A luta de classes zumbi em “Corona Zombies”: o primeiro filme baseado no coronavírus, por Wilson Ferreira

A mídia nos tranquiliza dizendo que, depois de tudo acabar, a vida voltará ao normal. Não! Nos defrontaremos com o pós-apocalipse econômico, emocional e familiar... e, talvez, zumbis em busca de vingança?

A luta de classes zumbi em “Corona Zombies”: o primeiro filme baseado no coronavírus

por Wilson Ferreira

no Cinegnose

Presidentes não fazem nada, os ricos (os primeiros vetores da contaminação) estão indiferentes com os mais pobres, enquanto o consumismo-pânico dos ricos acaba com estoques de papel higiênico, álcool em gel e máscaras. Milhões morrem… para depois retornarem das tumbas como zumbis, em busca de vingança contra o andar de cima da sociedade. Esse é o terror B “Corona Zombies”, já em fase de pós-produção e com lançamento previsto para 10 de abril através da Amazon Prime (EUA) e da plataforma de streaming da produtora Full Moon Features. Um filme de baixo orçamento, terror B “exploited”. Muitos dirão que é de “mau gosto” explorar de forma oportunista um drama ainda em andamento. Mas o forte comentário social de “Corona Zombies” nos alerta sobre algo ignorado. A mídia nos tranquiliza dizendo que, depois de tudo acabar, a vida voltará ao normal. Não! Nos defrontaremos com o pós-apocalipse econômico, emocional e familiar… e, talvez, zumbis em busca de vingança?

Reality show é um gênero híbrido pois mistura ficção e realidade: assistimos a um grupo de pessoas confinadas em uma casa cenográfica cuja exposição diária do “demasiado humano” é o mote de diversão voyeurista e sádica do público.

Mas também é uma ficção: todos sabem que estão sendo observados pelas câmeras e são praticamente dirigidos pelos produtores e diretores – a palavra de ordem e incitar e jogar uns contra os outros para que o programa tenha ação, drama e tensão, para que não se torne sonolento – principalmente para aqueles que têm o canal 24 horas do programa.

No último domingo foi inevitável uma sensação de estranhamento ao assistir o reality BBB20 da TV Globo: telespectadores, todos confinados nas suas casas, divertindo-se com um grupo de pessoas também confinadas – cada “morador” da casa cenográfica sendo jogado um contra o outro, tentando eliminar do programa seu adversário mais próximo.

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A questão é saber até que ponto não só o coronavírus, mas também esse script ficcional do BBB vai contaminar os lares nos quais os telespectadores estão confinados: dias que se sucederão com famílias presas dentro de suas casas sem saber quando tudo vai acabar, elevando a temperatura das relações familiares que já são naturalmente tensas e conflitantes.

Depois que tudo isso acabar poderemos nos defrontar com uma cenário pós-apocalíptico: economia em ruínas, aumento exponencial de desempregados, ao lado de relações conjugais arruinadas, divórcios e famílias emocionalmente abaladas – a pressão da ansiedade, depressão e paranoia criada pela típica situação de prisioneiros colocados em pequenas celas lotadas.

Pensando num hipotético cenário pós-apocalíptico das consequências da Pandemia do COVID-19, eis que a produtora norte-americana Full Moon Features (especializada em filmes de terror exploited e sci-fy de baixo orçamento) já está na fase de pós-produção do filme Corona Zombies.

O lançamento está previsto para as plataformas de entretenimento digital da Full Moon Features, incluindo a Amazon, em 10 de abril desse ano.

O Filme

“Um governo dormindo no volante! Os ricos encolhendo os ombros! E um vírus que faz que suas vítimas levantem e matem! As pessoas que ele mata… se levantam e matam!”.

Esse é a sinopse promocional do Corona Zombies. Uma sátira com forte crítica social, como se depreende da sinopse: o governo ignorou a urgência e a gravidade da pandemia. Os ricos demonstraram uma cruel indiferença com uma epidemia que, afinal, foram eles os primeiros vetores – veja a fala do publicitário e apresentador Ricardo Justus falando que proteger a economia é mais importante do que “a morte de apenas 10 ou 15% de velhinhos”; ou ainda a fala do empresário Junior Durski (dono do restaurante Madero) dizendo que o fechamento da economia é pior do que “a morte de 5 ou 7 mil pessoas”.

E o que acontecerá com os milhões de mortos da pandemia? Virarão zumbis em busca de vingança. E os ricos e os políticos serão os alvos!

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E nessa situação, de que servirão os rolos de papel higiênicos comprados em escala industrial? Enrolar-se como múmias para se protegerem da pandemia zumbi? É a vingança vinda diretamente das tumbas contra o consumismo pânico que fez acabar com os estoques de álcool em gel, máscaras e papel higiênico.

A Full Moon Features está caindo de cabeça nesse projeto, independente das óbvias críticas de oportunismo e mau gosto por se aproveitar do medo provocado por uma pandemia. No Twitter a produtora está divulgando fotos promocionais photoshopadas com multidões em supermercados e o próprio presidente Trump segurando o pôster do Corona Zombies.

A produtora percebe que é o momento certo: com todas as salas de cinema fechadas, a maioria das produções do mainstream cinematográfico paralisadas e as pessoas confinadas nas suas casas, esse é o momento certo de um filme terror B, trash, de baixo orçamento.

A Full Moon Features foi fundada em 1988 pelo renomado cineasta Charles Band. A empresa é conhecida por sucessos como Bonecos da Morte (Puppet Master, 1989) e Evil Bong (2006).

Mas a produção Corona Zombies é a primeira a aproveitar em tempo real um evento ainda em andamento. O que certamente provocará aquele mesmo paradoxo de assistir ao BBB20 confinado dentro de casa.

Antes das mentes inteligentes dominadas pelo bom gosto e o bom senso torcerem o nariz para esse tipo de produção com muito derramamento de sangue e canibalismo, é bom lembrar do agente Kevin (Tommy Lee Jones) no filme MIB – Homens de Preto (Men in Black, 1997).

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Em uma sequência do filme, o agente Kevin (Tommy Lee Jones) introduz o novato agente James (Will Smith) na organização governamental MIB que controla as atividades de extraterrestres no planeta Terra. Kevin para diante de uma banca de jornais e começa a folhear tabloides com bizarras manchetes sensacionalistas. “Vamos ver os últimos relatórios”, diz Kevin.  Percebendo a estranheza de James, Kevin responde: “são as melhores fontes do planeta… às vezes também se encontra algo no New York Times”, reponde para um perplexo James que não entende como uma complexa agência governamental procure pistas em tabloides populares.

Em muitos momentos, produções B sensacionalistas e de “mau gosto” como Corona Zombies apresentam fortes críticas sociais. Como no clássico Eles Vivem (1988) de John Carpenter, na época recepcionado como mais um produto trash.

Pequenas produtoras e maior liberdade de criação e produção (sem falar na “licença poética” nas qual se baseia esse gênero) dá espaço maior ao comentário social.

O principal mote de Corona Zombies é um alerta que contrasta com o otimismo disfarçado da grande mídia: depois que tudo isso acabar, a vida voltará ao normal. Não! Depois que tudo isso acabar viveremos nas ruínas econômicas, conjugais e familiares típicas de situações de pós-guerra. E então, só faltarão zumbis buscando vingança contra os responsáveis por toda a desgraça.

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