A herança maldita voltou, por Gustavo Conde

A herança maldita voltou

Por Gustavo Conde

“Herança Maldita” poderia muito bem ser o nome de um conto de Edgar Allan Poe. Como em ‘The Raven’, o escritor poderia tecer uma narrativa de horror em que um tucano-abutre surge no fim dizendo ‘nunca mais’. Pena que a frase que desponta no bico desse tucano não é ‘nunca mais’, mas é ‘a herança maldita voltou’. Vejamos porque Poe está na ordem do dia na cena política brasileira.

O governo Temer é tucano. Com todo o respeito ao MDB, quem manda nesse país desgovernado é o PSDB. O núcleo criminoso Temer-Padilha-Moreira faz apenas a distribuição das propinas e favores. São bookmakers. A façanha sub intelectual de produzir a mixaria de políticas de desinvestimento é do PSDB, sejamos justos.

Temer e asseclas são tão rasteiros que falta quadro técnico ali para produzir a mínima massa de anteprojetos que permita tocar um governo. Eles terceirizam tudo. E aí, é claro, entra o PSDB com sua expertise em fraudar textos teóricos e técnicos.

Não se enganem: enrolar agências governamentais e de pesquisa com textos fraudulentos é uma arte. Tucanos são especialistas nisso. É daí que vem a troça de José Simão: ‘tucanar’ é sinônimo de ‘enrolar’.  

É a arte de ficar em cima do muro, de dizer sem dizer, de vacilar, de negar, de contemporizar, de invocar conceitos movediços de um imaginário mundo acadêmico que só pode existir na cabeça de um tucano.

Vem daí a imensa identificação entre o aparato judicial brasileiro e o PSDB. O direito é outro setor especialista em enrolar. O texto de um procurador ou de um juiz, salvo raras exceções, é uma sequência infinita de não dizer. São palavras difíceis, que não produzem sentido (na verdade, elas mascaram o sentido).

A empatia é total. Dois segmentos que nada têm a dizer só poderiam fazer juras de amor e elaborar políticas e práticas de autoproteção mútua. O amor entre poder judiciário e PSDB não é de ordem política: e de ordem linguística.

De sorte que o DNA deste governo de turno tem penas e bico grande. Toda a política de desinvenstimento da Petrobrás é elaborada por Pedro Parente e por sua equipe 100% tucana. É o governo FHC de volta com força total, repaginado e returbinado.

O governo Temer fez voltar a ‘herança maldita’, mas não mais como herança e sim como ativo conceitual. É a herança maldita em carne e osso, pronta para perdurar uma geração inteira na canibalização das políticas de investimento público.

Todo esse regime de slogans mal fadados da equipe de comunicação absolutamente fenomenal de Michel Temer traduz essa ordem semântica que parasita o governo: é a volta, o retorno, a ‘retomada’ – o que se traduz apenas e tão somente por ‘retrocesso’.

Eles lidam com a semântica da nostalgia política. É a ‘volta’ do Brasil (os 20 anos em 2), a ‘retomada’ mais lenta da história (a contribuição da Folha para o ‘Dicionário Temer’), o retorno do emprego, enfim, um festival de delírios que se reproduz na mesma proporção em que o país retrocede.

Vivemos sob o signo do passado em todos os sentidos possíveis (o futuro foi literalmente aprisionado). Nossa agonia político-social é uma descompensação temporal. Nesse quadro semiótico, avançar é retroceder. Mergulha-se no passado na certeza de que o presente e o futuro ainda estão vinculados ao dicionário anterior, o dicionário da democracia. É o tempo dos contrários e não é preciso muito esforço para se dar conta disso.

Nesse cenário, a herança maldita é a protagonista. Aquele legado de caos gerencial deixado pelo governo FHC voltou com a força de um vírus que ficou incubado por longos e intermináveis 13 anos de derrotas e rejeição.

Discursivamente falando, a única chance de o governo Temer produzir algum sentido em sua cruzada contra os avanços que a democracia plena de outrora proporcionava é negando o sentido de futuro e aprofundando o retorno de alguma coisa que nem mesmo eles sabem o que é, ‘coisa’ que pode ser representada pela herança maldita que caracterizou os governos FHC.

Temer é FHC e FHC é Temer. É uma injunção conceitual como poucas. Eles agem da mesma maneira, “orquestram” os interesses partidários e acham que isso é suficiente para “tocar” o país. Não há um debate interno, uma discussão sobre ‘políticas públicas’ (termo que soa mesmo como palavrão a esses governos distantes no tempo e gêmeos no espaço).

A obtusidade gerencial é prodigiosa, como foi com FHC. Um Pedro Parente diante de uma greve nacional de caminhoneiros mal se dispõe a sentar com quem quer que seja para avaliar cenários. E o único cenário que esses cabeças de planilha são capazes de vislumbrar é um cenário técnico (técnico e defasado, pois as premissas teóricas são aquelas, formuladas por pesquisadores tucanos).

Ou seja, a questão humana e social passa longe e continua sua tendência irresistível e fatal à explosão. Detalhe: com a greve nacional de caminhoneiros que pode colapsar o país, Pedro Parente simplesmente decidiu manter o aumento do diesel, certamente com o argumento “técnico” de que se trata de uma política de preços.

A herança maldita, portanto, está de volta, com todas as glórias. A limitação intelectual associada ao desmonte do estado é o bom e velho coquetel gerencial que nem mesmo o MDB tem a capacidade de produzir sozinho: precisa da ajuda do pai da mediocridade nacional, o PSDB.

Enquanto isso, Lula está em seu exílio interno, certamente se articulando de todas as formas para re-significar o verbo ‘voltar’ com um sentido que lhe seja digno. Ele está protegido desse espetáculo grotesco de subserviência. Mais que isso, Lula está com o domínio absoluto do quadro eleitoral.

Lula não promoveu ainda o desenlace eleitoral que ronda a sua candidatura porque ele sabe que essa espera é muito mais agônica para o segmento golpista do que para a parcela majoritária da população brasileira que ainda tem fé na democracia e que deixa tudo para a última hora como sempre.

Lula entende que o desenho eleitoral já está dado: repulsa ao golpe e retorno à democracia – por mais que os céticos queiram o autoflagelo perpétuo. A espera da sua candidatura plena e de sua liberdade foi cooptada por ele mesmo como um elemento estratégico de barganha histórica. Lula vai sair vencedor de todo esse imbróglio político-judicial que tomou conta do país, não tenham dúvida.

Ao esticar a corda eleitoral ao máximo, ele protege sua equipe e seus potenciais herdeiros políticos do assédio violento da imprensa. A imprensa apenas espera sua decisão para deitar as armas, só que essa decisão é de Lula e de mais ninguém.

De sorte que, ironias das ironias: quando o governo democrático voltar ao poder, terá que lidar de novo com a herança maldita. Uma tarefa nada fácil para um país que já tem já convive com um conjunto histórico de maldições coloniais.

O conto de horror político jamais escrito por Edgar Allan Poe, portanto, pode habitar a imaginação literária de qualquer um que sinta o grotesco da cena política brasileira de turno: um tucano-abutre que voa baixo, preda o que pode, morre e ressuscita como uma Fênix, na insistência de deixar o seu eterno rastro de destruição. E do alto de uma árvore seca e sombria, ele pode dizer ad infinitum: ‘a herança maldita voltou’.

 

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