A mesquinhez parasita do capitalismo no impactante filme sul-coreano, por Álvaro Miranda

A mesquinharia do capitalismo está condensada no seu ícone maior da contemporaneidade, qual seja, a esperança de tudo se resolver pelo aparelho celular e seus aplicativos.

A mesquinhez parasita do capitalismo no impactante filme sul-coreano

por Álvaro Miranda

Para além de uma estranha história entre duas famílias de classes sociais distintas que se cruzam em meio a tramas, terror e ternura, Parasita traz subjacente a condensação da mesquinharia dos valores capitalistas. As pessoas podem até não serem mesquinhas, mas acabam engolfadas pela enxurrada de lances estranhos aparentemente desconexos da vida.

Para os que se julgam apolíticos indispostos com as visões que enxergam política em tudo, lembro que o cafezinho que bebemos é, inevitavelmente, politizável, assim como a boneca Barbie, cujos componentes são fabricados numa rede globalizada de fornecedores de diversos países.

Mas, parafraseando Norberto Bobbio, se tudo na vida fosse política a vida seria uma monstruosidade. Contraditoriamente, de fato – e é por isso que politizamos a vida: para que a vida floresça em suas diferentes dimensões sem que precisemos nos ater à política. Mesmo na estética supostamente desinteressada subjaz uma disposição política.

E qual seria o problema de lançar um olhar político simultaneamente ao estético, mesmo que o artista não teve, se é que foi isso, a intenção política? A monstruosidade é a própria vida na sua estranheza. O diretor Bong Joon-ho teria dito, em entrevista, que as pessoas gostam do quão absurda é a história e que é muito difícil prever seu desfecho.

A enxurrada de lances aparentemente estranhos prenuncia-se no balde de água jogado para espantar o sujeito que urina, de forma recorrente, em frente à casa da família pobre, depois devastada pela enchente que assola o bairro, a mesma chuva que impede o acampamento de lazer da família rica.

A mesquinharia do capitalismo está condensada no seu ícone maior da contemporaneidade, qual seja, a esperança de tudo se resolver pelo aparelho celular e seus aplicativos. É através do celular que as pessoas se fazem como indivíduos em tramas imponderáveis, ficando conectadas numa espécie de distopia de relações.

Leia também:  Março de 1964: acontecimentos que antecederam o fatídico dia 31, por Carolina Maria Ruy

Esse deslocamento de lugar pode ser visto nas investidas da família pobre de se colocar no lugar da família rica – e esta, por sua vez, na sua disposição de depender de pessoas de classes sociais inferiores para poder tocar a vida. Mais do que eloquente a observação do diretor em suas entrevistas. Segundo ele, todos os personagens vivem “na mesma zona cinzenta”.

A vida é sempre estranha se olharmos de perto. Não por acaso, o desemprego de uma família move toda a história. O filme traz amor, delicadeza, suspense, trama e terror, tudo misturado a um humor sarcástico, em becos sem saídas ou com possíveis fendas sombrias que mantêm a vida em situações improváveis, como o porão da mansão da família rica.

A tragédia da enxurrada pela tempestade que assola a cidade não faz parte do mero acaso e da fatalidade, considerando as condições dos que vivem amontoados em situações precárias de infraestrutura. Assim como não tem nada casual a mesquinhez que se esconde na suntuosidade de uma família rica encantada com futilidades – e deslumbrada em seus instantes fugazes de prazer e busca por uma cinzenta felicidade.

Confirma-se que o diretor tem razão: muito difícil prever o desfecho da história, que se delineia formando essa zona cinzenta onde se encontram pobres e ricos juntos em suas diferenças, contradições e tramas imponderáveis e incertas como a própria vida.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Leia também:  Chega de migalhas!, por Francisco Celso Calmon