A melodia do método econômico, segundo Jorge Ben Jor. Por Nathan Caixeta

As viúvas da teoria econômica: A melodia do método econômico, segundo Jorge Ben Jor

Nathan Caixeta

A dificuldade de desgrudar-se daquilo que é velho, tornou inusual, “fora de moda” reside não nas resistências à mudança das formas de “pensar”, mas na percepção do padrão e dinâmica da ruptura do velho pelo novo. A esfera imaginativa da psique humana tem especial papel nesse processo, pois não se impõe como “impulso” destruidor das velhas ideias, mas no curso da criatividade, no avistamento de novos horizontes, acaba por trafegar o espaço-tempo entre o velho e o novo num silencioso, porem caótico, processo de maturação, evolução e melhoria qualitativa das ideias em curso na sociedade. Obviamente, as linhas acima acenam para uma visão “positiva” da razão humana, sufocando até as intenções mais sinuosas de Immanuel Kant, o grande expoente da razão positiva.

As ciências surgidas no curto espaço da chamada revolução cientifica, entre os séculos XVII e XIX, tenderam a incorporar, todas aos seus modos específicos, três matizes de tensão metodológica: 1) O paradigma da razão positiva; 2) os alforjes mal costurados do método cientifico aristotélico, erroneamente atribuído à René Descartes; 3) as perolas e infinitas possibilidades abstrativas do cálculo diferencial, perpassadas de Leibniz à Newton. As chamadas ciências “duras”, ou naturais, incorporaram facilmente as três matizes, circunscrevendo-se na verdade, na raiz de suas tensões. No entanto, as chamadas ciências sociais, separadas em seus diferentes recortes analíticos, recorreram à diferentes formas de incorporação de tais “marcos” fundantes do pensamento moderno. Aquele que aqui nos interessa analisar, a chamada “ciência econômica” tem guarda ainda uma característica excepcional neste processo, por inserir-se no baile cientifico, desde logo inoculada das controvérsias da filosofia moral, temática fundante que aproximou e distanciou de variadas formas os pais fundadores da “economia política”. Há que se destacar, também, a jamais bem açodada passagem da noção de economia política aos esforços sistêmicos de uma “ciência” propriamente econômica. Dificuldade estas cujas repercussões teóricas e metodológicas veremos a seguir.

A Economia Política Clássica inaugurada na cisão entre o pensamento “progressista” do liberalismo e o pensamento conservador do “mercantilismo”, no momento de derretimento do Antigo Regime, funda-se desde logo como um esforço de pensamento das relações materiais que ocorriam no intercurso social, baseadas numa determinada “moral” condutora da razão humana. Logo, vê-se no berço da Economia Política clássica, os chocalhos Kantianos, badalando a razão positiva, permitindo, por exemplo, a soldagem entre as esferas individual e social ser realizada pela “mão invisível” de Adam Smith, espécie de imperativo categórico que guia o egoísmo auto esclarecido pelos meandros da sociabilidade, acabando, ao fim do percurso social, por gerar o bem-estar geral. Logo, “de saída” a controvérsia da filosofia moral centrada na oposição entre os direitos humanos enquanto propriedades naturais da sociedade e tais direitos enquanto fluidos sobrantes do intercurso histórico, fora bem resolvida, pela “colagem” da moral à razão positiva.

Ora, se de proceder racional vive o “homo economicus”, no austero exercício do egoísmo diletante, a analise do “conjunto” das interações individuais prescindem de um método analítico bem sedimentado, donde brotam as raízes Cartesianas do método da Economia Política Clássica. Embora confessas, as raízes Aristotélicas do método cientifico, em nada colavam ao esquema dos Economistas Clássicos, pois de antemão à problemática da moral já havia sido resolvida, verificando-se uma maior sedução na versão Cartesiana do método cientifico pelo qual qualquer coisa pode ser questionada, até mesmo a dúvida. Dessa “facilidade” excursiva pelo método nasce a paixão Newtoniana dos economistas clássicos que pretenderam fazer dos tratados econômicos, feitos tão científicos quanto as leis da mecânica Newtoniana, bem soldadas pelo calculo diferencial, pelo qual a “duvida” Cartesiana, poderia ser desdobrada quantas vezes fosse necessário, desde que, as ações individuais fossem separadas em átomos, e seus impulsos, manejados ao sabor daquilo que permaneceria como “variável independente” e constante, fundando a pedra angular da passagem entre a noção filosófica da moral utilitária para o mero “calculo” utilitário permeado da razão invencível, a clausula “ceteris paribus”.

A despeito das bordoadas de Marx e seu empréstimo (com adições) do método dialético Hegeliano (e “verdadeiramente” aristotélico”), a Economia Política transformou-se sem muitos traumas em “ciência econômica” quando a problemática da moral, centrada nas raízes orgânicas do trabalho como criador dos valores de troca, fora substituída pela composição do atomismo das ações humanas e da maximização das utilidades resumidas em meras equações diferenciais, nas quais, dava-se como constantes “o tempo e o espaço”, variáveis amarradas à impavidez por simples sabor do rigor teórico, do respeito ao calculo diferencial, e da fixação da hipótese sem necessidade de prova, própria da dúvida universal Cartesiana. Sem muitos atritos, salvo aqueles impelidos por Keynes, Schumpeter, Lenin, e outros, a teoria econômica avançou do Marginalismo ao final do século XIX ao chamado Novo Consenso cujos contornos finais encontram-se no fim do século XX. Mudando de roupa, adaptando-se as diferentes contextos históricos, o método permaneceu intacto com pequenas inclusões em sua expressão, sem que, no entanto, a sedução da clausula “ceteris paribus” apresenta-se qualquer sinal de desencantamento.

O lado “b” do pensamento econômico, bandeado por tipos como Marx, Keynes, Schumpeter, Minsky, etc., embora tenham se utilizado de ferramentas mais sofisticadas permaneceram presos à dança do discurso econômico, dado que a crítica ao chamado mainstream em suas variantes no tempo-espaço realizou-se na linguagem imposta pelo lado opositor, para que limpas as escamas do velho, fosse fundado novos modos de pensar, ainda que estes carregassem as sobras do tão decantado “método econômico”. Não sem resistência, mas com inigualável resiliência se comparada às outras ciências sociais, a ciência econômica atravessou todo seu percurso de construção embalado pelo mesmo espirito, o fantasma da razão positiva. Não por acaso, todas as criticas de “algum fôlego” à razão econômica, partiram de matrizes metodológicas “não econômicas”, como nos provam Weber, o próprio Marx, Keynes, os Frankfurtianos e outros tantos. Qual as raízes e repercussões de tal resiliência metodológica?

Cansado do “academês” até aqui utilizado, me atreverei a chamar para roda nosso cantor e compositor Jorge Ben Jor. O método econômico mantido sem grandes traumas da confecção do “equilíbrio geral” de Wálras ao “Equilíbrio Geral Estocástico” de Robert Lucas, permitiu que a teoria, bem como, a fundamentação histórica da “ciência econômica” fosse fundada sempre com base na saudade, na solidão, não por menos, recebeu a alcunha bem colocada de “ciência do desânimo”, por tudo explicar, sem nada afirmar de concreto.

Daí nasceram “as viúvas” da ciência econômica, cada qual carregando um novo namorado, uma nova roupa, novas bijuterias algébricas, quando o velho modo de pensar revelava seu insuportável “descolamento” ante a realidade, brotava do enterro das velhas ideias, um novo “garanhão”, sedutor que enchia os olhos dos economistas. Dos “Neo” aos “Novo-clássicos”, dos Marxistas aos Neomarxistas, dos Keynesianos ao “Novos” e “Neo Keynesianos”, do liberalismo ao “Neoliberalismo”. Todas as matrizes teóricas, com suas centenas de divisões internas, perfilaram um caminho semelhante: colocavam o veneno da crítica contra as próprias velhas ideias, e depois de enterra-las, com sobejante concerto inaugural, saiam do luto com largo sorriso no rosto, pois haviam encontrado novas formas de dizer a mesma coisa, seguindo à risca a marcha fúnebre das lutas acadêmicas em torno da “razão” explicativa ante a incomodante presença da história.

Para clarificar, resumidamente, as transformações nas “roupagens” da teoria econômica em seu inconstante e desafiante contato com a realidade histórico é necessário que sejam desenterrados os defuntos, isto é, os paradigmas adotados pelas teorias econômicas para colarem com “folhas dupla face” as matrizes teóricas e suas formas expressivas com a realidade histórica que pretendiam analisar, criticar ou sob a qual desfilavam suas recomendações, inaugurando o contato entre as teorias e a politicas econômicas. Para “economizar” nas despesas fúnebres, recorrerei a dois exemplos que bem ilustram o argumento aqui defendido:

  1. O saudosismo em relação aos chamados “anos de ouro” do Capitalismo pelos Economistas chamados “neokeynesianos”. De fato, entre as décadas 1950 e 1980, a economia mundial assistiu enormes avanços no tocante as melhorias nos padrões de vida, de consumo, das relações salariais, da produtividade e do espraiamento do padrão tecnológico, gerando, inclusive processos de industrialização em países periféricos (como Brasil e Coreia do Sul); Esse período, do ponto de vista social foi marcado, contudo, por uma inegável contradição que o “economicismo” exacerbado jamais foi capaz de incorporar. Enquanto se instaurava um novo padrão de desenvolvimento tendo como matriz a hegemonia norte-americana, incluso o espaço para a “afluência” das massas e maior peso das relações sindicais sobre as politicas econômicas, permitidas pela montagem do(s) Estado(s) de Bem-Estar social, que soldaram a modernização produtiva à afluência social dos outrora excluídos, tal fenômeno sedimentou por seu próprio sucesso às raízes de sua dissolução, inaugurada pela crise e ruptura do padrão monetário internacional em 1973, e findada na “retomada da Hegemonia Norte-americana a partir de 1979; As interpretações Keynesianas que tendem a pintar fantasmas sob este quadro, desconsideram o padrão endógeno de ruptura do padrão de acumulação que ali se revelava, e que exigiu, como de fato, se demonstrou posteriormente, tanto uma reorganização da ordem monetária, quanto um reordenamento da divisão internacional do trabalho. As políticas keynesianas perderam “à ponta” no debate ideológico, confluindo com o evanescer da ideologia neoliberal. Pergunto, às viúvas dos anos de ouro e de certa forma do sistema de Bretton Woods: qual mal faz o capitalismo por revelar-se tal como ele é? ; o capital (enquanto relação social exploratória da força de trabalho, comandante das decisões de alocação da riqueza e do investimento) foi quem emprestou sua leniência aos alforjes progressistas dos anos dourados. A interpretação “novo-neo Keynesiana” de que o capitalismo foi “domado” e depois libertado pela “vilania” neoliberal é, senão, o invocar tardio dos versos de Jorge Ben:

O namorado da viúva
Passou por aqui…
Apressado, pensativo, desconfiado
Olhando prá todos os lados
Pois ele soube
Que na cidade
As apostas subiram dizendo que ele
Não vai dar conta do recado…
Que viúva é essa?
Que todos querem, mas têm medo
Têm receio de ser dono dela
Dizem que ela tem um dote
Físico e financeiro invejável (eu quero ver!)

  • Não menos cantantes, foram os amantes da chamada “Grande Moderação” instalada na economia mundial a partir do novo padrão de acumulação embalado pela retomada da hegemonia norte-americano ao longo dos anos 1980, e entre os processos de estabilização e crise financeira cambiais na periferia ao longo dos anos 1990, havia conformado um formoso “modus operandi” da divisão internacional do trabalho e do sistema financeiro internacional, ambos moldados “by american way”. Tal padrão contou com a ascensão da China, enquanto fonte de dinamismo da demanda global e imenso “cluster” exportador, capaz de gerar num “só golpe” uma onda de estabilização macroeconômica global anteparada, por um lado, no boom do preço de ativos financeiros (como o boom imobiliário norte-americano, e o do preço das commodities, dado o elevado consumo industrial chines), e na elevação dos padrões de consumo das famílias (em especial nos Estados Unidos) atinada pelo chamado “efeito-riqueza”. Ambos anteparos tiveram em suas raízes uma mesma causa, a ideia de que o “equilíbrio macroeconômico” adviria da eficiência dos mercados em “adivinhar” suas próprias fraquezas em relação aos seus índices de endividamento. Tal concepção levou à manutenção renitente de baixíssimas taxas de juros nos EUA, espocando ondas sistêmicas de elevação do credito, baseada na elevação “fictícia” dos patrimônios de empresas, famílias e bancos, dada a elevação do preço dos ativos financeiros. Sem mais adendos, a “festa” da grande moderação acabou em 2008, quando a grande crise financeiro estourou a bolha preparada pelas politicas econômicas da grande moderação e estourada pela própria dinâmica cíclica do capitalismo. Desde lá, os magos da grande moderação que embalaram na teoria dos mercados eficientes, sob a hipótese das chamadas expectativas adaptativas, ruminaram em suas cucas, terminando por expressar, quando já se catavam os cacos da destruição, a saudade em relação à sua teoria falecida.

Tais exemplos, tão recentes, quanto sintomáticos ilustram a dificuldade que os economistas tem em desapegaram das velhas ideias, pois sem imaginação para novas ideias, vestem as antigas com novas roupas e apresentam-na como nova estrela a ser cultuada pela classe acadêmica, ensinada enquanto ciência nas faculdades de economia e instalada como “a norma” para a condução das politicas econômicas. Não foram estas as raízes da fama recente que ganhou a chamada “Moderna Teoria Monetária” (MMT)?

Também, não são estes os motivos que explicam a Nova Macroeconomia Desenvolvimentista, a versão tupiniquim da falta de imaginação dos economistas?

Os debates em torno da MMT confessam a poeira retida por debaixo de suas vestes brilhantes, para que “taxes drives Money”. Para quem? senão para as viúvas de uma teoria econômica que passa longe do conceito de hegemonia e soberania estatal. Para que serviu a Nova Macroeconomia Desenvolvimentista senão para reembalar o debate sobre o “equilíbrio da taxa de câmbio” em uma nova colcha de retalhos teórica. Curado da doença holandesa, aonde está o prometido equilíbrio dos preços macroeconômicos?

Obviamente, aqui estou apenas “tacando” pimenta no acarajé, para dizer o seguinte: a falta de criatividade dos economistas, deve-se sim, a “torre de babel” acadêmica na qual estão metidos, mas principalmente, pelas dificuldades em abandonar as raízes metodológicas da impavidez do “tempo-espaço” social. Nada é mais revelador enquanto prova daquilo que estou defendendo do que os debates em torno do orçamento publico no contexto pandêmico: enquanto pessoas passam fome, assistem seus rendimentos esmagados, seus empregos destruídos, e a situação sanitária piora, o debate econômico (em especial no Brasil) permanece em torno da seguinte questão: “as politicas emergenciais cabem no orçamento”? , “correspondem ao equilíbrio da razão dívida/PIB”?

Isto porque, em sua maioria os economistas recusam-se em ver vidas humanas, e antes, se apegam aos dados e números, para encontrar a razão positiva sem a qual não vivem. Conceitos como humanidade, fatores políticos, psicossociais são todos jogados em gráficos com dois eixos, curva e retas, que no fundo, dizem o que?

Nada mais há que se declarar, a ciência econômica virou viúva da razão positiva pela qual foi concebida, ficando refém do método e órfão do espirito crítico. Mas há esperança, recorrendo ao sensível conselho de Keynes, uma aves-rara no debate econômico (justamente porque enquanto economista, realizava muito mais as vezes de um filosofo social) em relação ao proceder do economista:

“O bom economista deve ‘ser matemático, historiador, estadista, filósofo. Deve entender os símbolos e falar com palavras. Deve contemplar o particular nos termos do genérico, e tocar o abstrato e o concreto na mesma revoada de pensamento, deve estudar o presente à luz do passado com objetivos futuros. Nenhuma parte da natureza humana ou das instituições deve ficar completamente fora do alcance de sua visão. Ele deve ser decidido e desinteressado com a mesma disposição; tão distante e incorruptível quanto um artista, e ainda assim algumas vezes tão perto da terra quanto um político” (Essays in Biography)

Diante de tais atributos, em termos de “material humano”, Maynard diria: estamos mal!

Sobre o autor: Graduado em Economia pelas Faculdades de Campinas (FACAMP), mestrando em desenvolvimento econômico pela Instituto de Economia da UNICAMP. Pesquisador do Núcleo de Estudos de Conjuntura da FACAMP (NEC-FACAMP)

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