A insustentável leveza da ONU, por Fernando Horta

Por Fernando Horta

A Organização das Nações Unidas é criada logo após a segunda guerra mundial exatamente como um pacto entre os vencedores para banir a monstruosidade que foi o fascismo e o nazismo, e evitar que a humanidade entrasse em um conflito global novamente. É preciso lembrar que num período inferior a 30 anos, o mundo havia sido dragado para duas guerras monstruosas.

Ao contrário do que os militares garbosamente afirmam, as guerras mundiais contaram uma história que já vinha se desenhando desde a Idade Moderna. Se separarmos na sociedade os grupos treinados para lutar e fazer guerra (e o chamarmos de “homens de armas”) em oposição aos “civis”, veremos uma característica assustadora: desde o final do século XIX muito mais civis morreram nas guerras do que militares. Este dado é assustador especialmente nos dois conflitos mundiais. As populações mais arrasadas, com maiores baixas, eram as que menos voz política tinham. Notadamente os proletários e populações pobres. Geograficamente, as populações civis urbanas foram as mais atingidas e, pelo instrumental de gênero, não resta dúvida que as mulheres são as maiores vítimas.

A Segunda Guerra Mundial é um dos únicos conflitos não tem um tratado de paz em seu fim. Os países vencedores preferiram não correr este risco, já que era consenso que uma das causas da segunda guerra havia sido a primeira. Especialmente os Tratados de Sévres, Newlly, Saint German, Trianon e etc. A vergonha internacional a que foram submetidos os vencidos no confronto de 1914-1918 tinha sido, sem sombra de dúvidas, uma parte essencial do combustível usado para transformar o mundo em um campo de ódio.

A brutalidade do fascismo e do nazismo foi derrotada, e três “trancas” foram colocadas na prisão que os encarcerou: a proibição de rearmamento de Alemanha e Japão, o comprometimento de todas as nações do século XX com um corpo de princípios chamados “Direitos Humanos” e a criação da ONU, com um “Conselho de Segurança” que juntava os cinco países mais fortes econômica e militarmente. Se o leitor atentar para os últimos vinte anos, verá que a Alemanha reforça seu exército e já cogita adquirir a bomba atômica, o Japão mudou recentemente sua constituição para poder reorganizar exércitos, os Direitos Humanos são atacados e minorados pelo mundo todo – quase sempre por grupos de direita próximos ou identificados com o nazi-fascismo – e diversos países, desde EUA e Israel, até Inglaterra e Brasil, questionam a própria ONU.

Leia também:  O que têm a nos mostrar as audiências de custódia?, por Rômulo Moreira

Não deveria ser surpresa ao mundo que, ao quebrar os ferrolhos impostos ao nazi-fascismo, ferrolhos que nos custaram quase 50 milhões de almas, as bestas estejam novamente soltas.

Em recente decisão, um comitê de direitos humanos da ONU, seguindo o mesmo caminho de decisão da Interpol, reconhece a parcialidade e a politização dos atos da “Vara de Curitiba” e dos “Três de Porto Alegre” e afirma que eles atacam diretamente os direitos mais básicos das pessoas: o direito a uma justiça neutra e formalmente correta.

A discussão sobre a obrigatoriedade ou não de o Brasil cumprir as ordens do comitê da ONU é menor frente ao imenso golpe de legitimidade que Moro et caterva sofreram. A ONU diz claramente que Moro e Dallagnol SÃO os monstros mesmos desenjaulados, pois todo aquele que ataca os direitos humanos não pode ter qualquer desculpa para fazê-lo. A História ensina que as bestas afirmam defender as flores enquanto pisam nas pessoas. A decisão da ONU é, assim, luminar.

Estou entre os que têm muitas restrições ao direito internacional. Os EUA foram condenados em todas as instâncias internacionais pelas atrocidades que cometeram na América Central “em luta contra o comunismo” e nada nunca aconteceu. A se julgar pelo direito internacional, Guantánamo, Abu-Ghraib, Sabra e Chatilla, por exemplo, seriam motivo suficiente para julgamentos por crimes contra a humanidade. Contudo, a própria ONU teve papel decisivo, entre outros, no assassinato de Patrice Lumumba e na instalação de ditaduras horrendas na África. Em 1952, um comitê da ONU produziu um relatório comprovando que os EUA usavam armas químicas e biológicas contra chineses e coreanos na Guerra da Coréia. O relatório só foi tornado público em 2017. Ainda hoje, um número imenso de crianças no Vietnã, Cambodja e Laos sofrem com deformações monstruosas em virtude da “Guerra Santa” que os EUA impuseram à região. Nada aconteceu. Nada acontecerá.

Leia também:  A libertação de Lula e a defesa de um projeto nacional, por Rafael Viera

A resposta da ONU é um silêncio envergonhado para com as atrocidades dos senhores do mundo. O direito internacional é um conto de fadas em que o final feliz só existe para os príncipes e princesas. Ninguém mais. Se a justiça nacional só morde os descalços, nas palavras de Eduardo Galeano, o direito internacional só existe para quem não tem porta-aviões.

A decisão da ONU, com relação aos repetidos desrespeitos aos direitos básicos do presidente Lula, não deve ser tomada a partir da discussão sobre a obrigatoriedade ou não de obedecer. Há sim a obrigatoriedade de o Brasil obedecer. Por outro lado, se não obedecer a ONU não tem meios nenhum para impor sua decisão. Entra-se no dilema que redunda no conhecido ditado popular: “Lei sem espada é conversa fiada”.

A decisão da ONU tem que ser entendidaa do ponto de vista da luta mundial contra o ressurgimento do fascismo. Enquanto, infelizmente para nós brasileiros, existe a percepção de que esta monstruosidade já corroeu nossas instituições (a ponto de ministros do supremo se acharem “iluministas” a impor seu arbítrio como se alvos fossem), em âmbito mundial a luta está ainda acontecendo. É impensado numa Europa que viveu o fascismo e o nazismo, que autoridades públicas escrevam livros “denunciando” uma suposta “bandidolatria” como crítica aos direitos humanos e, ainda, se sintam honrados em publicar a nata fétida de suas ignorâncias em forma de livro. Apenas a título de comparação, o juiz Baltasar Garzón, o magistrado que mandou prender Pinochet, tem, em termos de formação, conhecimento e caráter, anos-luz de distância dos nossos “heróis nacionais”. E Garzón é um dos inúmeros que denunciam as atrocidades contra Lula.

Leia também:  Reis e presidentes patrocinam obras no exterior, por Andre Motta Araujo

Menos importa se a decisão da ONU tem ou não poder vinculante. Especialmente em tempos em que nossos juízes não cumprem sequer a nossa Constituição e são apoiados por ministros em tribunais superiores que têm certeza de que o justo, o correto e o legal emanam de seus celestiais cérebros em conversas com a seda de seus lençóis alvos. Sendo os cérebros e as sedas pagos e mantidos com dinheiro público. A decisão da ONU mostra que muitos já estão se organizando em nível internacional. Preparando-se para tentar rechaçar as bestas novamente soltas.

Uso, propositadamente, o termo “bestas” com os dois sentidos. Os monstros e os ignorantes. Porque, ao final, o estrago que ambos cometem acabam somados e não diferem em essência. É preciso entender que quem avilta, prende, mata e corrompe dizendo que o faz para lutar contra o ultraje, o assassínio e a corrupção, se transforma naquilo que julga combater (se já não era) e, embora se veja com uma armadura branca, veste roupas da brutalidade e da monstruosidade que a segunda guerra mostrou bem onde e como termina.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

20 comentários

  1. Mas no caso específico, o
    Mas no caso específico, o quê temos que fazer? Esperarmos a morte chegar? Nos dê um mínimo de esperança,que algo positivo teremos e não nos tire isso. De algum lugar ou em algum momento,precisamos acreditar que teremos vitória e quando escrevo isto, me refiro ao País e não especificamente a um partido ou a um líder!

    • A constituição de 88 não está
      A constituição de 88 não está mais em vigor. As leis foram relativizadas e não são cumpridas. Quando não há leis, o que se faz? Pega-se em armas? Talvez chegou a hora de uma guerra civil?

      • Entregando o jogo

        O respeito às leis e a defesa de nossa Constituição devem ser as nossas principais bandeiras de luta.

        Não podemos aceitar que a Carta Magna seja rasgada, mas também não podemos recorrer a armas de que não dispomos.  Nosso caminho é a resistência, pressão popular e desobediência civil.

    • A esperança é um erro.

      A esperança é um erro. Enquanto temos esperança que um milagre vai acontecer e salvar o Brasil, a direita continua destruindo o país sem dó.

      Solução: temos que aceitar que a luta é inevitável e nos preparar para ela.

  2. Seu Fela da Puta, pare de bater em mulher

    Isso êh uma ordem ou determinação?

    bem, se for recomendação eu nao vou parar de bater em mulher, pois mulher êh inferior ao homem

  3. As uvas verdes apodreceram
    1 – Infelizmente, não é só a direita que ataca os direitos humanos, e as críticas, ainda que bem intencionadas mas contraproducentes porque não propositivas feitas pela esquerda (ou a “não direita”) são parte da descrença que impede que iniciativas como a ONU funcionem.
    2 – Não só foi criada como é bancada pelos vencedores, o que a coloca numa situação paradoxal de só poder agir em assuntos que não confrontem diretamente seus interesses, e ainda assim temos situações como a do ex secretário-geral Kofi Annan que enfrentou, diplomaticamente, as superpotências USA e UK no caso da invasão do Iraque em 2003. Nesses casos a atuação da ONU se dá no terreno simbólico mais que de ação efetiva, e de apoio humanitário aos atingidos pelos conflitos porque não tem poder de impedir que ocorram, afinal ela está presa por seu “defeito” inato, a dependência técnica, política e financeira dos países mais ricos do mundo.
    Mas o trabalho humanitário e de reunião de especialistas e diplomatas para discutir os assuntos que afetam o mundo não pode ser minimizado, e sua importância aparece onde ele, mesmo precário, é impedido de atuar, como no genocídio palestino na faixa de Gaza, nos países e regiões africanos com conflitos internos e epidemias, ou na guerra USamericana-saudita que mata milhares no Iémen, a maioria crianças.
    A própria resistência no cumprimento de tratados voluntariamente aderidos demonstra a dificuldade da ONU, em sua função mormente diplomática, de agir com maior efetividade e independência.
    Como instância multilateral, dependerá sempre da vitalidade da comunidade internacional para ser fortalecida, e esta depende da disputa em outras instâncias de poder, principalmente nacionais e regionais. E naturalmente, pela importância simbólica que adquiriu, seu trabalho é minado por países que fazem dela arma de seu próprio exército diplomático-bélico, como os USA.
    Não ser perfeita, como se fala da democracia, não a torna inútil ou inócua, e se está ruim com ela, como seria sem sua existência, nem que seja apenas como um memorial das lutas de muitos por um mundo menos injusto?
    Não podemos esquecer que as assimetrias de poder e entre vontade e possibilidade de realização se tornam mais visíveis num fórum que reúne a maioria das nações, com a vantagem de dar ao mundo um pouco do seu reflexo no que tem de melhor e de pior, e é o caso de nos perguntarmos se a ONU não funciona a contento, quais as razões e formas de superação dessas limitações. Parece mais produtivo e não se corre o risco de desgastar o trabalho essencial realizado e a simbologia de uma ideia utópica cada vez mais necessária, a da cidadania global solidária e igualitária.

    Sampa/SP, 19/08/2018 – 15:22 (alterado às 15:32).

  4. Obrigado, Horta por escrever

    Obrigado, Horta por escrever por mim. Pena que estas bestas a quem voeê se refere jamais terão capacidade de entender o que foi escrito. Uns porque não tem intelecto, ourtos por não ter sensibilidade.

  5. Mais um execente texto. E vai

    Mais um execente texto. E vai na alma da questão: só seremos salvos das bestas por ações que vierem de fora. Por aqui, está difícil, mas a luta continua. Lula livre JÁ!

  6. pior é que contrariam a ONU se revirando na cova…

    ridículo todo este ar de superioridade em relação a ONU vindo de um Brasil com praticamente todas as suas instuições em estado de extinção

    de repente a ONU só quis testar, confirmar e alertar

     

  7. Ao me deparar com boa parte

    Ao me deparar com boa parte dos comentários  a textos da envergadura deste monumento que é o artigo de Fernando Horta eu me pergunto se estas pessoas terão, de fato, lido o mesmo texto que eu. Pararam para pensar em quanto trabalho foi necessário para que Fernando decidisse publicá-lo? Quantas confirmações, quantas consultas, quantas análises para chegar a estas conclusões? Quantas opções tiveram que ser feitas? Me pergunto, inclusive, se certas pessoas sabem, de fato, o que significa “direitos humanos”. Saberão que 50 milhões de pessoas mortas na guerra significa gente como a gente? Com um bebê tão lindo quanto o nosso? Com uma mãe igual à nossa? Com casa, sofã, carro, filhos, tudo iguais aos nossos? Alguns dos comentários são tão superficiais que causariam espécie mesmo que estivessemos tratando da morte de 50 milhões de moscas. A um artigo com esta densidade não se pode responder com o primeiro preconceito guardado no bolsinho. Tamanha profundidade exige respeito. Exige que se pare para pensar. É de nós que se trata. É da vida da humanidade. Guarde as vulgaridades para trocar idéias na pet sacan. 

     

     

  8. ESTE GOVERNO É COMUNISTA DE
    ESTE GOVERNO É COMUNISTA DE DIREITA E MUITOS DO JUDICIÁRIO PRATICAM UMA LEI CORRUPTA INTERPRETATIVA PRÓPRIA !!

  9. Se com a ONU êh assim, imagina com o Favreto

    Se nao cumpremA decisão da ONU, porque cumpririam uma decisão do Favreto?

  10. Todos contra o fascismo? Não passarão!

    BRAVO , BRAVO !

    ATORMENTA A PERGUNTA… As bestas estão  soltas???

  11. “Se a justiça nacional só

    “Se a justiça nacional só morde os descalços, nas palavras de Eduardo Galeano, o direito internacional só existe para quem não tem porta-aviões.”

    Perfeito. No final das contas a ONU é um conto de fadas.

    A Lei do mais forte nunca deixou de valer nesse mundo. A direita faz o que quer no Brasil porque tem as instituições ao seu lado, assim como o Império Ianque destrói o país que quiser com seu poderio militar.

  12. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome