A Hiperconectividade e a Libertação Humana, por Arnobio Rocha

A sensação de que somos poderosos demais, todo esse ganho tecnológico ainda não foi capaz de se constituir como algo que produza a libertação humana de todas suas mazelas

As velhas fitas, em velha fotos parecem uma provocação…

A Hiperconectividade e a Libertação Humana

por Arnobio Rocha

em seu blog

“Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.” (Blade Runner  – Lágrimas na chuva)

Olho velhas fotos no celular, nem sei se tão velhas, pois a velocidade da internet é inversamente proporcional ao tempo corrente, faz com que tudo nos pareça antigo, o ano passado parece que foi ontem, ou sete anos atrás, ficou tão para antes, que virou fumaça, breve passado ou distante data.

Essa síntese que surge como resultante dos vetores tempo e espaço, de difícil assimilação, ainda que se compreenda a dialética, os  velhos dilemas humanos perdem o sentido de urgência, por contradição, tudo é e foi para ontem, o que, de certa forma, pressiona e quase inviabiliza nossa pequena existência real, da experiência de tempo terreno.

As reflexões filosóficas elementares sobre quem somos, ou de onde viemos, para onde iremos,  sofrem alterações e mutações, tornando tensa a percepção do papel que a humanidade cumprirá nos próximos anos, décadas, como se tudo fosse ser resolvido no tempo presente/corrente por algoritmos e simulações da potencialidade do cérebro, a última fronteira humana.

A sensação de que somos poderosos demais, todo esse ganho tecnológico ainda não foi capaz de se constituir como algo que produza a libertação humana de todas suas mazelas, como educação, saúde, fome, miséria, insegurança, ao contrário, o arsenal tecnológico tem sido usado para nos aprisionar e criar um estado permanente de ansiedade e insaciedade, as demandas e necessidades de repostas são para o dia pretérito.

Volto a olhar as fotos e me veem à memória Blade Runner, a cena em que Deckard verifica as fotos, aproxima, recorta, o que parecia algo espantoso para aquela época, desse filme revolucionário, que muito além da ficção científica e futurismo, conseguiu refletir a humanidade e seus limites, sobre os replicantes (clones) e suas as viagens e a exploração do espaço, um desejo humano, ainda não realizado.

Tudo nos parece muito próximo das mãos, um pequeno device nos leva a qualquer parte do mundo, saber o que se passa em tempo real, entretanto, todos esse poder é ilusório, a cada dia sabemos menos sobre nossa existência, especialmente para onde vamos, qual desfecho da humanidade, as velhas contradições insolúveis, entre a imensa produção de riqueza em face dos bilhões excluídos, continuam e foram potencializadas pela exclusão digital.

Voltemos às fotos, como um mergulho ao passado, sem fugir do presente, nem negar as lutas para um futuro possível da humanidade.

Terá?

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