A lógica da Guerra Fria: do Lawfare à Colônia Dignidad, por Rogério Mattos

A lógica da Guerra Fria: do Lawfare à Colônia Dignidad, por Rogério Mattos

No Brasil, seria de Morobozo a Bozomoro?

Porque na verdade não foi Bolsonaro que nomeou Moro para o ministério, mas Moro quem nomeou Bolsonaro para a presidência e agora ocupa a pasta destinada a aniquilar o “inimigo interno”.

Texto meu para a revista portuguesa Caliban 

Em 12 de dezembro de 2016, o governo Obama desclassificou mais de 500 páginas de documentos referentes à Argentina das décadas de 1970-80, quando domina o cone sul a infame Operação Condor. O centro de terrorismo, assassinatos e tortura, foi a colônia Dignidad, fundada por emigrados nazis depois do final da Segunda Guerra. Peter Levenda destaca eu seu site pessoal essa documentação. Pesquisador experiente das relações entre política e religião, o nazismo e o ocultismo, sabe que todo o dinheiro dos nazistas, toda a engenharia institucional por eles montada, não sumiria no ar pela simples vitória dos Aliados: o partido nazista não era um partido político, mas um culto. Os criminosos nazistas não vão se tornar simplesmente cidadãos honrados porque perderam a guerra. Vão escapar. Grandes nazistas com excelentes empregos e cargos, nos Estados Unidos, no setor público e privado, mantiveram seus trabalhos sem serem incomodados. Pelo contrário, incentivado pelos governos que o acolheram, como no caso da Operação Paper Clip, do governo estadunidense. E no mundo afora. O sanguinário Klaus Barbie seguiu tranquilo sua vida como um oficial das forças armadas da Líbia, por exemplo, ou o caso de Joseph Mengele no Brasil. E assim vai.

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A polícia secreta chilena mantinha um centro de operações no local e outras em suas proximidades, onde eram realizados interrogatórios e sessões de tortura. Na página 7 do documento se pode ler: “Chile. Ainda que aparentemente nenhum oficial de inteligência chileno se encontre atualmente nos Estados Unidos, tais oficiais visitaram o país usando identificações falsas e suas atividades não são conhecidas. O serviço de inteligência chileno é membro de um consórcio de serviços de inteligência da América do Sul, “Operação Condor”,  que no passado tramou assassinatos em países estrangeiros e manteve arquivos de ativistas anti-regime. Esse serviço mantem estreitas ligações com a colônia nazista alemã, La Dignidad, no sul do Chile, que deixa a sua disposição seus largos recursos”.

Os documentos revelam que os oficias chilenos faziam um intercâmbio constante com o governo estadunidense, entrando no país sem problemas com o uso de identidades falsas; o centro de treinamento de torturadores da Colônia Dignidad – registrada como uma fazenda produtiva, criada por ex-oficiais nazistas da Luftwaffe, e mantida por antigos membros da Gestapo e da SS, e que mantinha boas relações com a vizinhança, principalmente pelo atendimento médico gratuito prestado à população local uma vez por semana -, mostra que não foram apenas os americanos que coordenaram a operação Condor na América do Sul. Pelo contrário, os comandantes, os “professores” – se assim se pode dizer – foram os nazistas, apoiados extra-oficialmente pelo governo dos EUA e em aliança com os governos militares da região.

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Não se pode, claro, colocar como 100% certos arquivos desclassificados. Existem diversos níveis de inteligência (não existe uma CIA, mas vários níveis), e muitos dos documentos que são revelados no intuito de, mostrando parte da verdade, ocultar ou desviar o foco de outras verdades mais importantes que estavam ou estão por serem descobertas. Sabemos dos laços estadunidenses com os governos sul-americanos na fabricação da Operação Condor. O que Peter Levenda revela em seus escritos, e aqui particularmente nas linhas que destaca, é a rede nazista internacional que continua funcionando, sem perder nem um pouco do seu vigor, apesar da derrota na guerra. É ponto pacífico para quem vê os Chicago Boys ou todas as operações de engenharia e controle social, para citar só esses dois exemplos, que os nazistas perderam a guerra na Alemanha, o que não quer dizer que seu projeto foi derrotado de alguma maneira.

O que houve na Alemanha foi um experimento, como o dos campos de concentração, hoje largamente utilizados pelas mesmas firmas multinacionais que por lá estavam instaladas, com a imposição de medidas trabalhistas análogas à escravidão pelo mundo todo. Sabe-se também que a quantidade massiva de mortes ocorrida na época de Hitler no poder, sempre ignorada, foi a de pelo menos 40 milhões de russos que perderam suas vidas em sua chamada “guerra patriótica”. A ideia sempre foi, como era a política de Churchill, destruir Rússia e Alemanha; fazerem os dois países se auto-aniquilarem. Uma das coisas que explica o porque da impassividade britânica – a maior potência mundial então – durante todo o período de ascensão dos nazis ao poder. Sem a interferência de Roosevelt não sabemos até que ponto os planos imperiais poderiam levar o planeta…

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Para finalizar, o último parágrafo do post de Peter Levenda, que merece a tradução: “E para qualquer um que acredita que somente que regimes comunistas e terroristas do Oriente Médio são capazes de formas horrendas, extremas, de tortura, deve pelo menos ler as páginas doentias que contam sobre Alfredo Bravo, sequestrado de uma sala de aula em Buenos Aires, onde era professor, levado a um lugar distante, e interrogado e torturado de uma maneira muito chocante para ser detalhada aqui. Tudo porque era suspeito por ter se filiado a um sindicato e a uma organização de direitos humanos. Em uma das cenas, ele é ameaçado por um coronel que tem sobre a mesa uma pequena bandeira nazista”.

Antes de chamar Condor, melhor chamar ODESSA, ou seja, conhecer o nome que deram à organização de seus pressupostos.

Aqui o link para o documento em questão: https://icontherecord.tumblr.com/

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