A mais longa duração da juventude, uma resenha de Renato Mayer

A mais longa duração da juventude, uma resenha de Renato Mayer

por Urariano Mota

Renato Mayer é pesquisador, economista, militante contra a ditadura, fino fotógrafo, arguto leitor. Muito obrigado, Renato, por estas suas palavras:

por Renato Mayer

“A distância dos anos está no que vivemos.”  E com o alegre renascer dos movimentos e protestos de rua encurta-se o tempo que passou desde o início dos 70.  O livro, de um escritor que não permite passar por alto nenhuma linha, reforça uma característica já notada em trabalhos anteriores: a tessitura do texto costurada e reforçada em linha dupla.  Até quando fala do usual, do corriqueiro, Urariano é denso, reiterativo, joga com as palavras, as quais burila e reforça com um humor sarcástico.  É um estilo muito próprio, às vezes com a falsa aparência de repetição.  Mas, não: aqui é uma reprodução da memória, a partir do período mais negro da ditadura, por isso o que é descrito volta, narrado e revisto o fato com diferente tempero a cada vez e com uma reflexão gerada lá no cantinho mais recôndito do cérebro. 

Pela leitura, reconstruímos, no pensar e agir dos militantes de esquerda, muitos já na clandestinidade, a torrente de ideias que nos chegam e chegavam, sem controle, sem censura e sem sair do Recife.  O livro absorve continuamente.  Pode até parecer retórico, mas é questionador, abala verdades íntimas do leitor, como se ele também fosse (e, na verdade, se torna) personagem.  Como escreve o autor, “com o olhar de 2016, só a lembrança repõe a dimensão do que não víamos”.

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Assim, por exemplo, Urariano trata dos “tormentos de consciência” que atormentavam Júlio (ele próprio),  20 anos, revolucionário e cumpridor de tarefas, dotado, naturalmente, de intensos impulsos sexuais.  Tudo bem, possível seria, mas com a ressalva de que teria de ser “com afeto”.  Mas só assim?  Urariano desvenda e desvela o que ia no íntimo do jovem militante, suas hesitações e  seus “desvios”, que compara, a certa altura, “a vergonhas, confusões impróprias, descabidas”.  O que diriam  os outros, “aqueles, os justos e inflexíveis diante dos erros dos que agiam mal”?  E era assim mesmo, um tratamento quase religioso dos instintos mais naturais, jovens que perseguiam uma  verdadeira certeza moral  — o comportamento ético-revolucionário.  Supunham-se  homens acabados (Ah, não!  Nem tanto, pois a revolução ainda distava)  e que exibiam apenas sua inexperiência em tantos domínios do que é humano.  Seres compartimentados: amor, arte, revolução, sexo.  Ainda assim, heroicos em seu espírito de sacrifício e despojamento.  Como o próprio Júlio, paupérrimo, que vivia em um quarto de pensão, abafado e calorento, dividido com livros e ratos e a companhia clandestina (em todos os sentidos) de companheiros fugidos da perseguição do terror de Estado.

Para um deles, Luiz do Carmo, separava metade das refeições na pensão, em uma das passagens  do livro mais carregadas de senso poético, na descrição da velha cozinheira Severina, negra e analfabeta, cúmplice muda, mas eficaz, dos sonhos da juventude.  Em 2016, onde estaria ela? Seguramente,  no céu, com a preta Irene, do poeta Bandeira.

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“Os tempos agora se ligavam como uma rebeldia.  E para os rebeldes jamais existirá um fim.”

Termina com essas frases “O filho renegado de Deus”, obra anterior,  as quais formam como uma ponte, em tema e espírito, para “A mais longa duração da juventude”.  Além dessa, uma pequena, quase imperceptível,  passagem une os dois textos.  Já passagens mais longas nos remetem à “Soledad no Recife”, outra criação de Urariano.  Soledad, traída e torturada, que desperta e alimenta a paixão do jovem militante.  São páginas e páginas a rever e tentar compreender retrospectivamente como a bela, a musa Soledad, foi capaz de se enredar em uma história tão canalha e fatal.  Um episódio dolorosíssimo, cuja narrativa dilacera até quem esteve relativamente longe desses acontecimentos.

“Pessoas são como estrelas” – escreve Urariano – “cuja luz vem para nós, não importa quantos anos distantes”.  E conclui: “Eu seria capaz de trocar o que aprendi até hoje pelo que pensava muito conhecer aos 20 anos”.  Eis aí o retrato da  energia que atravessa gerações alimentando os que eram jovens naqueles difíceis tempos de 70, 71,72,73…

 

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1 comentário

  1. “Período mais ‘negro’ da
    “Período mais ‘negro’ da Ditadura…”

    Que falta de sensibilidade na escolha do adjetivo. Em pleno 2017…

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