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A estupidez e a peste, por Cristiane Alves

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A estupidez e a peste, por Cristiane Alves

A estupidez e a peste

por Cristiane Alves

Dois amigos irão dividir comigo esse post. Um é o Pedro Herkenhoff que falou sobre memes e a repetição da mentira até virar uma verdade defensável. O outro é o Vitor Granzotto que lembrou que na Idade antiga e Média o uso de mercúrio era comum em doenças crônicas e incuráveis. Aliás, usavam mercúrio para qualquer coisa no campo da saúde, obviamente com resultados trágicos.

Essas duas leituras se completam pois que, de fato, hoje voltamos à ignorância pré método científico. E estamos, hoje, contemplando incrédulos a volta da medicina religiosa e dos experimentos baseados em achismos.

Foi assim durante a peste negra, que se supõe ter se iniciado na Turquia e se espalhado para a Europa através das pulgas dos ratos e pelo uso de armas biológicas, haja vista que Turcos jogavam cadáveres de infectados pela peste para dentro das cidades fortificadas, se iniciando na Ucrânia e se espalhando para o todo continente europeu.

Ratos, pulgas, e mortos foram vetores, mas o agravante maior foi a falta de higiene pessoal e sanitária. A Europa não primava pela higiene durante a Idade Antiga e Média. Consta que criam que doenças se propagavam através de miasmas, fluídos ruins que dispersos pelo ar causavam enfermidades inexplicáveis de outra forma, até então. Ainda não se falava em bactérias ou vírus, nada era conhecido no campo da microbiologia. Obviamente nem os microscópios.

A sujeira, os odores ruins, os esgotos despejados em vias públicas (por vezes urina e fezes jogados pelas janelas enquanto pessoas caminhavam logo abaixo), tudo colaborava para a proliferação dos ratos, mais tarde descobertos como veículos eficazes das pulgas propagadoras da bactéria Yersinia pestes.

A higiene teria realizado milagres, como o fez depois do advento da medicina preventiva, mas até ali a crença corrente era a do exato contrário, supunha-se que a sujeira fechava os poros impedindo a entrada dos fluidos miasmáticos pela pela e, consequentemente, das doenças.

A medicina curativa disponível baseava-se em experiências de curandeirismo. Testavam medicamentos juntando substâncias por seu cheiro, cor, fluidez ou por inspiração divina (ou vozes das cabeças). Muitos povos testaram beber urina, passar ou comer fezes humanas ou estrume animal; muitos tomaram mercúrio (os que tinham acesso ao milagroso elixir), plantas, lama de rios ou rochas trituradas trazidas de lugares por onde o “criador”, o “Papa”, o guru ou um imune, logo, santo, passou.

Então, quando ouvimos hoje pessoas alardeando curas milagrosas por substâncias desconhecidas, ou tratamentos alternativos eficazes (embora não testados), quando ouvimos um líder governamental dizer que esgoto imuniza, que vacinas enlouquecem (lembrem da Revolta da Vacina), que água com quinino livra do mal (amém!), estamos nos deparando com a estupidez da alta idade média, mas o triste é saber que as ciências caminharam tanto para somente viver de venda de remédios e travesseiros, plantar feijões no espaço (se é que ele existe), e colchões com imãs.

Alguém descobriu que a humanidade possui uma atração incontrolável pelo improvável e criou as lendas urbanas, as fake news e as igrejas pentecostais. Do telefone sem fio (ouvir, divulgar e aumentar) ao WhatsApp foi só começar.

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