A moeda de caronte, por Alexandre Coslei

O que é mais desumano e homicida do que o sistema de saúde do nosso país?

Reprodução/Internet

A moeda de caronte

por Alexandre Coslei

Talvez, por coincidência ou por um paralelo de ideias, na mesma semana que assisti a “Coringa” lembrei-me de outro filme icônico intitulado “Eu, Daniel Blake”. De certa forma, num paralelismo bruto, os dois filmes guardam uma essência em comum. Falam de protagonistas acossados por uma estrutura social insensível, mas que resistem no limite de suas crenças. Não é difícil para um brasileiro sentir a catarse apocalíptica ao assistir a esses filmes. Há uma analogia entre as duas obras que passa pela questão da saúde. O que é mais desumano e homicida do que o sistema de saúde do nosso país?

Por mais de uma vez, fui testemunha de amigos acometidos por doenças, alguns em idade avançada, que ficaram internados por várias semanas numa UPA à espera de vaga em hospitais públicos, pois a unidade de tratamento que procuraram não possuía condições de atendê-los adequadamente. O trágico é que a vaga não é garantida. Já vi pessoas queridas falecerem numa UPA sem que fossem transferidas para hospital algum, como se Unidade de Pronto Atendimento fosse um mero entreposto entre a vida e a morte.

Um plano privado de saúde para uma pessoa com 55 anos ultrapassa os R$ 1.500,00 de mensalidade (uso a AMIL como referência). Quantos cidadãos podem dispor mensalmente de mais de R$ 1.500,00 para manter um seguro de saúde no Brasil? Após 59 anos, esse valor sofre um novo reajuste de faixa etária, o que praticamente condena muitos idosos à morte ou ao purgatório dos serviços de saúde pública. É uma perversidade que pouco se discute, um tema que fica nos subterrâneos da política e que é tratado pontualmente como um espetáculo sádico pela imprensa carniceira. Tento imaginar quantas pessoas sucumbem diariamente, vítimas dessa indiferença imposta pela entidade impalpável e cruel que chamamos de governo.

Numa madrugada de 1994, meu pai sofreu um infarto e até então presumia que não necessitava de plano de saúde, um equívoco que quase o matou. Sem encontrar amparo público, o conduzimos para um hospital particular na Tijuca, ele desmaiou ao chegar. Antes de tomar as ações de emergência, o médico me perguntou se teríamos condições de pagar o tratamento. Olhei para aquele arremedo de Hipócrates coberto por um jaleco de alvura beatificada e respondi que sim. O que ele faria se eu respondesse que não poderia pagar? Na verdade, não consegui mais enxergar o médico depois da tal pergunta, o que eu via era uma espécie de matador de aluguel. Meu pai foi atendido, porém, de maneira suspeita, alegaram que não havia vaga para interná-lo. Conseguimos transferi-lo para um hospital em Ipanema, onde ficou numa UTI até se recuperar. Não foi barato. Depois disso, convenceu-se de que seria imprudente continuar sem plano e contratou um.

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O Brasil é um açougue, um matadouro. As pessoas são tratadas como pelanca descartável, só há privilégios para o filé-mignon. Desenvolveu-se uma escandalosa eugenia de castas. Vou passar, muitas gerações irão passar e morrer antes que o genocídio institucionalizado que prevalece aqui seja detido, se é que será detido em algum momento. Discutimos todos os dias as possibilidades de um país melhor, mais humano, no entanto existimos sob a desesperança. Não somos Coringa nem Daniel Blake, habitamos à passividade indolente da fé. Não duvide que em nosso juízo final, se não possuirmos uma moeda para dar ao barqueiro Caronte, seremos também desapropriados do alívio da morte, sentenciados ao martírio eterno.

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3 comentários

  1. Pleno acordo, mas como pagaríamos salários de $140 mil a um magistrado, como sustentariamos esta rede de privilégios de uma monarquia estatal? Como sustentariamos a segunda política mais cara do mundo? E aposentadorias médias de $30 mil no legislativo? Pior, meu amigo, é que a esquerda é cega para estas questões. Naturalizamos a desigualdade.

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  2. “O que é mais desumano e homicida do que o sistema de saúde do nosso país?”
    O sistema de saúde norte-americano.

    Aliás, este é um tema interessante como linha de debate com os minions: a gratuidade e universalidade do SUS. Pode fazer o teste. Pergunte a um minion médio, mesmo com algum convênio médico, se ele aceitaria o modelo de saúde norte-americano em substituição ao SUS. Claro, exemplificando com algum caso médico, dos mais banais aos mais complexos, passando pelo subsídio pesado, no Brasil, a vários tipos de medicamentos. Faça o teste. A maioria puxará na memória algum caso pessoal em que, se não fosse o tão mal falado SUS, o tratamento teria sido inviável.

    Devemos defender uma melhoria contínua no nosso modelo, gratuito, universal. Mas não demonizá-lo como o mais “desumano e homicida” que há.

  3. Minha mãe foi totalmente atendida pelo SUS em sua longa doença. Claro, passou pela situação de ficar numa UPA por uma semana. A senhora no leito ao lado do dela morreu na UPA.
    Eu não tinha outro jeito, meu salário daria para pagar quatro dias de UTI num hospital privado mais módico.
    Minha experiência com o SUS foi repleta de dificuldades, mas no balanço geral, foi positiva. A equipe do hospital universitário diagnosticou precisamente o quadro dela, coisa que o neurologista particular, 300 reais a consulta de 15 minutos, não fez. Às vezes aquilo que é uma qualidade do hospital público, é apresentado como um defeito. A gente demorava pra ser atendido, era a manhã inteira esperando pela consulta. Mas quando íamos pra consulta, ela demorava de 45 minutos a uma hora. Todos os aspectos eram analisados. Conhecidos com pai ou mãe em quadros parecido (demência), pagando 1.500 por mês, são submetidos a consultas de 15 minutos, ou menos. Sem falar nos diagnósticos equivocados.
    Vou fazer coro com o Paulo Rogério: “devemos defender uma melhoria contínua no nosso modelo gratuito, universal. Mas não demonizá-lo como o mais ‘humano e homicida’ que há.”
    Fique na paz!

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