A única chance de Bolsonaro é dada pela manutenção dos seus filhos ao seu lado, por Rogério Maestri

Pela total ausência de uma política própria de economia o atual ocupante do cargo de presidente da república apoiou-se na sonho neoliberal

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A única chance de Bolsonaro de uma extensão de seu mandato é dada pela manutenção dos seus filhos ao seu lado

por Rogério Maestri

Nos últimos dias aumentou a pressão para que Bolsonaro se afaste da influência dos seus filhos sobre o seu governo, entretanto por incrível que possa parecer, quem mantém um núcleo duro de apoio ao atual ocupante da cadeira da presidência da república são exatamente seus filhos.

Vamos deixar bem claro o porquê da afirmação, pois não adianta fazer interpretações rasas e levianas que satisfaçam a nossa vontade e criticar um governo que a cada momento vem sendo mais criticado por qualquer analista político, economista ou mesmo filósofos de botequim.

A base mais sólida da atual presidência é composta de uma mistura de pessoas, predominantemente militares de baixa patente (poucos militares de alta patente), policiais militares ou não militares, e uma quantidade significativa de uma parte da pequena burguesia extremamente mal informada, que segue um pouco de longe a política, mas é ligada mais as idiossincrasias deste grupo do que realmente algo mais bem estruturado em termos políticos.

Todos estes grupos de apoio, que deverão atingir no máximo a 15% da população, foram como eles mesmo dizem atraídos pelo mito do que pela figura real. O ocupante da cadeira da presidência ao longo de sua carreira política forjou mais por seus desacertos, visto pelo lado de seus críticos, do que seus acertos. Ele ficou conhecido por suas “tretas”, palavra que odeio, mas consegue transformar o que numa situação normal seria denominado como embate político numa série de pequenos desaforos que cabem num “Twitter”, do que por alguma proposição concreta de realizações.

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Como as “tretas” de Bolsonaro foram feitas também contra figuras um pouco folclóricas da oposição a ele, nunca ouve na realidade embates ideológicos entre Bolsonaro e seus inimigos mais caricatos e que reduziam o questionamento ao tenente reformado do exército (atenção, todos o chamam de capitão, mas na realidade ele nunca dentro da hierarquia passou de tenente, e com a sua reserva ele foi promovido após esta a capitão) também a atos meio que descontrolados e facilmente enquadrados pelos seguidores do tenente como atos mais histéricos do que questionamentos reais. Em resumo, em trinta anos de existência parlamentar, o deputado Bolsonaro, jamais desenvolveu um discurso coerente e articulado que pudesse passar de algumas linhas de um Twitter.

Porém este último parágrafo, que pode ser visto por pessoas mais articuladas e bem letradas, é a forma que ele construiu a sua fama. Alguém poderia dizer que no momento, como ocupante da cadeira da presidência, ele poderia se cercar de pessoas com maior conhecimento técnico e político e construir alternativas propositivas ao seu governo, porém o resultado que ele obteve com as dezenas de “tretas” armadas em 30 anos de mandato parlamentar, como o próprio nome diz são assuntos sem grande estruturação, mas que permitia ao seu núcleo duro o melhor que ninguém entende, a complementação destas discussões reducionistas e limitadas por opiniões própria e muitas vezes divergentes de seu núcleo de apoio.

O núcleo básico da contestação do núcleo de apoio era simplesmente a responsabilização de todas as mazelas do Brasil a um teórico desgoverno corrupto do PT, porém com a perda do governo federal e a perda do controle dos Estados que ainda apoiavam o PT, e que dentro da lógica dos apoiadores de Bolsonaro, o nordeste não conta, porque simplesmente vive parasitariamente do resto do país, não há além de uma fraca oposição parlamentar que continua através de cartazinhos exibidos no congresso a resumir a contraposição ao governo por meras palavras de ordem. Logo por consequência, novos inimigos deverão ser achados para ser combatidos, pois sem inimigos a combater uma política não propositiva não prospera.

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Pela total ausência de uma política própria de economia o atual ocupante do cargo de presidente da república apoiou-se na sonho neoliberal, sonho este que está virando em pesadelo e poderá ir exatamente contra todo o núcleo duro do atual governo, logo o mais lógico é criar inimigos imaginários, assim como os amigos imaginários das crianças, que como imaginários são praticamente impossíveis de derrotar. E são estes inimigos que os filhos os fornece, principalmente o mais perturbado e mais ideologicamente consistente na real inconsistência de uma luta contra moinhos de vento transformados em monstros na imaginação dos Don Quixotes da política de extrema-direita atual.

Se os filhos de Bolsonaro, e principalmente o seu filho mais atuante nas redes sociais, deixar de fornecer monstros imaginários a serem combatidos, só restará para o mesmo do apoio das pesadas e extremamente antipopulares políticas liberais do governo. Ou seja, a lenta e inexorável deterioração do governo devido a um longo e penoso processo de conscientização do seu núcleo duro que o que é proposto é uma mera imaginação, aumentará em muito a sua deterioração num debacle completo que além de contar com atual posição mais consequente, contará com milhões de raivosos traídos que odiarão com toda a intensidade que lhes é de hábito.

O dilema de Bolsonaro é simples, ou continua a construir seus falsos inimigos através de seus filhos e o debacle seguirá constante, mas como figuras com pouco senso estratégico, esperarão um milagre que não virá, ou simplesmente rompe as amarras com seus filhos e se coloca no domínio de uma trupe profissional de sobrevivência em que uma de suas ferramentas é a total execração e consequente derrubada de um novo culpado de tudo, que no caso seria o próprio Bolsonaro.