A questão (dos brancos) a respeito do êxito dos negros, por Paulo Fernandes Silveira 

Em 1968, num texto encomendado por Abdias para uma coletânea sobre os 80 anos de Abolição, Florestan analisa a contribuição do TEN para o debate sobre as relações raciais e para a mobilidade social do negro.

(Ruth de Souza e Abdias do Nascimento em Othelo, montagem do TEN).

A questão (dos brancos) a respeito do êxito dos negros

por Paulo Fernandes Silveira

As questões raciais sempre suscitaram polêmica entre acadêmicos e militantes no Brasil. Poucos temas das ciências sociais ou da história da cultura ganharam um espaço equivalente na grande mídia. Desde os anos 40, especialistas nesse assunto, muitos deles, estrangeiros residentes no país, alcançaram destaque nacional e internacional com seus trabalhos. Em nosso mercado de divulgação científica, esse é um dos principais produtos acadêmicos. Essas polêmicas provocam o interesse da imprensa e impulsionam as carreiras das pessoas envolvidas.

Em meados dos anos 50, uma polêmica entre os sociólogos Alberto Guerreiro Ramos e Luiz Costa Pinto animou o debate dominical no diário carioca O Jornal, naquela época, um dos principais diários de Assis Chateaubriand. No domingo de 3 de janeiro de 1954, Guerreiro Ramos faz duras criticas a um livro de Costa Pinto lançado semanas antes: O negro no Rio de Janeiro. As críticas se dirigem também à UNESCO, que patrocinou a pesquisa e a publicação do livro de Costa Pinto (RAMOS, 2011). Além de sociólogo e jornalista, Guerreiro Ramos militava com Abdias do Nascimento no Teatro Experimental do Negro (TEN). Segundo Guerreiro Ramos, o fato do TEN ser a primeira associação de negros que pretendia fazer ciência sobre as questões raciais e, mais ainda, que visava propor uma nova perspectiva sociológica, na qual os próprios negros refletem sobre os problemas dos negros, provocou a apreensão de Costa Pinto e de outros “sociólogos e antropólogos brancos que vinham fazendo carreira às custas da exploração de temas afro-brasileiros” (RAMOS, 2011, p. 276).

Na terceira parte do seu livro, Costa Pinto apresenta o TEN como uma nova forma de associação do movimento negro. Ao contrário das associações tradicionais, religiosas e recreativas, tais como os rituais, macumbas, festas e rodas de samba, associações populares que estabelecem vínculos harmoniosos com os brancos, o TEN seria uma associação da elite negra que rivaliza com os brancos e trata dos problemas que dizem respeito a essa elite (PINTO, 1953). Em sua resposta a Guerreiro Ramos, publicada no mesmo jornal, Costa Pinto é bastante agressivo: “Duvido que haja biologista que depois de estudar, digamos, um micróbio, tenha visto o micróbio tomar a pena e vir a público escrever toda sorte de sordices e sandices a respeito do estudo do qual ele participou como material de laboratório” (PINTO, 2011, p. 278). Em referência a essa polêmica dos anos 50, o jornalista e militante Carlos Alberto Medeiros analisa a “revolução dos micróbios” a partir dos anos 70, quando o Movimento Negro Unificado (MNU), com representantes do próprio TEN, passam a lutar por ações afirmativas que ampliem o espaço do negro nas universidades (MEDEIROS, 2004).

A crítica de Costa Pinto ao perfil elitista do TEN é retomada pelo jornalista Clovis Moura. Tendo uma bem sucedida carreira internacional, o jornalista trata do tema num encontro sobre “Negritude e América Latina”, realizado em 1974, em Dakar (MOURA, 1983, p. 100). Ao analisar o alcance e a relevância da ideologia da negritude no TEN, sentencia Moura: “o que esse grupo apresentava à grande comunidade negra marginalizada nas favelas, nas fazendas de cacau e de algodão, nas usinas de açúcar, nos alagados e nos pardieiros das grandes cidades? Nada!” (1983, p. 103).

Amigo e interlocutor de Abdias do Nascimento desde os anos 50, uma amizade que se fortalece nos anos 70, período em que ambos partem para o exílio, o sociólogo Florestan Fernandes assume outra posição. Num artigo dominical publicado em 1962 n’O Estado de São Paulo, Florestan não polemiza com ninguém, não critica ninguém, pelo contrário, o sociólogo destaca a importância estética e política do TEN: “Assumindo, no Brasil, as consequências e as implicações que a Negritude contém, ele afia os instrumentos da sua recusa, engendrada na espoliação e no sofrimento: recusa da assimilação cultural; recusa da miscigenação; recusa à humilhação; recusa à miséria; recusa à servidão” (1972, p. 193).

Em 1968, num texto encomendado por Abdias para uma coletânea sobre os 80 anos de Abolição, Florestan analisa a contribuição do TEN para o debate sobre as relações raciais e para a mobilidade social do negro. Nesse texto, Florestan não elogia, apenas, as posições de Abdias, ele também incorpora as análises de Guerreiro Ramos sobre a patologia social do branco brasileiro (RAMOS, 1995). Segundo Florestan, o tão criticado elitismo do TEN manifesta o pavor dos brancos ao verem os negros assumindo posições de destaque na sociedade, criando uma “nova tradição de competição com os brancos em todos os níveis da vida social” (1972, p. 56).

Esses dois textos de Florestan foram reeditados em 1972 na antologia: O negro no mundo dos brancos. Meses antes da publicação desse livro, exilado em Nova Iorque, Abdias envia um cartão ao amigo Florestan, exilado em Toronto: “Você me deu uma importância que me fez inchar de lisonja. Um dia, que espero não esteja assim tão distante, falaremos pessoalmente sobre o assunto. (…) E seu livro (antologia), já saiu?” (NASCIMENTO, Fevereiro de 1972, Fundo Florestan Fernandes, UFSCar, o PDF com esse cartão foi-me presentado pelo amigo e pesquisador Diogo Valença, da UFRB).

Paulo Fernandes Silveira (FE-USP e IEA-USP)

Referências.

FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1972.

MEDEIROS, Carlos. Na lei e na raça: legislação e relações raciais, Brasil-Estados Unidos. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

MOURA, Clóvis. Brasil: raízes do protesto negro. São Paulo: Global, 1983.

PINTO, Costa. Ciência social e ideologia racial. O Jornal, 10/01/1954, Rio de Janeiro. In. JESUS, Rodrigo. Ações afirmativas, educação e relações raciais: conservação, atualização ou reinvenção do Brasil?. Tese de Doutorado em Educação. Belo Horizonte: UFMG, 2011, p. 278.

PINTO, Costa. O negro no Rio de Janeiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1953.

RAMOS, Guerreiro. Interpelação à UNESCO. O Jornal, 03/01/1954, Rio de Janeiro. In. JESUS, Rodrigo. Ações afirmativas, educação e relações raciais: conservação, atualização ou reinvenção do Brasil?. Tese de Doutorado em Educação. Belo Horizonte: UFMG, 2011, p. 276-277.

RAMOS, Guerreiro. Introdução crítica à sociologia brasileira. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1995.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora