A quem interessa desgastar a imagem das Forças Armadas?, por Roberto Bitencourt da Silva

A quem interessa desgastar a imagem das Forças Armadas?

Por Roberto Bitencourt da Silva

A intervenção federal no Rio de Janeiro tem sido assunto amplamente abordado, de modo que as observações aqui feitas partem da premissa de que os ângulos explorados por inúmeros especialistas da área de segurança pública, jornalistas, professores, movimentos sociais etc. identificaram diferentes problemas envolvidos, de maneira oportuna e esclarecedora.

A iniciativa adotada conjuntamente por Temer e Pezão traz apreensão, em função da total irresponsabilidade e da natureza meramente politiqueira. Mas, devido à guerra de classes flagrantemente desencadeada pelas oligarquias e as grandes burguesias internas e externas, desde a movimentação golpista de 2015/2016 – e do seu abjeto sentido neocolonial –, infelizmente, trata-se de uma medida que não chega a surpreender.

Desse modo, proponho fazer algumas indagações a respeito da posição em que foram colocados os militares. Precisamente em função da alta importância das Forças Armadas para a defesa dos interesses nacionais, cumpre salientar que a intervenção federal no Rio poderá guardar desdobramentos graves, em elevada medida negativos e em aberto.

Não me refiro ao sistema constitucional de 1988. Esse já foi desinibidamente violado há dois anos e o curso dos eventos segue na putrefação das instituições de poder estabelecidas, avançando no desmonte do legado de conquistas que remontam aos anos 1930. Me refiro, especialmente, a um horizonte de poucas décadas, em que forçosamente as Forças Armadas terão responsabilidades e desafios maiores do que hoje assumem no Brasil, por conta da crescente e perigosa cobiça de potências capitalistas, mormente os EUA, sobre nossos bens naturais e demais recursos do patrimônio nacional. Senão, vejamos:

1. Para um país que possui cerca de 20% da biodiversidade, uma das maiores reservas minerais e de petróleo, mais de 10% das águas potáveis disponíveis no mundo, em um intervalo de poucas décadas em que a crise ecológica mundial da escassez irá bater na porta, a quem interessa desmoralizar as Forças Armadas Brasileiras, rebaixando-as sistematicamente ao papel de polícia, nos moldes preconizados para a América Latina, pelos EUA e a OEA?

2. A quem interessa incompatibilizar, desgastar a imagem e criar totais animosidades entre as nossas Forças Armadas e amplas camadas do Povo Brasileiro, sobretudo os segmentos dos trabalhadores humildes, negros, morenos e hiperespoliados das favelas cariocas? Com parco ou nenhum acesso à educação, emprego, saúde, moradia, direitos sociais básicos, oportunidades de vida. Similares áreas e situações convergentes com a origem social da maioria dos nossos recrutas.

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3. A quem interessa ver as Forças Armadas com as mãos sujas de sangue, com as mortes ditas “colaterais”, de crianças, mulheres, velhos, trabalhadores/as e demais inocentes em uma “guerra às drogas” nos moldes colombianos? O que a PM faz já não basta como exemplar da desgraça e da inconsequência desse modelo de segurança falido? Um modelo que nunca se dirige a tomar como alvo os altos circuitos de operação financeira e logística que abastecem, coordenam, dirigem e ganham efetivamente – e muito – com a “guerra às drogas”.

4. A quem importa estimular e apoiar a aproximação e o plausível envolvimento das Forças Armadas com o sedutor dinheiro do tráfico de armas e de drogas?

5. Em um País de dimensões continentais, imediatamente cercado por mais de 20 bases militares estadunidenses instaladas na Colômbia, Paraguai, Peru e provavelmente Argentina, dotado de vastíssimas e cada vez mais reduzidas riquezas naturais no planeta, com um Povo operoso e potencialmente dilatado mercado consumidor, a quais classes, grupos sociais, núcleos internos e externos de poder interessam desprestigiar, rebaixar o status militar para atividades de policiamento urbano?

6. A quem interessa instigar a promoção de profundas fissuras entre o grosso das classes trabalhadoras e da pequena burguesia em relação às Forças Armadas? A quem interessa vê-las, no curso do tempo, com a mesma e inexistente credibilidade do presidente golpista e entreguista, do seu partido (PMDB) e aliados políticos (como PSDB e DEM)?

Portanto, o cenário que se abre é de uma potencial decomposição da imagem das Forças Armadas. Todas as variáveis e possibilidades apontam nessa direção.

Mas, a vida é dinâmica, processual e contraditória. Um rio que corre com seus fluxos próprios. O envolvimento contínuo e abusivo das Forças Armadas nos graves sintomas da crise social, política, moral e econômica, que se abate sobre todos os estados da Federação, refletindo-se na segurança pública, não deixa de trazer incômodos em setores militares.

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O noticiário mesmo, desde o ano passado, tem sido recheado com pronunciamentos e gestos, tímidos que sejam, mas reveladores. O General Braga Netto, de imediato, assinalou haver “muita mídia” em torno dos motivos para a decisão do governo federal.

