A extrema-direita flerta com o Ocultismo na série “Motherland: Fort Salem”, por Wilson Ferreira

A série tenta esconder as assustadoras implicações dos pressupostos de “Motherland”: as supostas heroínas podem acabar virando vilãs – bruxas à serviço de uma máquina de guerra imperialista. 

A extrema-direita flerta com o Ocultismo na série “Motherland: Fort Salem”

por Wilson Ferreira

Na História Moderna, a extrema-direita sempre teve uma inclinação ao Ocultismo: a Magia como forma de conquistar o Poder e controlar o imaginário social. Desde o nazi-fascismo no século XX à atual alt-right (direita alternativa) de Trump e Steve Bannon, há uma ação parapolítica envolvendo a apropriação do esoterismo de Aleister Crowley à Magia do Caos de Austin Spare. A série “Motherland: Fort Salem” (2020-) é mais uma evidência disso: num mundo alternativo, as perseguidas e condenadas bruxas de Salém, da América Colonial, fizeram um acordo com o Governo para salvar a sua espécie: se transformaram no braço armado da Nação. A magia utilizada como força bélico-militar em defesa da Pátria e da geopolítica dos EUA. Por trás de muitos clichês das atuais distopias teens, a série tenta esconder as assustadoras implicações dos pressupostos de “Motherland”: as supostas heroínas podem acabar virando vilãs – bruxas à serviço de uma máquina de guerra imperialista. 

As conexões entre política e ocultismo é um verdadeiro prato cheio de segredos. Essas conexões entre o mundo dos conflitos políticos com esoterismo, misticismo e ocultismo sempre mereceu pouca atenção tanto da mídia quanto de acadêmicos. A não ser quando o tema é tratado ou como bizarrice, curiosidade folclórica; ou como “teoria conspiratória” sem qualquer validade científica.

Tudo que podemos encontrar são, aqui e ali, pistas, sinais, evidências de que a Política não se limita apenas a uma atividade unidimensional marcada pela luta por interesses materialistas como dinheiro e poder.

Essa abordagem esotérica da política começa com o livro “O Despertar dos Mágicos”, do jornalista e escritor francês Jacques Bergier, no qual aborda a erupção do nazi-fascismo na Europa como originado de sociedades ocultistas, cujos líderes políticos e militares pertenciam a um mundo de videntes, médiuns e astrólogos.

Passando por várias evidências recentes sobre as estreitas relações entre uma elite política e o Oculto (a inauguração do túnel mais longo do mundo na Suíça com uma cerimônia com massiva simbologia hermética e esotérica com presença de altos signatários europeus – clique aqui; a cerimônia anual Cremation of Care, no Bohemian Grove, Califórnia, com a presença da elite política e financeira – clique aqui; ou o documentado interesse da CIA em pesquisas sobre o Plano Astral como ferramenta de inteligência e espionagem – clique aqui), historicamente acompanhamos um movimento recorrente da extrema-direita em se enveredar por aquilo que denominamos como “parapolítica”

Mais uma evidência recente: em agosto do ano passado este Cinegnose publicou uma resenha sobre o livro do pesquisador Gary Lachman, “Dark Star Rising – Magick and Power in the Age of Trump” no qual descreve como círculos concêntricos formado por ocultistas e mágicos da mente organizados em torno da figura de Trump o impulsionaram para a vitória – clique aqui.

Para além do escândalo da manipulação de informações da Cambridge Analytica haveria um movimento mais profundo que envolveriam a chamada direita alternativa (alt-right) com a chamada “Magia dos Caos” (Chaos Magick) – movimento esotérico moderno que engloba conjunto de crenças e filosofias na qual se acredita que “magia” nada tem a ver com cerimônias, rituais, feitiços ou encantamentos. Mas se trata de como a mente pode influenciar diretamente a realidade.

