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A volta dos que não foram, por Jorge Alexandre Neves

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A volta dos que não foram, por Jorge Alexandre Neves

A volta dos que não foram

por Jorge Alexandre Neves

Mathias Alencastro (1) publicou um artigo afirmando que “a centro-esquerda está saindo renovada e fortalecida da era populista”. Entre outros problemas que enxergo no artigo, ressalto o fato de que os principais exemplos apontados pelo autor – em particular, a Espanha e a França – são países que não experimentaram governos populistas de direita no que ele chama de “era populista”.

O gráfico abaixo é mais uma representação da chamada The Great Gatsby Curve, sobre a qual já falei aqui no GGN (2). A BCA Research, porém, usou a referida curva para fazer um exercício interessante, qual seja, identificar um conjunto de países com propensão para ter governos populistas, que são aqueles dentro da área oval identificada no gráfico.

Observe-se que neste conjunto de países (deixemos a China de fora, pois seria um caso obviamente muito difícil de comparar com os demais) não há nenhum que tenha passado por um governo populista de direita e esteja hoje com uma centro-esquerda renovada e fortalecida. Dos países dentro da área oval, tem-se dois que têm hoje governos populistas de direita (Brasil e EUA) e um que tem tido experiências recentes desse tipo de governo (a Itália). Mathias Alencastro fala da volta dos que não foram, ou seja, do fortalecimento de uma centro-esquerda democrática após uma era populista em países que não viveram tal era. Penso, portanto, que o artigo não faz o menor sentido.

Em vários artigos que tenho publicado aqui no GGN, tenho expressado o mesmo tipo de preocupação que salta aos olhos quando analisamos esse gráfico da BCA Research. A desigualdade – tanto de estoque quanto de fluxo – cria um ambiente propício ao autoritarismo. E a desigualdade é consequência do liberalismo econômico. Logo, como já afirmei antes, o liberalismo econômico destrói o liberalismo político.

Os exemplos da França e da Espanha – assim como o de Portugal – não são muito úteis para o Brasil. Nos EUA, os democratas devem vencer a eleição presidencial, apesar de o partido ter escolhido um candidato que não entusiasma ninguém. No fundo, o que se verá será muito mais a derrota de Trump do que a vitória dos democratas, tal o número de erros cometidos pelo presidente republicano. Se Biden governar sem trazer pelo menos parte da agenda de políticas públicas proposta por Sanders, buscando, assim, reduzir a desigualdade, não irá empolgar o povo estadunidense.

Aqui no Brasil, por sua vez, tem-se um partido de esquerda forte, o PT, que conta com um líder político forte, Lula. Estes perceberam, ao meu ver corretamente, que só há uma forma de enfrentar um líder populista de direita que se sustenta com o apoio do “mercado” e suas políticas neoliberais, combater tais políticas e suas consequências, como o aumento da desigualdade, da pobreza e da precarização do mercado de trabalho. Logo, fica difícil fazer frente ampla com quem supostamente tem valores democráticos, mas defende as políticas neoliberais que corroem a democracia.

Com a crise sanitária, mesmo o governo Bolsonaro teve que, pelo menos temporariamente, fazer políticas anticíclicas de redução da pobreza e da desigualdade. Rogério Barbosa fez algumas excelentes análises a partir da chamada “PNAD da Covid” (3). Os dois gráficos abaixo mostram o efeito das atuais políticas. Aqueles que estão entre o percentil 40 e 90 da renda tiveram perdas em relação ao padrão de rendimentos de 2019 (ver o primeiro gráfico). E quanto mais elevada a renda, maior a perda em relação ao ano passado. Por sua vez, aqueles de menor renda (até o percentil 30) tiveram, de modo geral, ganhos de renda (ou, no mínimo, ficaram na mesma situação) garantidos pelo programa emergencial (ver o segundo gráfico).

Essa elevação da renda dos mais pobres está causando uma mudança na estrutura de apoio ao governo Bolsonaro, como têm demonstrado vários institutos de pesquisa (4). Mais especificamente, o apoio ao governo tem migrado dos mais ricos para os mais pobres. Por sua vez, uma pesquisa recente da Quaest Consultoria mostra que, enquanto aqueles que ganham mais de 2 salários mínimos menos de 30% acham que vivem pior do que os pais economicamente, entre os que têm renda até 2 salários mínimos 46% pensam que vivem pior do que os pais. É bem conhecido por nós cientistas sociais que esse tipo de frustração relacionada à mobilidade social é um terreno fértil para todo tipo de autoritarismo. Os mais pobres podem se tornar a base de apoio ao fascismo, no Brasil. Portanto, o combate à pobreza e à desigualdade produzida pelas políticas neoliberais é uma das principais iniciativas de defesa da democracia. Esta é a nossa realidade Dr. Mathias Alencastro. Different strokes for different folks! Ou, em bom português, ações diferentes para casos diferentes!

Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997.  Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

(1)https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mathias-alencastro/2020/07/centro-esquerda-esta-saindo-renovada-e-fortalecida-da-era-populista.shtml.

(2) https://jornalggn.com.br/analise/o-novo-crepusculo-do-liberalismo/.

(3) https://twitter.com/antrologos/status/1275898884850622466?s=09.

(4) Felipe Nunes e Cesar Zucco, porém, mostram evidências de que talvez o impacto do programa de renda mínima talvez não seja tão grande e, principalmente, sustentável (ver: https://www.jota.info/paywall?redirect_to=//www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/quaest-opiniao/o-auxilio-emergencial-pode-salvar-bolsonaro-24062020).

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