A imprensa obstruída, as receitas de bolo e um ananás no meio do caminho, do Sylvia Debossan Moretzsohn

Obstruída a imprensa, acuada e acovardada, resta-nos a esperança de um ananás no meio do caminho. Até quando, eis a questão

Ilustração: André Dahmer

do ObjETHOS 

A imprensa obstruída, as receitas de bolo e um ananás no meio do caminho

por Sylvia Debossan Moretzsohn

“Se isso não for obstrução de justiça, o que será?”, perguntou Bernardo Mello Franco, em seu blog em O Globo, no mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro afirmou, diante de um bando de jornalistas, ter se apropriado das gravações feitas na portaria de seu condomínio, horas antes da execução de Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes. O crime acaba de completar 600 dias.

Foi uma voz praticamente isolada entre os que permanecem atuando na grande imprensa. Diante do escândalo evidente, os jornais silenciaram.

A história começou, como se sabe, quando o Jornal Nacional, da Rede Globo, anunciou em destaque, na edição de 29 de outubro, a hipótese de Bolsonaro ser incluído na lenta e conturbada investigação do assassinato. Os indícios seriam uma anotação no livro de registros da portaria do condomínio onde mora o presidente e o depoimento de um porteiro, que declarou ter falado com “seu Jair” para autorizar a entrada de um visitante, hoje preso, que afinal se dirigiria a outra casa, para encontrar-se com outro morador, também preso. A reportagem, entretanto, ressaltava que, naquele dia, Bolsonaro, então deputado federal, estava em Brasília, participando de sessões na Câmara.

À violenta reação do presidente, que estava na Arábia Saudita e de lá gravou uma “live” xingando a Globo e ameaçando não lhe renovar a concessão, seguiu-se uma coletiva convocada às pressas pelo Ministério Público do Rio, que afirmou ter realizado perícia nas gravações e desmentiu a versão do porteiro. Apenas no dia seguinte, com base numa extensa reportagem da Folha de S.Paulo, o Jornal Nacional exibiu as falhas da perícia, feita em apenas duas horas e meia, por técnicos do próprio MP, a partir de um CD fornecido pelo síndico do condomínio, portanto sem o exame dos equipamentos do sistema eletrônico da portaria. Na edição de 1º de novembro, ao noticiar o afastamento de uma das promotoras, que aparecia em fotos com a camisa de campanha de Bolsonaro e ao lado do deputado que rasgou a placa de Marielle numa manifestação às vésperas da eleição do ano passado, o telejornal voltaria a questionar a perícia. Entretanto, no dia 2 de novembro, justamente quando o presidente afirmou que “pegou” as gravações, o JN já não daria qualquer destaque ao caso, registrando-o no rodapé de uma longa matéria em que Bolsonaro aparece descontraído, andando em sua moto nova, falando sobre as perspectivas da economia, até que finalmente se refere ao episódio do condomínio e diz: “nós pegamos, antes que fosse adulterado, ou tentasse alguém adulterar, pegamos lá toda a memória da secretária eletrônica, que é guardada há mais de ano, a voz não foi a minha, não é o ‘seu Jair’…”.

“Antes que fosse adulterado”. Terá sido?

Coube a um jornalista solitário, Hugo Souza, que mantém o blog Come Ananás, o empenho num trabalho de investigação que, em outros tempos, mobilizaria uma multidão de repórteres. Numa primeira matéria, publicada em 2 de novembro a partir do vídeo em que Carlos Bolsonaro procura comprovar a versão oficial – feito no dia seguinte à primeira reportagem do JN –, ele mostra indícios de que os arquivos das gravações podem ter sido alterados. No dia seguinte, reitera essa suspeita, ao verificar um segundo vídeo postado pelo filho do presidente:

“No segundo vídeo, pode-se ver na aba esquerda do Windows Explorer que surge uma pasta nomeada ‘GRAVAÇÕES’, abaixo do diretório ‘Rede’. A pasta, diferente da pasta ‘2018_03_14’, onde aparecem arquivados os áudios mostrados por Carlos, não estava lá no primeiro vídeo. O intervalo entre a publicação dos dois vídeos é de menos de três horas: o primeiro foi postado no Twitter às 10h42; o segundo foi postado às 13h26.”

https://comeananas.com/wp-content/uploads/2019/11/videos-1024x669.png

Obstrução da justiça, vamos recordar, era uma obsessão da nossa imprensa quando o alvo era o PT. Foi sob essa acusação – improcedente, como assinalaria Janio de Freitas – que Lula foi impedido de assumir a Casa Civil, em março de 2016. Em 2017, a onda de reportagens sobre o famoso triplex do Guarujá também ensejou hipóteses de incriminar Lula por esse motivo. No mesmo ano, O Globo correria atrás de juristas e especialistas prontos para “enquadrar” Dilma Rousseff, já destituída do cargo, com base numa delação, que assanhou o colunista Merval Pereira a pedir a prisão da ex-presidente. A propósito, a resposta de Dilma, no mesmo dia, contestando a “escalada autoritária [que] contaminou radicalmente os formadores de opinião pública”, é premonitória: “Em outros tempos, em outros países, tais práticas resultaram na perseguição política e na destruição da democracia levando à escalada da violência e do fascismo.”

Agora que o fascismo avança, o presidente declara sem cerimônia o abuso que cometeu, debocha acintosamente da imprensa – “E aí, Globo, já acharam quem matou Marielle? Foi eu mesmo?” – e os jornais se calam.

Mesmo a Folha, que publicou um editorial vigoroso neste domingo, 3 de outubro, e foi às bancas com uma sobrecapa de fundo preto lamentando a “atitude discriminatória” de Bolsonaro, que “pediu o cancelamento das assinaturas” do jornal por parte de órgãos do governo federal: mesmo a Folha praticamente ignorou assunto em sua edição, deixando-o restrito ao espaço de colunistas e, no site, a uma reportagem que deixa a cargo de associações de delegados de polícia o protesto contra o presidente.

Talvez se possa entender a fragilidade do mote, reiterado novamente desta vez, de que “defender a liberdade de imprensa é defender a democracia”, se considerarmos a questão econômica, que orienta as decisões editoriais: o principal negócio da empresa, em termos de rentabilidade, é o PagBank. Talvez não valha a pena desagradar o governo que já tantas ameaças vem fazendo, e correr o risco de perder uma carta-patente.

Mas então “defender a democracia” se torna, cada vez mais, apenas uma declaração retórica. Daí não adianta choramingar por novos assinantes.

E é assim que o tempo vai se fechando. Quando, na semana passada, e na esteira das manifestações no Chile contra o governo que era a menina dos olhos dos que atualmente mandam e desmandam no Brasil, Eduardo Bolsonaro declarou que, “se a esquerda radicalizasse”, haveria reação, que “poderia vir através de um novo AI-5”, o site humorístico Sensacionalista publicou uma receita de bolo. Era uma óbvia evocação dos tempos da ditadura, quando jornais e revistas, sob censura, utilizavam esse estratagema para denunciar essa violência – com a diferença de que se tratava de receitas absurdas.

Obstruída a imprensa, acuada e acovardada, resta-nos a esperança de um ananás no meio do caminho. Até quando, eis a questão.

P.S: Como de hábito, Bolsonaro voltou atrás em suas declarações. Como noticiou O Globo em matéria atualizada na manhã desta segunda-feira, 4 de novembro, o presidente negou ter agido para obstruir as investigações do caso Marielle. O jornal reproduz trecho de entrevista ao programa Domingo Espetacular, da Record, que foi ao ar na noite do dia 3:

“…também falam que estou obstruindo a Justiça. Que obstrução? Apenas eu falei com meu filho, ele foi na portaria, como qualquer um dos 150 moradores do condomínio podem fazer. Colocou a data 14 de março do ano passado, entrou nas ligações da minha casa e para a casa dele, ele botou o áudio e filmou esse áudio. Nada além disso.”

Mais tarde, na saída de um jogo de futebol no estádio do Gama, ele repetiu:
“O que eu fiz [isto é, o que o filho Carlos fez…] foi filmar a secretária eletrônica com a respectiva voz de quem atendeu o telefone. Só isso, mais nada. Não peguei, não fiz backup, não fiz nada. A memória da secretária eletrônica está com a Polícia Civil há muito tempo. Ninguém quer adulterar nada.”

O caminho indicado pelo repórter Hugo Souza, como referido neste artigo, sugere entretanto outra hipótese, que precisaria ser investigada. Apenas uma perícia a sério poderia fazer isso.

A outra pergunta é: se a memória da secretária eletrônica está com a Polícia Civil “há muito tempo”, por que essa perícia rigorosa já não foi feita? Por que o MP teve de pedir uma perícia às pressas, cheia de buracos e, a rigor, imprestável, porque não examinou o material original, mas apenas um CD fornecido pelo síndico do condomínio?

Enfim, perguntas…

P.S.2: Na manhã desta segunda-feira, Monica Bergamo reproduz comunicado interno do diretor geral de jornalismo da Globo, Ali Kamel, no qual detalha os procedimentos adotados para a apuração da reportagem que detonou essa polêmica.

Kamel estranha que o advogado de Bolsonaro, entrevistado no mesmo dia, tenha sonegado as informações sobre os áudios que desmentiriam o depoimento do porteiro. A esse respeito, diz que “houve uma elucidativa entrevista das promotoras do caso, que divulgamos com o destaque merecido”. Ao mesmo tempo, assinala que “a perícia no sistema de interfone foi feita apenas um dia depois da exibição da reportagem e num procedimento que durou somente duas horas e meia, o que tem sido alvo de críticas de diversas associações de peritos”.

Como, então, a entrevista das promotoras pode ter sido elucidativa? O próprio JN, na edição de 1º de novembro, trouxe entrevista com o presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais, que questionou “a forma e a rapidez com que o trabalho foi concluído”.

A perícia do MP, em suma, tem o mesmo valor que o calendário da Caixa Econômica exibido por Sérgio Moro como “prova” da data em que havia aberto conta no twitter. Não é possível tomá-la a sério, e insistir nisso é condição fundamental para a apuração rigorosa desse crime.


*Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora aposentada da UFF, pós-doutoranda na Universidade do Minho, pesquisadora do ObjETHOS

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