira ficou evidente com a quebra do Lehman Brothers, virou patente a gravidade da especulação irresponsável de capitais. Mas nesse momento o choque duro, como sabido, foi nos países centrais. Os países emergentes, por sua vez, aproveitaram para avançar e aprofundar seus programas sociais de redução de desigualdades.

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Entretanto em 2012 os efeitos de 2008 chegaram nesses países não centrais. E desde então, 2012, os programas sociais de redução da pobreza e da miséria estão ficando mais frágeis nas Américas e em todo o mundo.

Para além dessa fragilidade dos pobres e miseráveis, depois de 2008 e 2012 vem se constatando a fragilidade dos não pobres e miseráveis. Os assalariados no mundo inteiro jamais tiveram redução tão importante do seu poder de compra.

Esse conjunto de constatações joga água e mais água nos moinhos do potente argumento de Bertrand Badie que não cansa de afirmar que vivemos a era dos sofrimentos.

Un monde de souffrances – Ambivalence de la mondialisation, seu mais recente e provocativo livro defende que estamos, ao menos desde 1945 e sobretudo depois de 1989 e a partir de 2001, sob o império do sofrimento, da humilhação, escárnio e da dor.

Segundo Badie, observadores internacionais e tomadores de decisão sabem disso desde os tempos do presidente Truman, mas preferem continuar atuando pela lógica da era dos gladiadores de Hobbes, onde estados buscavam massacrar estados.

Não.

Nos dias que correm, analisa Badie, os estados deixaram totalmente de ser o objeto direto das crises e das contendas.

Catástrofes naturais, modificações climáticas, epidemias, fome crônica, migração clandestina, ditaduras, racismo, desconsideração, humilhação ocorrem dentro e fora das fronteiras, dentro e fora do alcance dos estados. E essa “impotência das potências” tende a aumentar.

Em 2015, segundo dados das Nações Unidas, 1,4 bilhão de pessoas vive com menos de US$ 1,25 diários e mais de 2,1 bilhões vive com menos de US$ 2,00.

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Numa aproximação rápida se conclui que quase metade da população mundial está na condição de pobre ou miserável suscetível a permanente desestabilização pelos efeitos do sofrimento, da humilhação, escárnio e da dor.

Na senda dessa rude constatação, o IPEA em parceria com o PNUD vem de lançar o Atlas da extrema pobreza no norte e nordeste do Brasil em 2010 (ver http://www.ipc-undp.org/publication/27759 ) a partir de amostra da população residente em domicílios agrícolas, pluriativos, rurais não agrícolas e urbanos não agrícolas.

Domicílios agrícolas são definidos quando as pessoas moram no campo e 67% ou mais da renda advém do trabalho rural. Pluriativos, quando se mora no campo, mas menos de 67% advém do trabalho rural. Rurais não agrícolas, quando se mora no campo, mas não depende do campo para a subsistência. Urbanos não agrícolas, quando se mora cidade sem nenhum rendimento advindo de trabalho rural.

O critério para a definição de extrema pobreza foi o de renda familiar mensal de até R$ 70,00 e o critério para a aferição de pobreza foi o de renda familiar mensal de até R$ 140,00.

As conclusões alarmam.

E, note-se, são de 2010. Hoje, a situação, provavelmente esteja pior.

Para ficar apenas no nordeste, vejamos.

  • Alagoas – população de 3.098.428 pessoas sendo 1.058.843 pobres e 548.414 extremamente pobres.

  • Bahia – população de 13.962.710 pessoas sendo 4.092.916 pobres e 2.144.652 extremamente pobres.

  • Ceara – população de 8.428.842 pessoas sendo 2.567.909 pobres e 1.340.902 extremamente pobres.

  • Maranhão – população de 6.559.859 pessoas sendo 2.588.987 pobres e 1.530.729 extremamente pobres.

  • Paraíba – população de 3.753.152 pessoas sendo 1.081.631 pobres e 539.824 extremamente pobres

  • Pernambuco – população de 8.759.736 pessoas sendo 2.455.921 pobres e 1.248.380 extremamente pobres.

  • Piauí – população de 3.11.473 pessoas sendo 1.045.179 pobres e 594.769 extremamente pobres.

  • Rio Grande do Norte – população de 3.157.414 pessoas sendo 759.716 pobres e 367.543 extremamente pobres.

  • Sergipe – população de 2.060.338 pessoas sendo 584.688 pobres e 272.634 extremamente pobres.

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Os números falam por si.

E tendem a piorar.

Meditemos.

 

 

 

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

 

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