A ilusão dos lucros das commodities: A estagflação. Capítulo II, por Rogério Maestri

O pior que não começou pelos produtos de consumo mais sofisticados, mas sim nos produtos mais básicos para a população mais pobre brasileira, o arroz e o feijão.

A ilusão dos lucros das commodities: A estagflação. Capítulo II.

por Rogério Maestri

Como desejaria estar errado, entretanto o que foi publicado em 03/07/2020 algo que a lógica econômica poderia prever, ou seja, a falsa vantagem dos lucros das commodities que previa para o início de 2021 começou a acontecer já nesse mês de setembro. O pior que não começou pelos produtos de consumo mais sofisticados, mas sim nos produtos mais básicos para a população mais pobre brasileira, o arroz e o feijão.

Essa antecipação, que conforme a intensidade que ela ocorrer pode simplesmente derrubar por completo o atual governo, até levando de roldão a milicada instalada confortavelmente em cargos em que não tem a mínima utilidade e pior, a mínima competência, ou seja, a estagflação.

No chamado “agronegócio” e na mineração, que são simplesmente o uso dos nossos recursos naturais para satisfazer as necessidades dos países mais desenvolvidos, tiveram algumas alegrias que talvez serviram para os menores latifundiários trocarem suas 4 x 4 por flamejantes e caros veículos importados, ou mesmo para os mega latifundiários trocarem ou mesmo comprarem novos jatos executivos, vão rapidamente ter que colocar algum de seus brinquedos a venda, pois o desdobramento dessa crise que começou no arroz e feijão vai atingir ainda mais pesado os setores de exportação. Coloquei na frase do parágrafo anterior um “ainda mais pesado” não como um recurso de retórica, mas sim como uma conclusão óbvia que descreverei a seguir.

A produção de arroz no Brasil, principalmente quem não utiliza a técnica de arroz irrigado e por gravidade, os custos de produção serão impeditivos para mais de 20% da produção de arroz no Brasil, esse número só retirou do cálculo a quantidade de arroz de sequeiro produzido nas terras altas brasileiras, não retirei de quem trabalha com arroz irrigado a partir de elevação da água via energia externa, se isso for feito ultrapassaremos mais que 30% da produção total.

Esse detalhe de separação entre o arroz irrigado e o de sequeiro está condicionado nas características de custo desses tipos de produção. O arroz irrigado é equivalente em termos de produção (exceto na semeadura) com as culturas orientais, ou seja, faz-se obras de terraços e inunda-se toda a área durante o crescimento do arroz, já o de sequeiro trabalha-se em terras altas sem a necessidade de inundar a área. Parece que o método do sequeiro seria o preferencial pois não necessita obras de terraplenagem nem água em abundância, entretanto a diferença de produtividade desses dois métodos é de em torno de 7.200kg/ha para 2.500kg/há, ou seja, de 2,8:1, essa produtividade do arroz de sequeiro pode ser aumentada com o menor espaçamento entre as carreiras mas isso aumenta a possibilidade de pragas que veremos adiante que é um dos problemas futuros.

O custo de produção por hectare para a safra de 2016/17 é estimado aproximadamente R$3.200,00/ha , irrigado e R$2.600,00/ha, para de sequeiro, porém como a produtividade do arroz irrigado é muito maior o de sequeiro estava na época com relação benefício custo um pouco menor do que a unidade.

Porém se tudo ficasse como estava, o produtor de arroz ficaria feliz, entretanto há custos que subirão com o dólar, como adubo, inseticidas, herbicidas e outros fatores que não mão de obra (que era em torno de R$300,00/há, ou seja, não adianta comprimir mais), mas no próximo ano provavelmente virão além dos aumentos dos custos dos materiais importados outras surpresas muito desagradáveis.

Dentro da política neoliberal do atual governo a existência do Banco do Brasil que rola permanentemente as dívidas dos produtores rurais mesmo com juros muito baixos, será substituído por bancos privados, que ficarão com as terras dos plantadores depois da falência deles, além disso com a atual política de privatização e ou sucateamento de toda a estrutura pública, a energia elétrica subsidiada para o produtor rural será substituída por preço de mercado, assim como as sementes que atualmente são propriedades de agências públicas como Embrapa, Epagri e Irga passarão as mãos das bondosas multinacionais como a Basf. Como a produção do arroz deverá cair a quantidade produzida, que está no limite do consumo, só satisfará o consumo brasileiro, logo com a subida do preço internacional outros países produzirão mais arroz (rei morto, rei posto).

As mesmas expectativas do arroz poderão ser feito com o milho e soja, o feijão, como é produzido em grande parte pelo pequeno agricultor sofrerá somente o preço do aumento dos insumos, mas em geral será um belo desastre e uma grande fome que não temos já a algumas décadas.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora