A reclusão em filmes, por Walnice Nogueira Galvão

Tais reflexões sobre confinamento, em circunstâncias das mais variadas, podem trazer conforto para quem se encontra em conjuntura semelhante. São nossos votos.

A reclusão em filmes

por Walnice Nogueira Galvão

A claustrofobia, ou pavor de ficar trancado,  parece assombrar a humanidade. Dizem que, em maior ou menor grau,  contribui também para outros temores.  Desde impedir a saída à rua, ou agorafobia, até a vertigem das alturas, ou acrofobia – ninguém está imune.

Nas histórias maravilhosas de Edgar Allan Poe, leitura dos verdes anos, manifestam-se  outras variantes da claustrofobia, como o medo de ser enterrado ou emparedado vivo. Nessa obra, não faltam horrores de deixar o leitor de cabelo em pé, tal a frequência de situações de confinamento e as metáforas do poço sem fundo, do castelo barricado para escapar à peste, do navio-fantasma vogando à deriva.  Donde as masmorras e calabouços, túneis, alçapões, porões, criptas e sepulcros. Alguns desses tópicos da reclusão persistem entre os mais explorados pelos filmes de terror ou de science-fiction.

A propósito de Kafka, o mestre da claustrofobia, há vários filmes que transpõem para a tela seus mais reputados textos, e até alguns com toques biográficos. É só procurar O processo (1962), dirigido por ninguém menos que Orson Welles, O castelo, A metamorfose, Amerika.

Atualíssimo  é o sul-coreano Parasita (2019), dirigido por Bong Joon-ho, que andou ganhando todos os prêmios, de Cannes ao Oscar. Trata da desigualdade e seu poder de desumanização das pessoas, sejam os oprimidos, sejam os opressores.  Com bom domínio do humor negro, começa manso e vai descambando para o terror, explorando com mão firme  porões e subterrâneos.

Entre os filmes de campo de concentração, dos primeiros a surgir foi o curta-metragem Nuit et brouillard (1956), título traduzido do nome que os nazistas deram à operação de extermínio dos judeus. Seu diretor é Alain Resnais, que mais tarde faria o clássico Hiroshima meu amor.

Tempos depois outro filme francês, Shoah (1985), de Claude Lanzman, seria exaustivamente dedicado à pesquisa do holocausto, chegando a 8 hs de extensão. E ainda conseguiu entrevistar não só sobreviventes mas antigos guardas em campos de concentração. É considerado imbatível.

Inferno 17 (1953) é o nome de um alojamento multinacional de soldados que caíram em poder dos nazistas na Segunda Guerra Mundial, em filme dirigido por Billy Wilder. Já na Primeira Guerra o filme de prisão militar mais famoso é A grande ilusão (1937), de Jean Renoir. Juntando notáveis atores, mostra como a origem de classe supera a belicosidade: o nobre francês prisioneiro (Pierre Fresnay) entende-se perfeitamente com o nobre alemão que é seu carcereiro (Erich von Stroheim).  Mas os dois soldados plebeus presos (Jean Gabin e Marcel Dalio) almejam a evasão.

Outro é o ângulo de Um condenado à morte escapou (1956),  dirigido por Robert Bresson, focalizando os anseios de liberdade de um membro da Resistência apanhado pelos nazistas que, desde o minuto em que o portão se fecha, só pensa em fugir. Passa a dedicar cada fração de seu dia a imaginar subterfúgios e a preparar pequenos truques visando seu único objetivo.

Os americanos costumam dedicar muitos filmes ao ambiente da penitenciária, às rivalidades entre os detentos, à violência dos guardas etc., configurando até um gênero noir. E com as maiores estrelas e diretores, como Burt Lancaster em Brutalidade (dir. Jules Dassin, 1947), que narra um motim e uma evasão, e Clint Eastwood em Fuga de Alcatraz (dir. Don Siegel, 1979).

Já outro filme com o mesmo ator Burt Lancaster, que ganhou prêmios internacionais pela atuação, é O homem de Alcatraz (dir. John Frankenheimer, 1962).  Baseado numa história real, o protagonista, condenado à prisão perpétua em solitária por assassinato,  cuida de um pássaro ferido até curá-lo, descobrindo sua vocação e se tornando com o passar do tempo renomado ornitólogo.

Há ainda filmes sobre portadores de futuro, que depois dos anos na cadeia se tornariam presidentes da República: Mandela na África do Sul, Lech Walesa  na Polônia, Vaclav Hável na República Checa, José Mujica no Uruguai.

Tais reflexões sobre confinamento, em circunstâncias das mais variadas, podem trazer conforto para quem se encontra em conjuntura semelhante. São nossos votos.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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