Por sua vez, o General Vilas Boas chegou a afirmar o seguinte, sobre uma operação no conjunto de favelas da Maré, no Rio: “Um dia me dei conta. Os nossos soldados atentos, preocupados – são vielas –, armados. E passando crianças, senhoras, eu pensei: ‘Estamos aqui apontando arma para a população brasileira’. Nós somos uma sociedade doente”.

“Maldito é o soldado que aponta a arma para o seu povo”, há muito disse o Libertador Simón Bolívar. Oxalá, nossas Forças Armadas venham um dia a assim se posicionar abertamente.

Todavia, na história dos povos, assim como não existe mimese, também não há certezas e caminhos estabelecidos e irreversíveis. Às vezes, o imponderável surge em função do processo social, da realidade e das contradições que afloram e chamam a atenção dos agentes sociais diretamente envolvidos com os problemas que se defrontam. A respeito, uma história rápida.

Para quem pensa que as Forças Armadas da Venezuela sempre foram chavistas, de esquerda etc., lembro que até meados dos anos 1990 eram largamente comprometidas com o sistema político-econômico que apodrecia, subjugava e superexplorava as massas. A eleição, um gesto formal e ritualístico. Um sistema corrupto e vende pátria.

Em 1989, em meio a um plano econômico neoliberal de rendição do país ao FMI, estalou o famoso Caracazo. Enorme protesto popular. Ferozmente reprimido. Um massacre. Os números oficiais falavam em mais de 200 mortos. Estima-se número superior a 2.000.

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Hugo Chávez, então Major do Exército, em extensa entrevista concedida ao jornalista e professor Ignacio Ramonet (Hugo Chávez: mi primera vida, editora Vintage Español, EUA, 2014), lembrou de um caso interessante em meio ao grande protesto popular: um tenente da Guarda Presidencial de Carlos Andréz Perez, havia prendido uma dezena de rapazes que roubavam uma padaria. Tinham fome. Deixou comerem os pães, mas os deteve presos.

Afastou-se da cena. Pouco tempo depois, o tenente viu que foram metralhados por um grupo de policiais. Relatou o caso a Chávez, afirmando que queria participar de seu pequeníssimo e vigiado círculo militar bolivariano. Segundo Chávez, o “tenente estava destroçado”. Alegou que “não havia entrado no Exército para trair a pátria”. O resto da história é conhecido.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

 

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7 comentários

  1. os militares

    É preciso entender que os militares são agentes do golpe. Há conflitos entre os militares, mas achar que os militares são, ou estariam sendo usados pelo Vampirão, não dá. Rui Costa Pimenta e Duplo expresso, cada um a seu modo, já deram a fita. 

  2. Os militares fingem que nao
    Os militares fingem que nao querwm mandar, mas so pensam nisso.

    As dissensoes entre eles e meramentede estrategia: ocupar algumas parcelas de poder ou partir logo pro tudo ou nada.

    Em relaçao aos conceitos e principios não há controvérsia: estao atolados no bestialogico da guerra fria ate hoje.

    Nem mesmo os setores nacionalistas significam uma cisao importante.

    Ainda mais depois que os ultimos governos concedwram uns bons aumentos salariais: ficaram supwr “chiques” tambem.

    • Vão cobrar pela exposição…

      Vão cobrar pela exposição… talvez um adicional de 60% por “risco de vida”… além de outras pequenas mordomias…

  3. Fala sério, alguém ainda

    Fala sério, alguém ainda acredita nesta conversa fiada de que as forças armadas defendem a soberania nacional? Não fizeram nada até agora, não vão fazer no futuro. 

  4. O tinir autoritátio na antessala da democracia: O labirinto para

    Obuses, tanques e soldados agora no picadeiro da política de segurança dos estados da federação é ariscada devido seu potencial de causar danos à imagem das FFAA e a reboque colocar em cheque projetos estratégicos, a saber: o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras –SISFRON, o submarino nuclear; os caças Gripen, defesa cibernética, projetos de artilharia antiaérea, projetos de mísseis e foguetes.
    Os interesses militares são antagônicos ao da mídia hegemônica que hoje os aplaudem, uma ação equivocada ou insucesso da operação jogaria a população contra a instituição, abrindo caminho a uma dieta mais rigorosa de recursos financeiros, como consequência teríamos o   sepultamento definitivo da reconstrução de uma indústria de material de defesa com tecnologia nacional.
    Isso tornaria mais fácil o domínio de espaços geoestratégicos no Atlântico Sul e Amazônia por nações estranhas em um espaço de tempo futuro, em busca de recursos naturais para suportar seu modo de vida moderno.
    Se a justificativa é conter a violência derivada da venda de drogas, não está claro que são nos morros e comunidades carentes que estão plantações de cocaína, fabricas de armamento e refinarias de drogas.
    Será que a intervenção está no lugar certo?
     

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