A “nova política” é a essência da velha política, por Luiz Alberto Marques Vieira Fº

A “nova política” é a essência da velha política

por Luiz Alberto Marques Vieira Fº

A obsessão dos brasileiros por uma “nova política” é a essência e a alma dos vícios da velha política nacional. Uma sociedade com frágeis vínculos sociais, econômicos e políticos, forjados tenuamente pela escravidão, sempre considerará como práticas estranhas as alianças políticas de longo prazo e os projetos nacionais de maior fôlego.

Os paradigmas científicos da física como a mecânica clássica e mecânica quântica não foram criados por brasileiros. São esses grandes paradigmas que guiam as pesquisas científicas por longos períodos de tempo, conforme Thomas S. Kuhn mostrou. Apesar disto, a política de Aristóteles é desafiada com espantosa frequência pela intelligentsia tupiniquim, “novos” paradigmas políticos são criados de 4 em 4 anos desde nossas primeiras experiências democráticas nos anos 50.

A velha política dos coronéis da UDN na década de 50 defendia uma “nova política” pela moralização das práticas, a despeito de seus quadros comportarem notórios corruptos. Já nos anos 60, Jânio Quadros venceu as eleições presidências para “varrer” a sujeita da velha política e teve o final entre o patético e o trágico que conhecemos. Na redemocratização, Fernando Collor, que curiosamente era filho de um senador da UDN, foi o candidato da “nova política” que iria caçar os marajás que drenavam os recursos públicos.

A “nova política” há muito tempo grassa nestes tristes trópicos se apoiando nos amplos terrenos da despolitização, em uma sociedade fragilmente articulada em suas dimensões social, econômica e política. É essa fragilidade de laços que dificulta a consolidação de relações políticas mais profundas que se expressem plenamente sob a forma de partidos políticos, como ocorre claramente em sociedade de relações mais densas. É a ausência de “nexo moral” como aponta o nosso maior historiador Caio Prado que cria o espaço político para a “nova política”, que consiste na negação da política como instrumento de transformação social, uma vez que a superficialidade de conceitos é incapaz de conceber, e na autoproclamada superioridade moral.

Leia também:  Uma oposição sonolenta, por Aldo Fornazieri

“Numa população assim constituída originariamente e em que tal processo da formação se perpetuava e se mantinha ainda no momento que nos ocupa, o primeiro traço que é de esperar, e que de fato não falhará à expectativa, é a ausência de nexo moral. Raças e indivíduos mal se unem; não se fundem num todo coeso: justapõem-se antes uns aos outros; constituem-se unidades e grupos incoerentes que apenas coexistem e se tocam. Os mais fortes laços que lhes mantêm a integridade social não serão senão os primários e mais rudimentares vínculos humanos, os resultantes direta e imediatamente das relações de trabalho e produção: em particular, a subordinação do escravo ou do semiescravo ao seu senhor. Muito poucos elementos novos se incorporarão a este cimento original da sociedade brasileira, cuja trama ficará assim reduzida quase exclusivamente aos tênues e sumários laços que resultam do trabalho servil. ”  Caio Prado Junior

É preciso compreender que para Caio Prado “nexo moral” é a capacidade de aglutinação de uma sociedade e de aprofundamento de suas relações humanas.

“Tomo aquela expressão “nexo moral” no seu sentido amplo de conjunto de forças de aglutinação, complexo de relações humanas que mantêm ligados e unidos os indivíduos de uma sociedade e os fundem num todo coeso e compacto. A sociedade colonial se definirá antes pela desagregação, pelas forças dispersivas; mas elas são em nosso caso as da inércia; e essa inércia, embora infecunda, explica suficientemente a relativa estabilidade da estrutura colonial: para contrariá-la e manter a precária integridade do conjunto, bastaram os tênues laços materiais primários, econômicos e sexuais, ainda não destacados de seu plano original e mais inferior, que se estabelecem como resultado imediato da aproximação de indivíduos, raças, grupos díspares, e não vão além deste contato elementar. É fundada nisso, e somente nisso, que a sociedade brasileira se manteve, e a obra da colonização pôde progredir. ”  Caio Prado Júnior

 

Numa sociedade marcada pela ausência de “nexo moral”, as relações políticas que derivam deste contato humano rudimentar são superficiais. As consequências das ações estatais não são plenamente compreendidas nesta sociedade de relações tão dispersas e fortuitas e as alianças políticas não serão estabelecidas na profundidade necessária para que projetos nacionais sejam implantados sem constantes tropeços e incompreensíveis oposições de seus maiores beneficiados, especialmente nos seguimentos médios.  

Leia também:  Um tapa na cara dos juízes brasileiros, por Marcelo Semer

A criação de projetos nacionais é dificultada e, com certa frequência, é inviabilizada pela incapacidade de amplos seguimentos sociais em enxergar a sua posição social e as relações com outros seguimentos sociais. Sem saber o seu lugar no mundo e muito menos o do Brasil, a “nova política” jamais foi capaz de forjar projetos políticos coerentes e realistas.

Não é por acaso que a autoproclamada superioridade moral da “nova política” tenha sido forjada em décadas sentada no sofá, sem nenhuma reflexão mais profunda sobre a política e o país, bem como qualquer atuação social e política mais profunda. A “nova política” é uma herança do sistema colonial, assim como o caráter autoritário e violento que concebemos a relação dos indivíduos com Estado.

Não é preciso dizer que as concepções pueris e rasas da “nova política” são presas fáceis para as velhas raposas da política. A UDN de Sarney, Arnon Collor e Aluízio Alves que o diga ao jantar por décadas o discurso moralista da “nova política” dos anos 50. Ademais, a forma como foi conduzida a Presidência de Collor, o Fernando, não pode deixar ilusões sobre alguma mudança na relação entre a velha e a “nova política”.

Desta forma, é preciso reconhecer que a “nova política”, longe de representar mudanças na forma de se fazer política nos trópicos, é parte dos resquícios políticos herdados do sistema colonial, ao dar voz às massas sem relações orgânicas e “nexo moral”. Há uma relação simbiótica entre a velha política que lhe dá razão de existência e a “nova política” que ajuda a sustentar as práticas da velha política.

Leia também:  Seis anos depois e ainda perguntamos: “Onde está o Amarildo?”

Assine

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome