A miragem de liberdade, por Heldo Siqueira

A base para a confusão sobre os conceitos de liberdade não parece ser fortuita. O cerne da ideologia é centralizar no indivíduo a tomada de decisões.

Foto Pastoral Universitária Anchieta

A miragem de liberdade, por Heldo Siqueira

O neoliberalismo se caracterizou por resgatar os valores do liberalismo clássico para o século XXI. Entre os clássicos, o liberalismo era a oposição ao absolutismo tirano do século XVIII. No caso moderno, na posição de tirano estariam as políticas keynesianas do início dos anos 1970. Entretanto, a política internacional que sugere e as recomendações em termos de desregulamentação geraram desigualdade entre países e dentro deles, além de crises econômicas e conflitos. A crítica a essa lógica geralmente se atem a questões como a meritocracia pregada ou o desincentivo à ação coletiva sem que chegue ao elemento central do neoliberalismo: Não se trata de uma lógica liberal, mas de uma pregação da liberdade para a minoria agir como bem entender em detrimento da maioria da população.

Ao mesmo tempo em que se contrapôs às políticas keynesianas o neoliberalismo resgatava a lógica de se opor ao Estado centralizador. No bojo da ideologia estava a defesa da internacionalização das empresas com a diminuição de tarifas e desregulamentação. Ao mesmo tempo, a liberalização dos mercados de capitais permitiu que grandes investidores ditassem as regras de administração econômica dos países, chegando ao ponto de o mega investidor George Soros fazer sua fortuna apostando e ganhando, contra a poderosa moeda inglesa. Outro exemplo são os desastres ambientais gerados pela desregulamentação do setor que prejudicam várias pessoas. Grandes empresas podem poluir, desalojar, envenenar, desde que tenham advogados para manter suas ações no legislativo. No momento em que diversas corporações pelo mundo apresentam valor de mercado maior que a renda de alguns países, a crítica deve ser clara: não é liberdade deixar de ser liderado pelo estado para ser governado por mega corporações.

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Um segundo conceito de liberdade refere-se à lógica de John Stuart Mill. Para ele, liberdade era defender o indivíduo da sociedade nas questões particulares e a sociedade dos indivíduos das questões públicas. Na medida em que o sustento de diversas pessoas está em jogo quando se fala no desemprego e desregulamentação do trabalho como medida de estabilização econômica ou políticas que defendam a precarização da defesa do meio ambiente, a economia é o principal interesse público. Por outro lado, a preocupação com a vida particular das famílias, como se organizam ou que crenças compartilham é o exato controle do individual. Ser liberal na economia, ou defender a liberdade do indivíduo de prejudicar os outros economicamente, e conservador nos costumes é ser autoritário.

A base para a confusão sobre os conceitos de liberdade não parece ser fortuita. O cerne da ideologia é centralizar no indivíduo a tomada de decisões. Além disso, confunde a possibilidade de escolher com o próprio conceito de liberdade. Basta cada um escolher o que é melhor para si que todos estarão melhor. Trata-se de um evidente incentivo ao egoísmo. Agir pensando somente em si e no prazo imediato é a primeira atitude de qualquer animal. A capacidade de planejar o futuro e agir coletivamente são os fatos que diferenciam os seres humanos de outros animais. Assim, exercer a liberdade é, a partir de diversas escolhas, sacrificar a individualidade ou o ganho imediato por conta da alternativa coletiva ou futura. Repetir o que o meio incentiva o indivíduo a fazer é apenas reproduzindo o meio. Ou seja, as pessoas tem liberdade para tomar qualquer atitude desde que sejam egoístas e não exerçam a liberade que o sistema lhes dá.

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Ao premiar a atuação individual e, em várias situações, desincentivar o pensamento no coletivo o neoliberalismo nega a capacidade do ser humano de negar a natureza. Trata-se de um estímulo à repetição de padrões de sucesso e desencorajamento do espírito crítico. A ilusão de liberdade do indivíduo apresentada pelo neoliberalismo se espatifa na realidade dura que gera: um sistema econômico autoritário, pura e simplesmente!

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