A esquerda é cordial com a rádio Jovem Pan, por Rafael Molina Vita

Aproveitando-se da falta de regulamentação dos dispositivos constitucionais que regem as comunicações sociais no Brasil, as grandes empresas de comunicação criminalizaram a política e a própria busca por igualdade social

A esquerda é cordial com a rádio Jovem Pan

por Rafael Molina Vita

O mito do brasileiro cordial e tolerante foi por água abaixo nos últimos anos. A eleição de Jair Bolsonaro trouxe à tona toda a violência e o ódio que estavam contidos desde o fim da ditadura militar, em 1985. Preconceitos de toda natureza são expressos sem o mínimo pudor.

Os grupos empresariais de comunicação tiveram um papel de destaque nesse cenário. Já são cerca de quinze anos adotando o jornalismo de guerra, estilo inspirado no empresário australiano-americano Robert Murdoch, magnata da imprensa que marcou época na Fox News[1].

Aproveitando-se da falta de regulamentação dos dispositivos constitucionais que regem as comunicações sociais no Brasil, especialmente no que se refere à formação de oligopólios[2], as grandes empresas de comunicação criminalizaram a política e a própria busca por igualdade social, com a facilidade de não contar com um contraponto de peso, já que pluralismo e democracia nas comunicações são letra morta em nosso país.  A grande imprensa define a agenda e padroniza a opinião pública.

A recente reforma da previdência elucidou esse processo: não importava a emissora de rádio e TV, todos os especialistas diziam que se a tal reforma não fosse concretizada, o país iria “quebrar”. Mesma coisa nos jornais e revistas de grande circulação. Nunca é demais lembrar que cinco famílias controlam mais de cinquenta por cento dos principais veículos da mídia brasileira[3].

Um caso que chama a atenção nesse contexto é o da rádio Jovem Pan. Ao contrário de outros grupos de comunicação, que procuram manter um verniz de imparcialidade, a empresa abraçou os ideais da extrema-direita sem maiores preocupações, contratando jornalistas de estilo grosseiro, cuja função é bater em qualquer ideia que se mostre um pouco progressista, interditando o debate democrático e vivendo de “tretas” que geram audiência e milhares de visualizações no YouTube. Não vou me alongar aqui descrevendo episódios e personagens deste teatro de absurdos, pois são fatos notoriamente conhecidos, e a questão principal é outra.

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Depois que a máscara do brasileiro cordial caiu, parece que os setores progressistas assumiram esse papel com uma determinação invejável, comparecendo gentilmente a programas da referida emissora. Fernando Haddad, Ciro Gomes, Guilherme Boulos, Manuela Dávila, Gleen Greenwald, todos aceitam o convite para debater em programas onde acontece de tudo, menos debate. Assistimos a um show de provocações e despreparo dos entrevistadores, onde vale tudo, até agressão física e verbal.

A pergunta que fica é: vale a pena ser achincalhado e participar desta encenação grotesca para compensar a falta de espaço na grande mídia? Como um cidadão raciocina quando assiste a um progressista participar de programas onde seus ideais são criminalizados diariamente? Será que não é hora de recusar esses convites, ou participar para denunciar a falta de democratização nos meios de comunicação e o péssimo conteúdo de programas que promovem a imbecilização coletiva, o individualismo e a objetificação da mulher? Não custa lembrar o exemplo de Barack Obama nos Estados Unidos, que confrontou a conservadora Fox News[4].

Precisamos interromper esse círculo vicioso e retomar a luta por uma de nossas bandeiras mais importantes: o direito humano à comunicação[5]. Todos têm o direito de apresentar sua visão de mundo e influir no debate público, independentemente da condição social e econômica, sem ter que se sujeitar a situações que servem apenas para desqualificar a democracia e embrutecer a opinião pública.

Rafael Molina Vita – Formado em Direito, membro do coletivo estadual de Direito Humanos do PT/SP e da ABJD.

[1]Sobre o estilo Murdoch:  https://jornalggn.com.br/midia/como-o-padrao-murdoch-disseminou-o-conceito-de-direito-a-informacao/

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[2] Sobre a falta de regulamentação: http://www.justificando.com/2020/01/24/acoes-para-regular-a-midia-no-brasil-tramitam-ha-mais-de-9-anos-no-stf/

[3] https://www.cartacapital.com.br/sociedade/cinco-familias-controlam-50-dos-principais-veiculos-de-midia-do-pais-indica-relatorio/

[4] https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,obama-entra-em-guerra-aberta-contra-a-rede-de-tv-fox-news,450864

[5] Sobre o Direito Humano à Comunicação: https://www.justificando.com/2019/06/28/o-direito-humano-a-comunicacao/

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5 comentários

  1. “(…) adotando o jornalismo de guerra, estilo inspirado no empresário australiano-americano Robert Murdoch, magnata da imprensa que marcou época na Fox News.”

    Porque, até para exemplificar canalhices – que as temos de sobra – há que se recorrer a estrangeirismos?
    A censura nos governos do Estado Novo e Regime de 64, o foi também para segurar excessos – a maioria dos casos – na imprensa, e nas comunicações em geral onde leviandades, infâmias, injúrias, palavras de baixo calão era o prato do dia, em praticamente “todos os veículos”. Valia tudo pra ganhar uma eleição ou simplesmente azucrinar o juízo alheio. Isso no dia a dia. Fora os casos de escândalos retumbantes que ficaram história.

    No Primeiro Reinado:
    “O redator de um dos jornais inferiores, homem de caráter notoriamente mau , tinha publicado uma série de calúnias atrozes contra o regente Lima e sua família, acusando-os de incesto e vários outros crimes. O filho do Regente, oficial da Guarda, indo um dia pela rua, avistou o tal redator; imediatamente apressou-se em ir para casa buscar sua espada; voltou, e encontrando ainda o redator na loja onde anteriormente o tinha avistado, puxou da espada e o derrubou.
    (Liberdade de Imprensa no Brasil. Narrativa da viagem de um naturalista inglês ao Rio de Janeira e Mias Gerais. (1833-1835) Cap. I.
    In Anais BN-Rio, vol 62, pp. 38-40, Rio. 1940).

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    1
  2. Os esquerdistas brasileiros sofrem da Síndrome de Estocolmo: adoram a Globo, a Veja, a Folha de São Paulo, a Jovem Pan e por aí afora. Quem acabará com essa pseudoimprensa são Bolsonaro e seus micos amestrados. Lamentavelmente, o farão em benefício de outro lixo: Record e SBT.

  3. O problema não é ser cordial, é ser iludido mesmo. A extrema-direita, por exemplo, não se ilude mais com a grande mídia. Ela nasce de uma parte da direita que culpa a grande mídia por suas sucessivas derrotas e assume um discurso que, de tão radical, nenhum veículo da grande mídia se dispõe a endossar. Subestimada a princípio, ela pulveriza a direita demotucana e assume o poder. Hoje ela ameaça em alto e bom som a maior TV aberta do país (Globo) e não está nem pouco preocupada com os convitinhos pelos quais a esquerda tanto preza. Quando a esquerda vai acordar?

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