A importância da leitura de obras escritas por mulheres, por Ana Beatriz Prudente

Entre as obras às quais me dediquei durante esse confinamento está Herdeiras do Mar, de Mary Lynn Bracht.

A importância da leitura de obras escritas por mulheres

por Ana Beatriz Prudente

Um protagonismo que merece destaque e respeito

 Ao longo da história, mulheres foram silenciadas e impedidas de estudar. Em muitas sociedades, a possibilidade da alfabetização feminina só foi concretizada no século XX, em outras localidades, somente no século XXI. É preciso dar voz às mulheres neste momento, para as que escrevem, especialmente, escritoras, jornalistas, críticas literárias, entre outras. Precisamos falar do protagonismo das mulheres nas letras e no uso das palavras.

O mercado editorial é um dos setores em que impacto da pandemia tem sido bastante cruel. O isolamento levou as livrarias físicas a fechar temporariamente as portas e, embora o e-commerce de livros tenha crescido, a previsão é de uma retração imediata no setor entre 60% e 70% do faturamento. As livrarias serão fundamentais numa futura retomada das vendas, no entanto, o mercado de livros enfrenta sensíveis dificuldades nesse momento em toda a cadeia.

Um dos pilares importantes desse mercado, os escritores, estão sofrendo por terem seus eventos e palestras cancelados (muitos têm nessas atividades seu principal sustento). Grandes eventos do mercado permanecem adiados, como a Festa Literária de Paraty (Flip), ou ainda com destinos incertos numa eventual volta do isolamento, caso da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que este ano está marcada entre o final de outubro e a primeira semana de novembro.

Porém, apesar do cenário, algumas boas iniciativas têm surgido, como o crescimento do espaço para a literatura feminista. Um livro que vem sendo muito procurado, por exemplo, é Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, de Jarid Arraes, e a coleção Feminismos Plurais, em parceria com Djamila Ribeiro (ambos da Pólen Editora). Outra casa de publicação, a Primavera Editorial tem 75% das obras publicadas com temáticas do universo feminino e feminista. E há diversos outros exemplos que poderiam ser citados.

Assim, julgo a leitura de escritoras mulheres fundamental em qualquer tempo e esse comportamento do consumidor confirma essa importância. Este período de quarentena tem me possibilitado fortalecer a minha relação com os livros. Cresci cercada por eles, pois sou filha de intelectuais. Quando pequena eu ganhava muitos livros, não tinha vídeo games ou jogos eletrônicos, mesmo sendo produtos comuns da minha geração. Assim, o meu lazer e a minha relação de descobertas sempre foram com os livros.

Entre as obras às quais me dediquei durante esse confinamento está Herdeiras do Mar, de Mary Lynn Bracht. Mary tem ascendência coreana, estudou na Universidade de Londres e foi criada nos Estados Unidos. A autora fez parte de uma grande comunidade de mulheres da Coreia do Sul do pós-guerra e, quando visitou o vilarejo onde sua mãe passou sua infância, Mary conheceu muitas mulheres –  muitas já idosas – que ela retratara na obra: ao resgatar suas memórias ela também conseguiu resgatar suas juventudes.  Herdeiras do Mar foi, para mim, um grande marco, ao desconstruir meu olhar sobre a mulher oriental. No ocidente, imaginamos as mulheres orientais como servis, subservientes, um pré-conceito arraigado por aqui. Tive contato com o movimento feminista nos países asiáticos em 2017, quando convivi com mulheres feministas da região e pude observar como trabalham seu empoderamento. A partir daí, estudei esse fenômeno nesses países para entender como foi a trajetória pela busca da liberdade e igualdade femininas na Ásia.  Esta obra, portanto, mostra, justamente, esse aspecto: a força e a vitalidade de mulheres guerreiras que lutaram para sobreviver e para proteger os seus, tanto na guerra como no pós-guerra.  Como muitas outras mulheres em diversas localidades do mundo, elas não tinham nada de servis!

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Herdeiras do Mar é daquelas obras capazes de aquecer o coração.  Num momento em que há uma enorme insegurança no ar e uma imprevisibilidade maior do que nunca no amanhã, é o tipo de livro que conseguiu me acalmar. Mas você pode se perguntar: como um livro que aborda uma difícil realidade pode me acalentar?  Embora ele trate de um período muito delicado da ocupação da Coreia do Sul pelo Japão e de seus horrores, sua abordagem é muito sensível. Num cenário de guerra, desumana e de pobreza material e de espírito humano, o amor conseguia ser mais forte.

No Japão há uma palavra muito conhecida, Sakura, que significa flor de cerejeira.  Tem origem numa lenda sobre a princesa, Konohana Sakuya Hime, divindade nipônica que, ao cair do céu perto do Monte Fuji, transformou-se em flor.  Por isso, Sakura é um dos nomes femininos mais populares do país e simboliza a felicidade, a pureza e a renovação. Outra interpretação de seu surgimento é a que se relaciona com a ciclo da natureza –  momento em que se saúda o início da primavera e o fim do inverno japonês. Durante esse período, flores brancas e rosadas surgem nos galhos secos das cerejeiras e logo em uma semana caem –  um fenômeno belíssimo que dura muito pouco. Por isso, a flor de cerejeira também é associada à efemeridade de nossa existência.

Na obra, cujo olhar é singular e multicultural, Hana, uma das protagonistas, é apelidada de Sakura e, ainda muito jovem, sofre com os percalços da condição humana. Assim, a narrativa mostra ao leitor sua característica de universalidade: apesar de mostrar a realidade específica de uma região, o livro fala de e com as mulheres que passaram por conflitos sociais, políticos e econômicos. Precisamos lembrar que a guerra é terrível e quando termina é necessário perdoar, a experiência de quem a viveu deve ser sempre lembrada. A história do mundo, do Ocidente ao Oriente e da África, um Ocidente diferente, precisa ser contada com muitos pedidos de perdão. Foram tantas barbaridades, entre elas, a escravidão africana pelos países europeus que, para mim, é uma das piores manchas de todos os tempos; a perseguição da comunidade judaica; e outras tantas situações escabrosas. Uma guerra sempre deve ser evitada ao máximo, mas quando acontece, embora todos sofram, há um grupo que sofre ainda mais: as mulheres. No auge da selvageria, o homem vai sempre violentar a mulher, além de todas as perdas, as mulheres são sexualmente e drasticamente violentadas.

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Uma obra que faz com que todas as mulheres possam se identificar com suas personagens. Eu também me identifiquei.  A autora é capaz de trazer sensibilidade ao relatar um momento triste e impactante da Coreia do Sul. Ao mostrar essa realidade pelo ponto de vista das personagens, o livro apresenta como as mulheres sobreviveram à guerra e às suas próprias trajetórias. Esse caráter universal é visível e tem origem nas vivências da autora. Mary Lynn Bracht nasceu na Alemanha e cresceu nos Estados Unidos, viajou para a Coreia do Sul diversas vezes, ao longo da infância e juventude (já que sua família era originária daquele país), assim tendo contato com todas essas culturas. Para a formação de uma pessoa é enriquecedor ter esse olhar, a riqueza intelectual de alguém depende de uma mescla de educação formal e de experiências multiculturais.  No livro, o leitor percebe logo de cara esse fator, a autora consegue construir uma narrativa em que qualquer mulher que viva em situação de conflito social possa se identificar, seja na comunidade carioca em que se convive com a violência entre criminosos e a polícia, mulheres que vivem em meio às guerras do Oriente Médio como na Síria, Líbano, Iêmen, Gaza ou Jordânia, ou as que convivem com medo dos grupos terroristas no norte da Nigéria.

Trata-se também de uma ficção baseada em acontecimentos reais, relata os horrores que as mulheres da Coreia do Sul viveram durante a ocupação do Império Japonês, na Segunda Guerra Mundial. Este é Herdeiras do Mar, escrito por Mary Lynn Bracht.  Hana e Emi, as irmãs protagonistas, no entanto, tiveram um pouco mais de sorte e acolhimento do que muitas mulheres reais.  A história das mulheres de consolo, como ficaram conhecidas, é considerada como um dos mais brutais sistemas de tráfico humano e crime de guerra de todos os tempos. Cerca de 200 mil mulheres passaram por alguns dos horrores vividos no livro de Mary. Indonésia, Taiwan e Filipinas também são outros países que conviveram com esse cenário, onde jovens de 15 anos ou menos eram retiradas de seus lares para viverem como escravas sexuais. Contudo, embora a obra Herdeiras do Mar relate um período cruel, a leitura é libertadora e faz com que nós, mulheres, sejamos, cada vez mais, empáticas com a humanidade.

Destaco, por fim, uma curiosidade sobre a capa do livro. Você sabe o que significa a imagem do livro de Herdeiras do Mar? Ela é uma fotografia feita pelo brasileiro Luciano Candisanti para o ensaio Haenyeo, mulheres do mar, que mostra a história das mergulhadoras sul coreanas da ilha de Jeju. Elas compartilham a mesma ascendência que as personagens do livro, as irmãs Hana e Emi. Aproximadamente quatro séculos atrás, quando a Coreia do Sul era “dominada” pela hegemonia masculina, as mergulhadoras de Jeju formaram uma sociedade na qual a liderança e o sustento eram exercidos pelas figuras femininas da comunidade. Até hoje, muitas mulheres da região movimentam a economia local, mergulhando por horas atrás frutos do mar e peixes. O ensaio de Luciano foi exibido no Museu da Imagem e do Som (MIS), em 2019.

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Ana Beatriz Prudente é estreante como crítica literária, gestora de Economia Criativa, Educadora de Mulheres Empreendedoras, Ativista pelo Empreendedorismo Social com Design Thinking,  Membro da Comissão Permanente de Combate à Covid-19 da Faculdade de Educação da USP e Membro da Comissão de Cooperação Internacional da FEUSP.

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