A esquerda morreu?, por Ricardo Cappelli

É a oposição entre sobrevivência coletiva e selva individual que pode derrotar a extrema-direita. Um embate decisivo que a esquerda brasileira parece ainda não ter compreendido.

A esquerda morreu?

por Ricardo Cappelli

Qual a diferença entre esquerda e direita? Tem muita bobagem e contrabando moralista neste debate. Alguns acreditam que ser de esquerda é ser honesto e ser de direita é ser corrupto. Uma estupidez justificável pela contaminação udenista de parte dos progressistas.
Existem pessoas ilibadas e corruptas dos dois lados do espectro ideológico. O lugar na luta de ideias é marcado por leituras distintas da realidade, não por uma visão maniqueísta e religiosa.
Nada tem a ver também com bandeiras temáticas ou comportamentais, outro modismo que orienta atualmente um exército de desorientados.
Defender o meio ambiente é ser de esquerda? Defender a liberdade sexual e se posicionar contra qualquer forma de preconceito é ser de esquerda? Por esses parâmetros, Joe Biden e a Rede Globo são os novos líderes da esquerda mundial.
Do ponto de vista conceitual, o crivo entre esquerda e direita deriva do debate econômico. Para os economistas clássicos, o ser humano é um indivíduo com características próprias e imutáveis. Os desequilíbrios são próprios das diferenças que marcam os indivíduos.
Para estes economistas, o máximo que pode ser feito é adotar políticas compensatórias para minorar estes “desequilíbrios e desigualdades naturais”.
Na outra ponta, os economistas progressistas diziam que tudo que acontece na sociedade é produto do meio. As desigualdades são produzidas pelo homem e podem ser alteradas.
Para os clássicos, o homem é ele mesmo e suas imperfeições incorrigíveis. Os progressistas acreditavam na “salvação possível” dentro da coletividade. Para uns, a exploração de um indivíduo pelo outro é algo natural, próprio da natureza humana. Para Marx, a exploração é um processo de dominação social que pode e deve ser alterado.
A oposição entre indivíduo e coletivo está na raiz do debate ideológico. Para a direita, o indivíduo é o senhor absoluto do destino. O coletivo seria apenas uma tentativa de podar o “sacrossanto livre arbítrio”. Para os progressistas é o coletivo que vai moldar e aprimorar as individualidades.
Bolsonaro é um representante legítimo da direita. A suposta negligência com a saúde coletiva é a expressão máxima da visão de que na savana social só os fortes sobreviverão, afinal, todos vão morrer um dia. Cada indivíduo “é livre para se matar ou matar outros”, com vírus ou com armas.  Seria tudo próprio da natureza humana.
É a oposição entre sobrevivência coletiva e selva individual que pode derrotar a extrema-direita. Um embate decisivo que a esquerda brasileira parece ainda não ter compreendido.
Não há espaço para a sobreposição de projetos partidários na atual quadra histórica. É estarrecedor continuar ouvindo besteiras como a “naturalidade da divisão imposta pela legislação eleitoral” – se o avião explodir, não haverá paraquedas salvador.
Como ganhar a sociedade para um projeto coletivo contra a barbárie individualista se os progressistas não conseguem sequer marchar unidos pela nação?
Como derrotar o obscurantismo com projetos partidistas mesquinhos pela glória da derrota?
Para reafirmar o individualismo irracional a população já sabe quem escolher.
A esquerda morreu?

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

12 comentários

  1. Bem, quanto à questão apresentada, leio na mídia (eles escrevem tudo e qualquer coisa) que há deputados do PT dispostos a apoiar o Lira para presidência da Câmara. Talvez ajude a responder a questão. Eu, de minha parte, irei, inocentemente, escrever aos deputados em que votei para não cometerem tamanho disparate .

    • Condé, Príncipe de Sangue, Primeiro Nobre da França.
      Moralmente é uma posição honrosa, louvável, mas que não consegue aprovar uma mísera e escassa lei no Congresso. Não passa nada lá sem negociação. Ninguém entendeu melhor esse modo de ser da política brasileira do que o presidente Lula. E foi por isso que tivemos, todos nós brasileiros, mesmo quem nunca simpatizou com o PT, como eu, dois governos extraordinários entre 2003 e 2010.
      É a vida. Paciência.

    • A esquerda morreu? Morreu não !! Só mudou de endereço, já que as Crianças cresceram e terminaram a High Scholl e agora estudam em Harvard ou Sorbonne. Logo, logo voltam para reivindicarem seu feudo nas suas Capitanias Hereditárias do Estado Brasileiro. Não viram o que fizeram no Recife, João Campos e Marília Arraes? Só fala em morte da esquerda quem não estudou a História Brasileira e seus 90 anos de Estado Ditatorial Caudilhista Absolutista Assassino Esquerdopata Fascista. Morre nada. Você tromba com ela o tempo todo nos Shoppings de NY ou Paris.

  2. A pergunta já traz em si o embuste.

    Seja pelo nome que tiver, as lutas anti-estamentos nunca morrem, e hoje a luta da esquerda (a digna deste nome) é a luta anticapitalista, mas não (apenas) nos moldes marxianos, e sim na perspectiva de que o capitalismo como o conhecemos, e como aquele sistema que exigia nossa oposição, está nos seus estertores.

    E Marx imaginou que seriam as classes subalternas a derrubá-lo. Não foi. Foi justamente seu produto mais sofisticado: o anti-valor gerado nos mercados alimentados por terabytes…

    Ou seja, precisamos ser anti(pós)capitalistas.

    Claro que esta compreensão explicita a necessidade de alianças táticas, mas o texto do autor é uma fraude porque imagina que hoje, ser de esquerda é estar nesta massa amorfa (que ele chama de coletiva) para derrotar dentro dos limites institucionais aquilo que suplanta qualquer limite e totaliza toda a realidade, e pior, as versões desta realidade.

    Lutar dentro dos limites desta institucionalidade é como disputar uma prova de natação com um tubarão.
    Mesmo que você ganhe, você vai ser engolido.

    Não menciono aqui somente os atuais aspectos da “direita”, onde ela nos aparece sem os retoques da “civilidade”, traço impossível quando se quer maquiar a selvageria da desigualdade.

    Falo da subordinação permanente, do desperdício das vidas humanas, da normalização da exclusão e seus efeitos.

    Neste sentido, a fraude do autor se desmancha, porque como lutar ao lado dos que apenas desejam uma versão “light” e mais amena do horror capitalista, e agora mais horror ainda, o pós-capitalismo que prescinde de todas as formas conhecidas de “pacificação ideológica” (eleições, partidos, humanismo, etc), e que nos lança em uma distopia algorítmica espiralada?

    Todas, eu repito, TODAS as forças anti-estamento vitoriosas eram minoritárias, e até que tivessem tomado as rédeas da fúria das multidões, eram chamados de “loucos” e “sectários”…

    Morte a Kerensky e a todos os seus…(heheh)

  3. O que está morto é o marxismo como ideologia condutora de pensamento e ação política. A Revolução Bolchevique acabou em 1991, que marcou o fim da experiência socialista e coletivista. Resta à esquerda o caminho do centro, da negociação permanente, porque fora disso sobram apenas os eternos 50 ou 60 deputados e os 6 a 8 senadores de sempre do PT, em cada renovação do Congresso.
    Se não negociarem o tempo todo com os outros partidos, passarão 4 anos fazendo indignados discursos na tribuna da Câmara e do Senado, e nada mais que isso, indignação moral, que não serve para absolutamente nada, além de talvez ajudar os parlamentares da esquerda a dormirem bem em casa, à noite. Só isso.

    • Meu zeus…então, nobre Fukuyama, a história acabou e só nos resta negociar as migalhas e escombros do capitalismo de periferia, a espera de que o zumbi de Keynes nos redima?
      Uau…

      Eu fico pasmo com a cretinice embutida na lógica (falsa) de que qualquer pensamento anti-estamento já esteja morto antes mesmo de ser pensado, criando o sofisma: não fazemos a superação (jamais falar “revolução”, isso é palavrão dos brabos) porque não se pensa nela, e não se pensa nela porque ela (a superação) é impossível!!!!!

      Nem o canalha do Olavo de Carvalho seria capaz de tanto!!!!!

      Uai, para que negociar? Se o resultado é sempre um só, chama o Steve Bannon e seus algoritmos…

      PQP…tá osso isso aqui…

      O “jênio” reduz toda a luta política na institucionalidade representativa…PQP…

      De onde vem esta gente? Bom, de onde vêm acho que eles nem sabem, mas dizem que estão a caminho do centro…hahahahaha….

      PS: aposto dez contra um que a réplica sera: “então pega em armas e vá para as ruas fazer revolução”….querem apostar?

