A quase candidatura de Luciano Huck e a importância da ciência, por Cesar Calejon

O estudo de caso da quase candidatura de Huck à Presidência da República em 2018 demonstra como os principais grupos empresariais e de comunicação do Brasil podem se tornar extremamente coesos para atingir objetivos comuns

A quase candidatura de Luciano Huck e a importância da ciência contra a força do corporativismo midiático no Brasil

por Cesar Calejon*

Assim como não se pode explicar o amor dos brasileiros pelo futebol ou pelas telenovelas sem falar da Rede Globo, também é absolutamente impossível estabelecer uma reflexão séria sobre quais foram as principais ideologias e os agentes sociais que estimularam a ascensão do bolsonarismo no Brasil sem avaliar a atuação específica do Jornal Nacional (JN), o principal produto e instrumento político da Globo e a única ponte de contato com a “realidade” para milhões de brasileiros desde o fim da década de 1960.

Em 2018, período eleitoral, graças aos esforços de duas pesquisadoras de Minas Gerais: Ângela Carrato, jornalista e professora do Departamento de Comunicação da UFMG, e Eliara Santana, jornalista, doutora em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes, foi possível monitorar as ações do JN durante o ano. Ambas analisaram mais de duzentas edições do telejornal durante esta fase. O objetivo foi observar os movimentos de produção de sentido e a construção de estratégias discursivas para compreender como seriam trabalhadas em um ano eleitoral.

“A mídia, em especial a televisiva (principal fonte de informação do brasileiro, em que se destaca o JN, com cerca de 70% de audiência), é um poderoso elemento que atua na forma como as pessoas passam a perceber a realidade. Percepção que se torna fundamental para, num momento seguinte, se posicionarem sobre essa mesma realidade”, introduz o texto da publicação. “Ressaltar esse aspecto é essencial, tendo em vista a divergência reinante entre os estudiosos da mídia. De um lado, aqueles que defendem que a mídia manipula a compreensão do público sobre os fatos, valendo-se para tanto de várias técnicas, entre elas o agendamento (agenda setting). De outro, os que defendem que o público tem autonomia e outras fontes de informação, sendo assim capaz de formar julgamento próprio (as teorias sobre deliberação)”, prossegue o texto das pesquisadoras de Minas Gerais.

“Os defensores da segunda visão estariam menos equivocados se no Brasil existissem, efetivamente, fontes plurais de informação (em especial também uma mídia pública forte), e não um monopólio comercial de mídia. Estariam menos equivocados se existisse aqui uma educação de qualidade para todos e uma população plenamente — e não apenas funcionalmente — alfabetizada”, ressalta o estudo.

“Há movimentos bastante precisos e coordenados em relação às edições do JN nesse período (2018), com um enquadramento muito bem construído a partir dos temas (assuntos principais em destaque), da qualificação dos agentes e da construção da cena enunciativa. É preciso ficar bem claro que o JN não está fazendo (se é que algum dia efetivamente fez) puramente jornalismo. Ele está tentando criar um repertório coletivo, recorrendo à memória discursiva, modalizando o dizer, com estratégias muito bem construídas do ponto de vista discursivo, para substituir a percepção e a memória que os telespectadores têm dos fatos. Dito de outra forma: o JN está tentando reescrever a história do Brasil, de acordo com os interesses da família Marinho e da elite dominante brasileira (e de seus apoiadores externos)”, pontuam as pesquisadoras de Minas Gerais.

Ainda de acordo com este trabalho, esses aspectos são fundamentais para demonstrar como a discussão de temas relevantes no cenário nacional é circunscrita no e pelo Jornal Nacional, visando a determinadas interpretações e problematizações. Por fim, o estudo conclui que “em um processo eleitoral claramente atípico, com uma das candidaturas flertando abertamente com um posicionamento não democrático, arriscamos dizer que o Jornal Nacional age partidariamente, com boas estratégias que vão camuflar o dito — e o não dito. […] A mídia brasileira, em algum momento da história, terá de responder por ter dado suporte a um candidato claramente antidemocrático, fingindo se tratar de um candidato qualquer”, concluíram Ângela e Eliara durante a publicação dos seus esforços.

A Rede Globo fez exatamente isso em 2013, quando, efetivamente, “respondeu (à sociedade) por ter dado suporte a um candidato (e regime em geral) claramente antidemocrático” em 1964. No dia 2 de setembro, o jornalista William Bonner, âncora do Jornal Nacional, explanou uma publicação do editorial do jornal O Globo que afirmava com letras garrafais: “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro.”

“A introdução ao texto do site observa que o apoio do O Globo ao golpe (militar) é visto, internamente pelas Organizações Globo, como um erro há anos”, diz Bonner. “O site lembra que os principais órgãos da imprensa brasileira também apoiaram os militares em (19)64, por temerem que a democracia fosse atropelada pelo próprio presidente, João Goulart, com o apoio de sindicatos e de alguns segmentos das forças armadas, mas a intervenção militar para eliminar aquela ameaça e reconduzir o Brasil à democracia só devolveu a presidência a um civil 21 anos depois e numa eleição sem o voto popular. Em 1984, portanto, um ano antes do fim do regime militar, num editorial de primeira página, o jornalista Roberto Marinho afirmava que o jornal O Globo permanecia fiel aos objetivos iniciais do que chamava de Revolução de 64, mas revelava conflitos com os que se esqueceram de que os acontecimentos haviam se iniciado por exigência do povo brasileiro. O editorial alertava: sem povo não haveria revolução, mas apenas um pronunciamento ou golpe, com o qual não estaríamos solidários”, acrescentou Bonner.

O editorial diz ainda que “O Globo não tem dúvidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país. À luz da história, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”.

Um bom exemplo para compreender na prática como este discurso não está alinhado com a realidade e como os principais veículos de comunicação e grupos econômicos do Brasil podem se tornar extremamente coesos quando possuem interesses em comum é obtido com o estudo de caso da quase candidatura do apresentador (da Rede Globo) Luciano Huck à Presidência da República, em 2018.

No dia 21 de novembro de 2017, a revista Época (Editora Globo, que pertence à família Marinho) publicou a seguinte manchete: “Huck aparece em guia eleitoral do (banco) Itaú como possível candidato ao Planalto.” O texto ressalta ainda que “o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito de São Paulo, João Doria, aparecem como possíveis candidatos do PSDB ao Planalto em um guia eleitoral de 2018, produzido pelo Itaú Unibanco (famílias Setubal e Moreira Salles) para investidores estrangeiros. Quem também está lá como postulante — não entre os tucanos — é o apresentador de TV Luciano Huck. ‘Celebridade cujos episódios de seu programa alcançam audiência de 18 milhões de pessoas’, diz o relatório”.

Apenas 48 horas depois, no dia 23 de novembro de 2017, o jornal O Estado de São Paulo (da família Mesquita) utilizou um instituto de pesquisa do próprio veículo, o Barômetro Político Estadão-Ipsos, para afirmar em suas páginas: “Aprovação a Huck cresce 17 pontos, afirma Ipsos.” No mesmo dia, apenas alguns minutos mais tarde, vários dos principais veículos de comunicação do Brasil reproduziram a “notícia”, aparentemente sem a necessidade ou a intenção de verificar a veracidade dos fatos.

Às 10h43, o jornal Valor Econômico garantiu: “Pesquisa mostra Huck como presidenciável mais bem avaliado.” O texto reproduziu com fidelidade o que disse a matéria do Estadão, enfatizando que “o apresentador de TV e empresário Luciano Huck (sem partido) é o nome com melhor avaliação entre 23 possíveis candidatos à Presidência da República. Pesquisa do instituto Ipsos publicada pelo jornal ‘O Estado de S. Paulo’ desta quinta-feira (23) mostra que a aprovação de Huck cresceu 17 pontos de setembro até agora, passando de 43% para 60%”. Sessenta por cento, bradou o periódico!

A revista Exame (Grupo Abril, que nesta ocasião pertencia à família Civitta) seguiu a mesma linha: “Aprovação de Luciano Huck dispara e atinge 60% — Instituto Barômetro Político Estadão — Ipsos”, e a revista Isto É (Editora Três, da família Alzugaray) foi ainda mais longe, com o título “O incrível Huck”.

Somente três dias após todas essas publicações, o próprio Luciano Huck, por meio de um artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, no dia 27 de novembro de 2017, fez a sua parte ao dizer que, apesar de todo o clamor popular, não era candidato à corrida presidencial. No dia 15 de fevereiro de 2018, Huck desistiu da candidatura que havia anunciado não existir algumas semanas antes.

Quase que por osmose e por conta de algumas inclinações ideológicas muito semelhantes, basicamente todos os principais veículos de comunicação do Brasil (telejornais, revistas, sites e jornais impressos) alinharam-se de forma uníssona, considerando determinadas narrativas, como a tentativa de emplacar um candidato próprio e o constante ataque à imagem de Lula (e do PT), mais enfaticamente a partir de 2013, explorando a eventual prisão do ex-presidente como um espetáculo da dramaturgia.

Entre agosto de 2016 (data do impedimento de Dilma Rousseff) e outubro de 2018 (Eleições), somente a Veja (Grupo Abril), por exemplo, possivelmente uma das revistas mais influentes do Brasil nesta época, publicou 48 capas que, de alguma maneira (direta ou indiretamente), caracterizavam o ex-presidente Lula como o chefe de uma quadrilha criminosa (PT) que assaltou o Brasil, e a Operação Lava Jato, comandada pelo ex-juiz Sérgio Moro, como a solução para o problema da corrupção. Somente em 2017, ano pré-eleitoral, foram 28 capas aludindo à mesma narrativa, o que representa uma média superior a uma capa a cada duas semanas. Durante o ano inteiro.

Já a revista Isto É (Editora Três), entre o impedimento de Dilma e as Eleições de Outubro de 2018, publicou 55 capas semanais avançando esta mesma agenda, o que também representa uma média superior a uma capa publicada a cada duas semanas. Durante dois anos e dois meses.

A revista Época (Editora Globo) publicou 31 capas estruturando este raciocínio e a Exame (Abril) deu pelo menos nove capas com esta mensagem neste mesmo período.

A edição de número 1.125 da revista Exame, publicada no dia 9 de novembro de 2016, pouco mais de dois meses após o impedimento de Dilma Rousseff e queda do PT, estampou a pergunta “Os Bons tempos voltaram?” em sua capa, com balões de festa ao fundo.

Em um modelo sociopolítico que era tão maniqueísta desde a redemocratização do Brasil, com o Partido dos Trabalhadores (PT) e a figura do Lula de um lado e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e a imagem do Fernando Henrique Cardoso de outro, boa parte da social democracia brasileira acreditou que desidratar o PT significaria automaticamente entregar a Presidência da República ao PSDB. Deu errado e os “bons tempos” ainda não voltaram.


*Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas e escritor, autor do livro A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI

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