Essa recorrência histórica de apropriação de tradições ocultistas (Austin Spare, Aleister Crowley, Julis Evola – citado por Steve Bannon, atual líder da alt-right) teria dois objetivos: (a) Buscar energias ocultas de naturezas mágicas ou sobrenaturais que serviriam de ferramentas de guerras, sejam elas para conquistas de corações e mentes ou nos campos de batalha ; (b) o controle do imaginário – incorporar ao status quo mágicos, bruxos etc., personagens que historicamente viveram no underground da sociedade, sempre perseguidos pelos poderes constituídos.

As bruxas de Salém

Criada por Eliot Laurence, a série Motherland – Fort Salem (exibida pela rede de TV norte-americana Freeform com estreia em março desse ano) é mais uma evidência desse appeal da extrema-direita por esse imaginário que envolve o ocultismo na política.

Um drama sobrenatural que acompanha três jovens cadetes em treinamento básico militar em uma realidade alternativa na qual as Forças Armadas dos EUA contam com uma principal arma: a magia de combate composta por conjurações desenvolvidas por bruxas descendentes das chamadas “bruxas de Salém”, do século XVII, na Massachusetts colonial.

A mais mortífera caça às bruxas da história dos EUA composta por uma série de audiências e processos de pessoas (principalmente mulheres) acusadas de bruxaria, resultando em centenas de prisões e dezenas de mortes e enforcamentos.

Na realidade alternativa de Motherland, as bruxas eram reais e durantes esses tribunais conseguiram entrar num acordo com a Colônia da Baia de Massachusetts em 1692 para salvar a sua espécie: concordaram em assumir o papel de bruxas de um Novo Mundo no qual lutariam as guerras americanas (internas e contra outros países) colocando todos os seus poderes (rituais, conjurações, encantos etc.) à serviço da Pátria.

A série

A princípio, Motherland – Fort Salem lembra um curioso mix de Harry Potter com aquela academia de mutantes da franquia X-Men.

Para além dessa curiosidade, começamos a perceber que o inimigo das bruxas se assemelha em muito aos atuais inimigos dos militares na vida real: basicamente terroristas.

Uma das imagens mais impressionantes vemos nos créditos iniciais: uma releitura do famoso quadro “Washington Crossing the Delaware, de Emanuel Leutze, no qual vemos a bruxa-general centenária da Academia de jovens cadetes bruxas, Sarah Alder (Lyne Renée), com o chapéu tricolor de George Washington à frente do barco.

Segue-se que a general Alder, e sua tropa de bruxas, certamente lideraram todas as campanhas genocidas contra os nativos americanos na História? Que bruxas do Norte e do Sul entraram em confronto na luta pela manutenção da escravidão na Guerra Civil? Que elas invadiram o Vietnã junto com o Exército e as bombas napalm?

Que as bruxas, de inimigas do puritanismo protestante colonial, tornaram-se a principal arma da sangrenta história de guerras dos EUA?

Nesse mundo alternativo, as bruxas foram elevadas ao mainstream político, patriótico, transformando-se num poderoso braço armado: por todos os lados, os episódios exaltam os valores patrióticos e imperialistas norte-americanos.

Que são unicamente desafiados por outro grupo de bruxas, dissidentes do acordo de Salém: as Sprees, grupo que utiliza atentados por bombas mágicas (por exemplo, balões que explodem liberando conjurações acústicas em espaços públicos como shoppings, fazendo as pessoas se matarem) – para elas “conscrição é escravidão”: o serviço militar obrigatório para jovens bruxos seria uma afronta à liberdade inerente à prática do ocultismo.

Claro que o roteirista Eliot Laurence pretende pintar um quadro maligno, brutal e cruel das ações terroristas dos Sprees (eles são as bruxas más, e as patrióticas, as heroínas). Mas, pensando bem, parece que quem realmente tem razão são as bruxas terroristas: querem se libertar do jugo das razões de Estado que levam a magia à linha de frente de guerras sangrentas.

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