A necroestética fascista, por Wilton Moreira

A estética grotesca da violência é a música marcial do desfile da horda fascista pela história.

A necroestética fascista, por Wilton Moreira

O fascismo é estético, e de vanguarda. O que não quer dizer que seja de bom gosto, pois a arte de vanguarda pode ser ruim, e muito. Na Alemanha da década de 1930, Hitler usava o rádio como ninguém. Suas performances arrepiavam os alemães humilhados pela Inglaterra e França, vencedoras da Primeira Guerra. Aos liberais e comunistas da época sua retórica soava ridícula e tosca (e era mesmo), mas ele soube usar o novo meio de comunicação para mobilizar as massas fascistas.

Hitler, que odiava a literatura, a música e a pintura experimentais foi, quem diria, um performer radiofônico de vanguarda, de uma estética ruim, brega (os alemães diriam kitsch) e cheia de clichês preconceituosos, mas muito eficiente como arma política.

Quando no governo, Hitler continuou com suas performances no rádio e ramificou o câncer da estética nazista para todas as artes, inclusive para os desfiles monumentais, viris, geométricos, perfeitos do ponto de vista performático e tão brega quanto seus discursos: uma estética racional e organizada para recobrir o irracionalismo destruidor do nazismo.

A mesma coisa acontece com o bolsonarismo, que foi pioneiro no Brasil no uso estético de memes e redes sociais para fins políticos. Estética mambembe de filme trash, colagens grotescas, frases curtas, cheias de fanatismo, preconceitos e mentiras, mamadeira de piroca, kit gay, petralhas… Ao chegar no poder, Bolsonaro e sua prole malcriada continuam a usar as redes sociais, desta vez para suas performances/lives e postagens toscas e agressivas, cheias de xingamentos, piadas de mau gosto, filosofia de boteco, golden showers…

Seus ministros seguem os passos do mestre. Weintraub, Ernesto Araújo e Damares não entendem patavina de suas áreas, são antiministros idotas, mas são tãos ou mais performáticos que o chefe. Ernesto faz o tipo lunático, Damares a crente fanática e Weintraub o grosseirão piadista, todos péssimos performers, mas ótimos alunos do capo.

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O fascismo precisa de performances para entreter o público, mas também para manter o estado de excitação permanente de sua tropa. Os adversários ficam furiosos com o conteúdo e a forma grotesca da performance, enquanto a tropa fascista apoia incondicionalmente qualquer coisa que irrite os “comunistas”. Tudo isso é ótimo para os fascistas, pois mantém a sociedade em estado de guerra, nem que seja virtual. O caos e o enfrentamento é tudo que os fascistas querem. Na falta de programas e conteúdos, eles investem na estética lixo para chocar o inimigo e manter sua tropa excitada, em permanente estado de ódio.

Recentemente, Damares fez uma performance silenciosa significando sabe-se lá o quê. Dia sim e outro sim, Weintraub grava alguma grosseria, assim como Bolsonaro. Vá num culto evangélico e verifique que o pastor, apoiador de Bolsonaro, é um performer brega do início ao fim do culto. O secretário da cultura de Bolsonaro xinga artistas e despreza a arte crítica (despreza arte, portanto). Eles sabem que seu governo fascista, sem programa nem objetivo que não seja a destruição, necessita dessa retórica e estética de rede social, brega, tosca e agressiva (ainda assim, vanguardista) para sobreviver.

A estética grotesca da violência é a música marcial do desfile da horda fascista pela história. Ela marca o ritmo de sua marcha insana que nos conduz, a todos, para o abismo: uma passada de ódio e outra de destruição. Ao fundo, as memes e lives, viris e virais, soam vigorosas, excitantes, altissonantes… Mas são, na verdade, cantos fúnebres, necroestética.