      • Admiro sua fúria de profeta hebraico contra esse pavoroso estado de coisas no Brasil. Admiro, mas não acompanho, eu não sou assim. Meus heróis são outros. Em Roma, eu consegui achar a casa onde viveu Angelica Balabanoff, e deixei flores na porta. Ela foi a primeira a perceber que a Revolução de Outubro terminaria em ditadura terrorista e deixou a Rússia em 1922, abandonando seu cargo no governo revolucionário dos bolcheviques. Em Berlim, com grande esforço, porque ninguém te ajuda, eu consegui localizar o ponto no Rio Spree, onde jogaram o corpo assassinado da Rosa Luxemburgo, que atacou Lenin, quando ele fechou a Assembleia Constituinte, em janeiro de 1918, denunciando a ditadura que se formava. Em Moscou eu tentei, mas não consegui achar nenhum local para honrar a memória da Alexandra Kollontai, minha primeira heroína, eu ainda adolescente na USP. Ela foi a primeira mulher do primeiro Governo Bolchevique. Foi ela, não foi nenhum homem do partido, mas ela, a camarada Kollontai, quem forçou a aprovação do divórcio também a partir da vontade da mulher e do aborto, bastando também a vontade da mulher. Quem pode imaginar tamanha revolução de costumes em 1918, levada adiante pela feroz determinação de uma mulher sozinha, Alexandra Kollontai ?!?
        Nunca gostei de Lenin, ele era um assassino – parece uma cenoura lá no mausoléu na Praça Vermelha, é uma múmia horrível, que a gente tem de ver quase correndo – meus heróis são figuras laterais.
        Mas visitei a casa do Trotsky, na Cidade do México, numa tarde calma, não havia ninguém, porque ninguém mais se interessa por revolucionários bolcheviques. As marcas de balas do atentado liderado pelo muralista Davi Alfaro Siqueiros ainda estão lá, nas paredes da casa. A cozinha está como gostava Natasha, até as panelas de cobre continuam penduradas na parede sobre o fogão e a pia. No escritório onde Trotsky foi golpeado com uma pequena picareta de quebrar gelo está tudo igual, a casa toda está sempre envolvida pelo silêncio. No jardim estão as duas singelas sepulturas, de Trotsky e Natasha, e as gaiolas de coelhos, que o fundador do Exército Vermelho gostava de cuidar – estão vazias hoje, não há mais coelhos.
        Vivemos nosso próprio tempo, gostemos ou não. Não existem mais massas revolucionárias e essas “multidões em fúria”, se aparecerem, nada terão de revolucionárias. Acabou essa era da história do mundo.

        • Esqueci de dizer que apesar de considerar Lenin um assassino de massas, eu fui visitar o trem que o trouxe da Suíça (pago com dinheiro do kaiser Guilherme II, detalhe que os marxistas odeiam lembrar). Está lá o trenzinho, na Estação Finlândia, em São Petersburgo, onde ele desembarcou cuspindo fogo revolucionário, em abril de 1917 – o livro “Teses de Abril”, que tanta gente cita, mas pouca gente leu, deve seu título a esse evento fortuito. Nesse livro já estava o projeto de ditadura do partido comunista.

      • Você parece o general Velasco Alvarado, colega, mas eu sinto dizer que não funcionou a “Revolução Camponesa do Peru”, deu tudo errado entre 1968 e 1975, porque entre outras coisas, os funcionários da primeira ditadura militar de esquerda na América Latina, que se dirigiam ao campo para medir o tamanho dos latifúndios que seriam desapropriados, facilmente aceitavam suborno para aumentar a metragem das terras nas planilhas oficiais de mensuração agrária.
        A vida não faz graça pra ninguém, menos ainda para os marxistas.

      • Adjetivos são o mais fácil recurso dos maus narradores. Não precisa chamar Olavo de Carvalho de “canalha”, porque isso não serve para nada. Quem conhece Olavo de Carvalho sabe muito bem quem ele é, e os adjetivos mudam em nada a situação moral dele.
        Olavo de Carvalho não sabe que você existe.
        Seja elegante.

  4. Fico com a música da campanha o Brasil feliz de novo. ” Olha lá, aquela estrela que tentaram apagar, não se apaga não se rende… Olha lá, uma ideia não se pode aprisionar, o sonho cara vez mais livre. Acesa a esperança vive…”

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome