A loucura tem método: Bolsonaro contra-ataca, por Wilton Cardoso

Bolsonaro está, como sempre apostando no caos e no confronto, locus fascista por excelência e onde ele se sente mais confortável.

A loucura tem método: Bolsonaro contra-ataca, por Wilton Cardoso

Confesso que é difícil raciocinar friamente quando nossas vidas e, principalmente, de pessoas próximas a nós podem estar ameaçadas, mas vamos lá.

Subestimei Bolsonaro ao afirmar no artigo anterior que sua queda era certa e se daria em questão de semanas. Além da guerra contra o coronavírus, há uma outra guerra não alardeada no país, entre a extrema direita neofascista/bolsonarista e a direita elitista que engloba o centrão, o STF e STJ, parte das cúpulas das Forças Armadas e o grande capital nacional, desde o agronegócio, passando pela banca e a grande mídia. Os soldados de Bolsonaro são a classe média fascista, empresários tresloucados (alguns grandes e a maioria médios e pequenos) e os evangélicos.

A guerra é ideológica, por corações e mentes do povão, disputando duas preocupações igualmente caras à população: a saúde e o emprego sem o qual as pessoas não sobrevivem. Com ou sem isolamento, o coronavírus provocará mortes e, provavelmente, caos nos serviços de saúde, principalmente nas grandes cidades. A diferença é de proporção: sem isolamento o que haverá é um massacre e as mortes seriam de centenas de milhares, talvez de milhões. Bolsonaro sabe disso. E sabe que os governadores e prefeitos vão desobedecê-lo e manter o confinamento da população, pois são eles que gerem o sistema de saúde e, bem informados por médicos e sanitaristas, sabem da necessidade de medidas restritivas para, ao menos, aliviar a rede de atendimento.

Bolsonaro foi e é incapaz de gerir a crise sanitária, pois não providenciou a fabricação antecipada de testes, EPS e principalmente respiradores, nem sua área econômica preparou qualquer programa de renda básica para amparar os trabalhadores (principalmente os 40% informais) diante da crise econômica. Ele sabe disso e sabe, principalmente, que a elite de direita iria jogar estas responsabilidades em suas costas, quando começasse: a faltar leitos e respiradores, ocasionando mortes evitáveis; o caos social, com a falta renda dos trabalhadores. Mesmo se ele começasse a agir agora já seria tarde e se ficasse titubeando, como estava, pior ainda para ele.

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O que ele faz agora com o discurso de terça-feira à noite e o da manhã de quarta? Parte para o contra-ataque e acusa a elite de direita, na figura de governadores, prefeitos, Congresso. mídia e STF, de provocarem histeria na população, paralisarem o país e provocarem a crise econômica que virá. As mortes e o caos nos serviços de saúde vão acontecer, certamente em número menor do que se ninguém fizesse nada, mas serão em número maior do que se o Governo Federal tivesse sido precavido e responsável. Como vão haver mortes e o sistema de saúde ficará sobrecarregado, Bolsonaro poderá dizer o isolamento não adiantou nada, que as pessoas morreriam de todo jeito e vai jogar a crise econômica que virá (e será terrível) nas costas da elite de direita. Neste caso, é até bom para ele não pagar, pelo menos no início, nenhum tipo de renda básica para o trabalhador. Quando vier o desespero, ele culpa os governadores, congressistas e STF que não deixaram o povo trabalhar e ganhar o pão – aí ele poderia entrar com uma renda básica e salvar o povo.

Bolsonaro está, como sempre apostando no caos e no confronto, locus fascista por excelência e onde ele se sente mais confortável. Aposta também que a elite não terá coragem de derrubá-lo agora e nem quando o caos sanitário se instalar, porque ninguém vai querer administrar o abacaxi que ele deixou, correndo o risco de ser responsabilizado pelo caos. Quando vier a crise econômica, a culpa será da “velha política” que impôs ao povo um confinamento desnecessário. Com isso, ele ganharia algum apoio popular e, por isso, a elite econômica teria que se curvar à extrema-direita bolsonarista. Esse, pelo menos, é o cálculo. E pode ser que dê certo. Não me arrisco a prever se há muito ou pouca chance de dar certo, pois vai depender da covardia das elites de direita (o que é uma certeza), mas também de conseguir manter uma parte significativa da população em seu transe fascista, o que é imprevisível, mas não impossível.

Se tivessem responsabilidade e coragem, as elites de direita derrubariam Bolsonaro agora, mesmo ele ainda estando relativamente popular e mesmo que isto custasse a popularidade de quem assumisse o governo em meio ao caos – mas pelo menos salvaria o máximo possível de vidas. Mas creio que a direita não fará isso. Ela insistirá em seu plano de corroer a popularidade do Bolsonaro e só o derrubará se e quando ela estiver no chão – o que é uma possibilidade, já que a tática de Bolsonaro pode falhar. Então, a direita assumiria como salvadora da Pátria e jogaria todas as culpas em cima de Bolsonaro, que se daria muito mal, provavelmente sendo preso. Esse era o destino certo que eu previa para o presidente até ele mudar de tática nesta terça-feira à noite.

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Agora, se a nova tática de Bolsonaro funcionar e ele se manter presidente com razoável popularidade mesmo no auge da crise sanitária (com 10% a 15% de ótimo e bom, ou seja, de gente delirante), é provável que ele saia mais forte da crise e a direita se acomode a seu governo fascista de extrema-direita – e a mídia e os políticos ainda levariam a culpa pela crise econômica que se seguirá. Então ele terá a chance de salvar o Brasil com medidas keynesianas, como Hitler fez com a Alemanha destruída da década de 1930. Se ele fizer isso, torna-se imbatível e nosso Brasil sofrerá de três pragas em sequência: do coronavírus, da crise econômica e de um governo fascista forte.

A esquerda é mero espectador neste embate. E nós os brasileiros? Nós somos massa de manobra e bucha de canhão: sofreremos e morreremos de coronavírus ou desemprego – baixas “normais” de qualquer guerra.

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