A mulher adúltera, o policial militar, e eu!, por Samuel Lourenço Filho

A mulher adúltera, o policial militar, e eu!

por Samuel Lourenço Filho

Muitas pessoas conhecem a narrativa bíblica que expõe uma comissão julgadora pronta  para apedrejar uma mulher. De acordo com a lei deles, a recomendação era de apedrejamento.

Há quem diga que tal prática foi, no aspecto legal, abolida. Contudo, não há como desprezar a cultura do apedrejamento, em especial os virtuais. Basta uma foto ou filmagem, e uma legenda descrevendo o fato, que o círculo se forma. Há situações que os “fatos” não são verdadeiros, mas a onda de ódio torna imperceptível o precioso detalhe sobre a busca da veracidade dos fatos.

Bem,  sobre a mulher, apresentada como adúltera nós sabemos o final: Jesus, eleito juiz na ocasião,  não a condenou. O método de indagar os acusadores foi uma saída, mas para além da condição moral daquela galera, o juiz em questão também fez questão de absolvê-la. “Nem eu te condeno!” – disse o moço legal de fã clube duvidoso.

Eu já vi muito bandido pedir perdão pelos feitos praticados. Já ouvi pessoas que mataram, estupraram, roubaram, sequestraram e cometeram toda sorte de maldade, pedir perdão pelo crime praticado. Eu mesmo fiz e faço isso constantemente.

Toda vez que um bandido é preso, sua foto é exposta na mídia como um rito inicial de julgamento. O rapaz acusado de estupro preso no Espírito Santo deixa isso claro. E isso é feito, não para evitar repetição do crime, mas para que não se esqueçam do criminoso. Quantos matricídios ou patricídios aconteceram no Brasil depois do caso da Suzana Richthofen? E de quem não esquecemos por matar os pais? Quantos patricidas gozam do direito de saída temporária? Quem sai no jornal em toda saída?

Mas, voltando ao “eu não te condeno!”,  gostaria de retomar o pedido de desculpas feitos por pessoas depois de cometer um crime ou depois de ser flagrado em um crime. Para alguns, cai bem a expressão:  “cometi um erro!”. Recentemente um PM disparou contra um casal dentro de carro, a mulher que estava no carona, morreu. O atirador pediu desculpas.

Esse não é o primeiro caso que um agente das forças de segurança disparar contra alguém sob a “tensão do momento”, “calor da situação” e diante da “onda de violência que assola o estado”. A Polícia Militar, serve, protege, faz apreensões,  realiza prisões, e também mata. Mata e pede desculpas.

Leia também:  Brasil lidera ranking de desindustrialização precoce, por Ergon Cugler

Lamento o ocorrido, fico triste mesmo. Bandidos também pedem desculpas. “Mas a PM faz muita coisa boa pra população” – dizem. Os bandidos também!  Não cabe reparar erros com histórico de boas ações. Matou e pronto. A questão, aqui, está no pedido de desculpas.

Curiosamente, o servidor público envolvido na ação não foi exposto. Sua foto não circula na mesma intensidade que a do adolescente “com arma na mão” , que foi morto por bala perdida a caminho da escola. Ele também não está sendo linchado, salvo por aqueles que misturam a aversão pela Corporação com ódio ao ser humano.

Bandidos pedem desculpas, policiais também.  Existem pessoas que depois do erro, tentam retomar a vida sob o espinhoso caminho do perdão,  marcado pela culpa (“caramba, matei uma pessoa!”) e pelas acusações constantes (“você é um assassino, monstro!”).

Encontrei nas palavras de Jesus um bom caminho para prosseguir. É duro, mas eu sigo. Depois do homicídio praticado,  fui “apedrejado”, na verdade passo por isso até hoje. Roda vira ouço de alguém a questão do meu crime. Já nem interessa quem morreu, é apenas um atalho  para apedrejar quem matou. Já pedi desculpas, mas…

Espero que o policial envolvido no homicídio da mulher em Duque de Caxias, encontre um caminho de paz.  E que seja perdoado. O perdão como direito é algo capaz de alcançar a todos indistintamente, mas nós com pedras nas mão é que escolhemos quando devemos apedrejar e quando devemos abrir a mão e deixar a pedra cair no chão.

Eu, olhando para minha história e tendo noção do tamanho do perdão recebido, apesar das acusações que às vezes sofro, não coloco a mão em  pedras faz tempo.

Que o perdão alcance todos aqueles que cometem crimes, sejam bandidos ou não, seja a mulher adúltera, o policial militar ou eu…

Samuel Lourenço Filho – Cronista, palestrante, egresso do Sistema Prisional, aluno de Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social -UFRJ

1 comentário

  1. Os aspectos do perdão
     

    Tem gente que comete falhas, erros, injustiças, crimes e barbaridades.

    Dessas pessoas, muitas reconhecem suas falhas, erros, injustiças…

    Crimes e barbaridades, as que cometem, os reconhecem ou não.

    O perdão é dado a quem pede e reconhecido em quem se arrepende.

    Há os que pedem perdão sem arrependimento

    e os que se arrependem e não pedem perdão.

    Para os criminosos e bárbaros, mesmo que arrependidos, os alvos de seus crimes, de modo geral, não os podem perdoar, ou por não mais estarem presente ou pela extensão do dano causado.

    Assim, o perdão, para as falhas, erros, injustiças, crimes e barbaridades,  tanto pode ser um ato de redenção quanto uma licença para sacanear de novo.

    Estejamos pois, atentos sobre quem ou o quê estamos perdoando.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome