A resistência pela ataraxia, e o que nos leva a ela, por Nilson Lage

Ataraxia é um conceito difundido por Demócrito (460-370 a.C), filósofo pré-socrático de Atenas, e incorporado às doutrinas epicurista, estoica e cínica que acompanharam, do ponto de vista dos indivíduos sábios, a expansão do poder romano sobre as culturas nacionais do vasto império.

Claude Monet

A resistência pela ataraxia, e o que nos leva a ela

por Nilson Lage

Que fazer quando uma cultura elaborada como a nossa enfrenta o desafio do contágio da elite pela arrogância e brutalidade que nos chegaram com a dominação do império tosco, nos últimos 70 anos?

Não matamos nossos índios em operações militares, como eles fizeram: meio milhão vivem como os antepassados; milhões incorporaram-se ao povo de nossas lavouras e cidades. Não segregamos negros ou índios: os primeiros invasores casaram-se com eles, por isso somos dominantemente mestiços  – mixed people, como se confessou Meghan, a Duquesa de Sussex. Orgulhavamo-nos dos escritores, poetas, engenheiros e artistas de todas as cores e sotaques de que herdamos secularmente nossa sabedoria. 

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Tínhamos uma tradição garantista, sem condução coercitiva, delações negociadas ou condenações por convicção. 

Éramos um poder regional, sem ambições maiores até que nos enfiaram goela abaixo a farsa da guerra fria e transformaram parte de nossas forças armadas em núcleos de sádicos emburrecidos. Davamo-nos bem com nossos vizinhos e recebíamos com carinho os  visitantes. Nosso modelo de sociedade, construído pelo idealismo dos tenentes, era social-democrata, com participação e apoio da classe trabalhadora. Fomos tolerantes, solidários, festeiros, dados a abraços e ao banho todos os dias. 

Hoje não mais: regredimos à condição de espelho que deforma, esponja de ideias tóxicas, colônia-macunaíma sem nenhum caráter. 

A resposta àquela questão inicial me veio em um sonho premunitório e uma palavra: “ataraxia”. Acordei durante a noite com as letras impressas na memória, em corpo futura, negrita. Anotei na mesinha de cabeceira, em  uma etiqueta dessas amarelas que se afixam no computador. 

Ataraxia é um conceito difundido por Demócrito (460-370 a.C), filósofo pré-socrático de Atenas, e incorporado às doutrinas epicurista, estoica e cínica que acompanharam, do ponto de vista dos indivíduos sábios, a expansão do poder romano sobre as culturas nacionais do vasto império. Significa, basicamente, a resistência pela tranquilidade. 

Na filosofia de Epicuro (370-241 a.C), a cólera é prova de fraqueza; o prazer decorre da vida prudente e justa; há desejos naturais e necessários, como a sede ou a fome, que se saciam, e outros, variantes (da bebida, do alimento) — ainda que naturais, sujeitos ao risco da futilidade. A integridade do indivíduo contempla, pelo contrário, a modéstia e a firmeza de suas convicções, mas a ataraxia deve conviver com a agonia,  ausência de dor . Daí, rejeita-se a iniquidade ainda quando não se pode combatê-la, com o que se evita maior sofrimento.

O estoicismo, escola fundada por Zenão de Citio (333-263 a.C), radicaliza o conceito e se tornou, por isso, a filosofia mais difundida entre pessoas cultas no império romano após Alexandre, o Grande, discípulo de Aristóteles e que, por opção epicurista, fundava o poder de seu império no respeito à cultura dos povos conquistados. A ataraxia, aí, inclui o autocontrole,  “sem raiva, ciúme ou inveja”; a superação de emoções negativas e, sobretudo, a construção de uma sabedoria tal que o homem não seja “amarrado a uma carroça e levado por ela”; sinta-se feliz ainda que diante da dor, do exílio, da desgraça ou da morte.

O cinismo de Diógenes de Sinope (412-323 a.C) acresce a essas características autossuficiência,   negação da ordem social do entorno e apatia, entendida como crítica e rejeição de estímulos exteriores.

O lamentável disso tudo é que eu tenha sido levado pela magia do inconsciente a sonhar com armaduras ideológicas da Antiguidade para me proteger, e aos meus, de um poder tomado por tolos e agiotas — e esteja aconselhando isso aos demais..

Vale a pena cogitar de como chegamos a tal incoerência impotente. 

Não há, então, como deixar de admirar a malévola competência que nos dividiu em torno de eixos de diversão — seja cor da pele, costumes, sexos, regiões, crenças, valores — levando-nos a esquecer que o mundo se move pelas relações da economia e, perante ela, nada nos distingue uns dos outros.

Foi uma guerra de propaganda de várias décadas — até mesmo a invenção de um passado inexistente–, a que me coube assistir, desde que se passou a acusar de corrupção e odiar como inimigos pessoais todos os  que contrariam ditados do império invasor. 

 

2 comentários

  1. Acho que essa ataraxia é devida a demonização na poltica em geral e nas esquerdas em particular. Ouvi reclamações de Bolsonaro e dos politicos, mas poucos defendem as esquerdas e menos ainda o PT. Sobre o PT, é preocupante a descrença e o odio gerados contra o partido. Parte desses, Quando manifesta, pretende fazë-lo apenas enquanto estudantes ou sociedade civil, sem ligações sindicais, politicas ou outras.

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