A indústria do Fake News – como se prevenir da manipulação?, por Dora Incontri

A questão é que as pessoas aderem à manipulação, compram o que lhes oferece, tanto em produtos quanto em ideias, são suscetíveis à cegueira do próprio juízo, carecem de crítica e se deixam arrastar.

A indústria do Fake News – como se prevenir da manipulação?

por Dora Incontri

As notícias sobre as Fake News, seus exércitos de robôs, aqui no Brasil impulsionados pelo filho 02 do (anti)presidente, as informações que temos sobre o seu mentor internacional Steve Bannon, que faz campanha de calúnias contra o Papa Francisco e que ajudou a eleger o bárbaro no norte (aquele que manda tomar desinfetante) – mais as revelações que temos de um Snowden (que se mantém exilado na Rússia) de como os nossos dados estão aí nas nuvens, sendo observados… – tudo isso nos dá uma sensação de opressão, de impotência, de angústia mesmo. Basta, aliás, a experiência de fazermos uma breve pesquisa na internet, para depois de cinco minutos, todas as nossas redes serem inundadas por produtos ou informações que têm a ver com o que acabamos de pesquisar. Então, é verdade… estamos sendo monitorados, vigiados, com o objetivo de nos venderem coisas, nos manipularem politicamente, nos induzirem comportamentos, nos enquadrarem no sistema. Notícias chegam da China, onde a vigilância se faz cada vez mais avassaladora, inclusive pelo rastreamento do rosto… Comenta-se também que por causa do coronavírus, pode haver pretextos para armar mais ainda esses sistemas de controle. Nem George Orwell, na sua aterrorizante distopia 1984, conseguiu imaginar que chegaríamos tão longe.

A questão é que as pessoas aderem à manipulação, compram o que lhes oferece, tanto em produtos quanto em ideias, são suscetíveis à cegueira do próprio juízo, carecem de crítica e se deixam arrastar. Foi assim por exemplo no nazismo, (um dos inventores ou pelo menos aperfeiçoadores dessa propaganda manipulatória); foi assim durante o domínio da inquisição da Igreja Católica, quando se podia denunciar o vizinho por bruxaria… E é assim que o sistema capitalista se mantém, através da publicidade, que induz ao consumo, que promove o medo e a insegurança e nos faz sujeitar aos ditames do mercado.

Lembro-me de uma cena do filme Jesus de Nazaré (de Franco Zeffirelli), que é o meu predileto sobre Jesus, em que no dia da escolha de Pilatos entre Jesus e Barrabás, os partidários de Barrabás circulavam entre o povo, concitando a pedirem a sua liberdade e a condenação de Jesus. E aquele mesmo povo que dias atrás havia recebido o profeta nazareno com aclamações e ramos verdes, passou rapidamente para o lado contrário, defendendo a sua morte na cruz.

Por aí se vê que o comportamento de massa sempre foi objeto de manipulação dos poderes estabelecidos ou de grupos que queiram desencadear a tomada do poder. A única diferença é que hoje temos a tecnologia, que é um instrumento poderoso para aqueles que querem obter resultados maciços de arrastamento do povo. O nazismo contou com o rádio, com o cinema; os fascistas contemporâneos contam com o whatsapp e com o youtube (e ainda há a deep web, verdadeiro submundo do crime na internet).

A pergunta é: podemos reverter isso? Podemos evitar que nosso tio ou tia, nosso pai ou irmão, nosso amigo ou conhecido sejam cooptados por essa manipulação violenta da informação? Agora mesmo, tenho visto gente amiga, instruída, que se fixou na imagem de um juiz, detentor de heroicos parâmetros éticos, e não adiantou tal juiz ter sido fartamente denunciado pela Intercept, com evidências cabais de sua parcialidade e manipulação nos processos da Lava-jato, não adiantou o mesmo juiz ter aceito um cargo num governo que ele ajudou a eleger e ter participado desse governo, que está implicado com as milícias, cujos membros são suspeitos de terem participado do assassinato de Marielle… muitos continuam com a imagem de um juiz reto e venerando, que foi promovida pela Globo.

O povo alemão, quando aderiu maciçamente a Hitler, um líder tão histriônico e bizarro quanto esses que governam o nosso país e o Estados Unidos da América, era um povo instruído, escolarizado…

Então, nem a educação nos previne da manipulação?

Como educadora, penso que a única coisa que pode nos prevenir desse arrastamento irracional para causas destrutivas, é justamente a educação. Mas nem toda forma de educação, porque até agora, a educação praticada em todas as épocas da humanidade é uma educação para a obediência, formatadora das consciências, sem atenção para os aspectos morais, emocionais e espirituais do ser humano e, sobretudo, sem estímulo à sua liberdade. Uma criança que aprende desde cedo a obedecer, a conformar-se com o sistema, a ser condicionado por medo e recompensa, a ser estimulado à competição e não à cooperação, será um adulto que até pode ter cultura e gostar de boa música (como gostavam os nazistas), mas será um adulto que pode aderir a qualquer projeto político totalitário, um adulto que se submete às regras do mercado, onde ele será apenas um trabalhador descartável, como foi um aluno numerado e homogeneizado na escola tradicional.

Então… nem toda educação é libertadora, muito do que se faz em educação é manipulador.

Para termos uma educação de fato emancipadora, preventiva de manipulação, ela própria precisa renunciar ao desejo de modelar, impor e formatar as consciências das novas gerações. A escola, a família, os meios de comunicação devem ser lugares plurais, de debates, de pesquisa, de estímulo ao pensamento autônomo. Mas, pode-se perguntar, como fazer isso se os próprios educadores foram formatados para formatar, em sua maioria, e reproduzem o sistema?

É preciso por isso trabalhar os dois lados, aqueles que já despertaram e querem sinceramente um mundo livre, igualitário, em que cada indivíduo possa pensar por si: trabalhar com as novas gerações e trabalhar com os adultos, acordando consciências, trazendo informações consistentes. Quem pensa livre, quem vive acordado e crítico, faça de sua vida uma missão de acordar mais gente, de despertar mais consciências – isso não se faz com ódio, mas com uma comunicação clara, aberta, sincera e não-violenta.

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3 comentários

  1. Eu me sinto como um mané, pois pago caro para manter minha privacidade na rede e por consultar uma empresa de rações para animais vi meu computador invadido por ofertas de todos os tipos. Não há como escapar dessa quadrilha tecnológica que tomou conta do mundo.

  2. É isso……………………………………….o poder da consciência é o mesmo da inteligência que nos conduz à evolução no presente……………………….apenas acreditar não basta, é preciso pesquisar, partir do princípio de que o que não podemos confirmar por nós mesmos, ou em nós mesmos, não existe…
    tudo que é externo é enfeite

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