A suposta popularidade inesperada de Jair Bolsonaro e a força de sua agenda moral, por Camilo de Oliveira Aggio

Os que se animaram muito com a desidratação abrupta da popularidade desse governo talvez ainda não tenham entendido bem o que é e como se estrutura, como se fundamenta o bolsonarismo.

A suposta popularidade inesperada de Jair Bolsonaro e a força de sua agenda moral

por Camilo de Oliveira Aggio

Nova pesquisa sobre a popularidade do governo de Jair Bolsonaro na praça. Talvez para espanto de muitos, o percentual dos que o avaliam como ótimo e bom se manteve estável. Melhor, oscilou positivamente, ainda que dentro da margem de erro: de 30% para 33%.

Espantoso? Ainda mais considerando que este deve ter sido o governo com o maior número de absurdos, polêmicas e eventos potencialmente desgastantes, negativos, de que se tem notícia desde a redemocratização?

Não creio. Há alguns pontos importantes a serem considerados aqui.

Como já especulei por aqui, o otimismo antibolsonarista cometeu um erro ao equivaler a queda de popularidade do governo com a base de sua popularidade. Isso porque não haveria nada de mais natural do que essa desidratação, visto que é tradicional no comportamento político brasileiro cultivar um enorme otimismo diante de um novo governo, por mais estapafúrdia que essa esperança seja, como no caso atual.

A queda vertiginosa de sua popularidade, atingindo um recorde negativo em relação a outros governos, também era prevista, afinal, era de se esperar que nenhuma melhora significativa em qualquer área de atuação do governo acontecesse, principalmente no primeiro ano e diante das promessas falaciosas feitas em campanha e imediatamente após a posse do presidente – aquilo que só costumam chamar de estelionato eleitoral quando se trata de Dilma Rousseff.

O caso mais emblemático é o da economia e de Paulo Guedes. Era evidente que nada do que estava sendo prometido resultaria nos frutos da promessa. De resto, assim como foi com todas as reformas e PEC’s feitas até aqui desde Michel Temer.

Dito isto, e a se confirmar que Jair Bolsonaro possui uma base de apoio que se situa na faixa dos 30% – mesmo diante das coisas que diz, daquilo que faz em matéria de nepotismo, de desgates com as queimadas na Amazônia e o modo como conduziu a situação, o desmonte da educação e da pesquisa no país, censura, aparelhamento de instituições para proteger os seus, casos de corrupção evidentes e mais um “sem número” de absurdos – não há nada de muito diferente entre o bolsonarismo de 2018 e o do segundo semestre de 2019.

Leia também:  Dos cristais à porcelana: a América Latina na mira dos milicianos, por Luís Fernando Vitagliano

Em 2018, Jair Bolsonaro se elegeu com enorme rejeição. Por que haveria de ser diferente com seu governo? Foi diferente por um curto espaço de tempo por conta dessa esperança curiosa do brasileiro que dá popularidade a novos governos na espera de receber dividendos para si, mas voltou a seu patamar de origem, ou melhor, o seu (muito confortável) patamar de saída.

Os que se animaram muito com a desidratação abrupta da popularidade desse governo talvez ainda não tenham entendido bem o que é e como se estrutura, como se fundamenta o bolsonarismo. Melhor dizendo: continua não entendendo ou menosprezando a agenda moral e moralizante que é o que fundamenta o apoio e o voto em Jair Bolsonaro.

O discurso da antipolítica continua de pé e produzindo efeitos, assim como o de que existe uma nova forma de fazer política, mas, principalmente, o de não ceder a conchavos e ir de encontro aos interesses tradicionais de nossas elites no ato de fazer política, de combater privilégios, de tentar fazer as coisas melhorarem mesmo sendo barrado por essas instituições que atrasam o país (STF, p.ex.) e principalmente que o estrago deixado é enorme e precisa ser corrigido.

Bem, alguns dirão que essa faixa dos 30% não é suficiente para se eleger. Bem, suficiente não é, mas é uma enorme vantagem de saída que, na dinâmica da disputa eleitoral, em que o sujeito tem que decidir em quem votar por outros cálculos que não o da vida política regular que o faz avaliar bem ou mal um certo governo, coloca Jair Bolsonaro numa posição de favoritismo confortável.

Leia também:  Para Bolsonaro, desmatamento de floresta é algo cultural e não vai acabar

Para explicar melhor: há algumas pessoas que têm visto eleitores de Jair Bolsonaro arrependidos. Ainda que eu os veja em baixíssima quantidade, deve-se considerar que até mesmo arrependimento em política é algo passageiro e sujeito a revisões. O que tenho visto nesses ditos “arrependidos” não é exatamente um repúdio ao governo, mas uma espécie de silêncio, de contenção.

Tenho um caso na família de alguém que mesmo interpelado diante de absurdos como a cesura e a perseguição explícitas a certos grupos oi favorecimento de familiares, emudece. Nada diz. É um silêncio de conivência sempre presente nas alas de apoio ao bolsonarismo e que ajuda a explicar em grande medida a eleição de Jair Bolsonaro.

Diante de alguma melhora na economia e na redução da violência, mesmo a prescindir de medidas governamentais e diante de uma disputa eleitoral em que se coloque à mesa a opção de quem diz que está mudando as coisas, visivelmente degradadas por “esses que arruinaram o país e querem voltar ao poder”, em quem você acha que esse “silêncio” votará? Foi esse mesmo voto silencioso, alguns revelados de última hora, dos que negam os reais motivos de seu voto, que elegeu Bolsonaro.

São os que, inclusive, não veem com maus olhos a agenda moral e moralizante de Jair Bolsonaro diante da censura, do desrespeito a indígenas e outras minorias, da política do “bandido bom é bandido morto”, do argumento falacioso de que algumas coisas não podem ser patrocinadas com dinheiro público, etc.

Leia também:  Aliança pelo Brasil terá o número 38 nas urnas

A prova está aí. Apesar de um mundo de absurdos e de desgovernos, Jair Bolsonaro goza dos seus trinta e pouco. O patamar que esse cara tem e parece manter o cacifa eleitoralmente muito mais do que se pode imaginar.

E 2022 depende desse entendimento, assim como 2018 dependeu e deu no que deu num oceano de especialistas tentando entender o que aconteceu de errado com suas previsões. Insisto aos otimistas que se preparem pois tudo faz crer que essa jornada será longa.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

15 comentários

  1. Também acho que a jornada será longa.
    A burrice do brasileiro é uma coisa inacreditável.
    Até o final deste desgoverno é provável quem não sobre nem o Brasil.

    21
    3
  2. Camilo de Oliveira Aggio,
    Muito boa sua análise.
    Eu ainda consideraria a situação de Bolsonaro ainda mais favorável. Bolsonaro tem um volume muito grande de apoiadores fixos. São bolsonaristas em qualquer situação, todos os fazendeiros e sua esposa ou esposo quando o proprietário da fazenda é a esposa, todos os policiais civis e militares e aí se inclui toda a sua família e todos os adeptos da violência e do machismo para definição de direitos. Enfim este é um grupo que forma mais de 20% da população.
    E os 30% restantes necessários para se ter maioria é muito volúvel e basta a economia se relançar para que ele alcance esse percentual. A economia sempre foi a grande incógnita. As pessoas estão avaliando que uma economia sem um estado atuante para impulsionar a demanda não vai para frente.
    Primeiro não se pode esquecer que o Estado está atuando via déficit público elevado. E então é preciso ver como aparecem os demais componentes da demanda. Eu avalio que ainda que não seja o câmbio desejado para impulsionar a indústria brasileira já atual situação é favorável a uma retomada puxada pelo mercado externo.
    A menos que haja uma crise maior na América do Sul que leve a novas desvalorizações e que a crise no norte seja de tal ordem que com a demanda externa da America Latina comprimida afete a economia brasileira, a possibilidade de recuperação da economia brasileira puxada pelo mercado externo já é perceptível e pode aumentar.
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 18/10/2019

    8
    3
  3. “a agenda moral e moralizante (…) fundamenta o apoio e o voto em Jair Bolsonaro”

    Corretíssimo.

    Creio que também é correto dizer que Bolsonaro parte de um terço garantido do eleitorado em 2022. E outro detalhe que poderá pesar a seu favor até lá será seu trabalho sobre o pessoal do Bolsa Família, que abrange mais ou menos 25% da população total e quase metade da nordestina. Pesquisas de outros anos diziam que quase 80% dos eleitores bolsistas votava no PT. Creio que em 2018 esse número foi um pouco menor, mas ainda muito alto, basta ver os resultados do Nordeste. Só que agora Bolsonaro está começando um trabalho de “fidelização” desse público similar ao que o PT realizou. Ninguém sabe qual será a eficiência do 13° e outras medidas que ele tomará, mas, supondo que a sua disputa em 2022 será contra o PT, cada eleitor que ele ganhar nessa faixa representará um ganho duplo. Essa é sua partida de seis pontos, como dizem no futebol.

    5
    2
  4. Corretíssimo. Também venho insistindo nisso: tem muita gente boa que ainda não se deu conta, ainda não sabe com quem está lidando. Assim como tem muito cientista e analista político que só agora esta acordando pro tamanho do problema que cresceu por longos anos debaixo das barbas deles.

    7
    3
  5. Tendo a concordar, o eleitorado de direita nao mudará. Se tem um cavalo corredor bom no páreo ela seguirá com esse, se cair o Jair, correm para Amoedo, Hulk, Moro e Doria. Ou quem sabe Witzel? Os dados da Veja de hoje sao assustadores. A prisao de Lula vem fazendo efeito junto à população, segundo esses dados divulgados pela revista, que estranhamente põe Lula na capa como “fator” determinante. Estranho não? Dupla mensagem?

    2
    2
  6. Na pesquisa divulgada hoje, salvo engano, o que espanta não é a avaliação do miliciano
    são os 17 % do haddad

    Pessimo

    4
    1
  7. O que me incomoda mais é que este bolsonarismo raiz ainda tem muita influencia sobre muita gente. E ao apoiar os comportamentos francamente desumanos deste facinora et caterva, estes passam a ser forçadamente aceitos numa sociedade que se abrutalhou. Não é mais motivo de vergonha propria mas somente alheia o fascismo, a xenofobia e os preconceitos diversos desta “buona gente” que resolveu revelar o que esconde os sepulcros caiados…

    7
    2
  8. Esperar que o Bolsonaro seque pra vencer eleição não cabe como brinde na sacola adquirida num evento sobre a “democracia em risco”.

    2
    2
  9. Temos que criar uma agenda de rua e de encontros nas nossas instituições para debater e denunciar o desgoverno. Ministrei aulas recentemente na pós graduação e penso que mudamos o entendimento dos discentes sobre os fatos. Detalhe: o perfil dos discentes eram oriundos de escola e universidade pública, como também eram trabalhadores do SUS e achavam normal as mudanças. Inclusive acabar com o SUS, Bolsa Família e as Bolsas da Capes, das quais eles necessitam. Entendo que temos que atacar e elucidar as incoerências de interpretação. Por uma Educação Libertadora. Viva Paulo Freire

    3
    2
  10. Fala çero
    Tendo em vista a avassaladora onda anti-petista, formada pelo judiciário com $TF, com tudo, pelo MPF Lavajatoeiro, pela imprensa murdochiana, pelas seitas protestantes, pelo legislativo, pela Fiesp, pelo executivo, pelas forças armadas e puliça fodoral and, last but not least, pelas milícias, tanto as reais quanto as virtuais, eu achei pequena a diferença de votos entre o Bolsolixo e o Haddad. Pois bem. De lá pra cá, a popularidade do Bolsobosta despencou. Essa melhora quase imperceptível na economia é em função da aproximação das festas de fim de ano e réveillon. Isso significa que não houve redução na rejeição a esse governo miliciano. Assim, com tanta queda na popularidade do Bolsa de Bosta antes da aprovação das reformas anti-populares, só restou à Falha de $ampa aumentar a popularidade do $aco de Bostonaro. O resultado das pesquisa é fake, foi adulterado
    A dita não é dura, é branda

  11. No Facebook, procurem pela página “Bolsonaro TV”. Lá existem diversos vídeos em que o Bozo visita criança no hospital, encontra um menino que tem uma doença rara (e a mãe, ao lado, chora copiosamente de emoção), desce do carro para cumprimentar eleitores alucinados, que parecem estar diante de um homem santo.

    Tudo isso para ser compartilhado entre sua seita de fanáticos a reforçar seu “diferencial” de “homem do povo”, “gente como a gente”, e contrariar a imagem de boçal com que a esquerda o enxerga. Puro marketing antes de tudo, na minha opinião. Mas o mais assustador é ver a reação dos seguidores/apoiadores, alguns histéricos, chorando, como se estivessem diante Deus (ou coisa que o valha). Ele está sendo literalmente ADORADO. E nem parece que é um político – a categoria mais xingada e demonizada desse país.

  12. Concordo plenamente. O Bolsonarismo é uma seita extremamente fiel. Eles elegeram Bolsonaro como seu líder e estão dispostos a o seguir cegamente. Acredito que esses 30% são o suficiente para que ele se reeleja com tranquilidade. Apenas um desastre econômico que deixe a população literalmente na miséria, ou algum fato muito extraordinário poderia impedir isso.

  13. Concordo plenamente. O Bolsonarismo é uma seita extremamente fiel. Eles elegeram Bolsonaro como seu líder e estão dispostos a o seguir cegamente. Acredito que esses 30% são o suficiente para que ele se reeleja com tranquilidade. Apenas um desastre econômico que deixe a população literalmente na miséria, ou algum fato muito extraordinário poderia impedir isso.

  14. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome