Afirmar democracia requer superar nação fraturada, por Josias Pires Neto

A derrota do presidente poderá desdobrar-se em uma luta difícil pelos próximos meses e anos. O golpismo terá que ser erradicado. O bolsonarismo olavista é uma espécie de vírus.

Foto de Sebastião Salgado

Afirmar democracia requer superar nação fraturada, por Josias Pires Neto

Em meio às tragédias sanitária, política e econômica estamos sendo vigorosamente chamados, mais uma vez, convocados para a tarefa de darmos mais alguns passos decididos na longa estrada de constituição do povo brasileiro ­– categoria que precisa ser a síntese das identidades do povo negro, povos indígenas e das distintas caracterizações de gênero, além de incluir muitas outras camadas pobres e médias da escala social.

Neste momento o povo brasileiro levanta-se pela derrota do bolsonarismo, ou seja, pôs-se o desafio de expulsar dos palácios da República o presidente indigno, mafioso, miliciano, totalitário. Esta é uma exigência constitucional e democrática. Afinal de contas, o governo atual enveredou pela trilha da traição à pátria. Mas é sabido que a queda do atual presidente é passo indispensável, porém insuficiente, para conter as suas células cancerosas difundidas pelos gabinetes do ódio, espalhadas no corpo social, em diversas instituições públicas e para-estatais.

A derrota do presidente poderá desdobrar-se em uma luta difícil pelos próximos meses e anos. O golpismo terá que ser erradicado. O bolsonarismo olavista é uma espécie de vírus, de bactéria, do verme mais insidioso deste câncer, que se alimenta da destruição do país, como sanguessugas insaciáveis. O golpismo desses militantes aparece exposto de modo acabado em um vídeo pró golpe militar difundido pelas matilhas nas redes sociais, conforme noticiou recentemente o jornal Folha de S. Paulo.

A frente ampla em favor da democracia está, finalmente, em curso, a partir das pressões da base da sociedade e das suas instituições. Só o mais largo movimento será capaz de por fim aos reiterados e orquestrados ataques ao federalismo republicano, às instituições do Estado e à democracia.  Como pontuou neste GGN o cientista político  Paulo Fábio Dantas Neto,  a militância digital bolsonorista produz forte impacto na “percepção social” sobre a política democrática e, por extensão, difunde sentidos profundamente autoritários para a “ideia de democracia”.

Desde a colônia tivemos elites senhoriais – algumas tirânicas e outras moderadas – que dirigiram políticas voltadas à reprodução de uma sociedade desigual e um estado violento, racista, autoritário. É evidente que o autoritarismo dessas elites econômicas e políticas explicitado ao longo da história do nosso país produziu uma democracia de baixa intensidade, permeada de longos períodos ditatoriais.

Os ideólogos do bolsonarismo-olavista, ignorantes, porém astuciosos, estão manipulando “o discurso da democracia direta, ou da democracia de alta intensidade, discurso crítico da democracia representativa e os faz de bumerangues, emulando a parte da esquerda que com eles simpatiza”, analisa o cientista político.

A demagogia manipuladora dos bolsonaristas pretende substituir a história do povo brasileiro por uma falácia autoritária para convencer incautos analfabetos políticos. Paulo Fábio lembrou que os bolsonaristas difundem a farsa “de que tudo no Brasil começou com o povo e as forças armadas”. Numa brevíssima síntese histórica que visa desmascarar a mentira, Dantas Neto lembrou que “No começo havia o estado, os senhores, as armas de ambos e uma população que não era povo. Com o tempo, o poder do Estado foi ficando maior que o dos senhores”.

O crescimento do poder do Estado, acrescentamos, demonstra que o poder das armas foi insuficiente para garantir o domínio dos senhores, obrigando o Estado a “criar instituições. Foi através [das instituições] que a população do Brasil se tornou povo brasileiro. É essa História que querem desconstruir”, ensina o professor da Universidade Federal da Bahia.

Poderíamos fazer um adendo. A constituição do povo brasileiro foi tramada através de instituições criadas pelo Estado, mas também pelas redes de instituições criadas por segmentos daquela população de africanos, afro-brasileiros, nativos americanos e gente de outras procedências étnicas: instituições religiosas dos calundus e candomblés, das irmandades negras e mestiças, dos quilombos e das diversas práticas culturais, políticas, sociais, econômicas construídas ao longo dos períodos colonial, imperial e republicano em meio às mais imensas dificuldades. A formação do povo brasileiro, portanto, foi se dando por meio da criação de instituições diversificadas, que caracterizam a sua imensa criatividade apesar dos embaraços provocados por suas elites senhoriais e autoritárias.

Estamos sendo desafiados pelos olavo-bolsonaristas-neo-nazistas a reatualizar a constituição do povo brasileiro. Reconhece Paulo Fábio que há gente de direita e de esquerda que pensa o povo como sendo uma “massa” amorfa ou um “arquipélago de comunidades” desorientadas pelos que recusam a política. A mãe do neoliberalismo, Margareth Thatcher, dizia que inexiste sociedade, pois só haveria indivíduos e suas famílias. Esta é outra fábula da coleção de mentiras portadas por políticos de direita.

A verdade é que o povo constitui, sim, “uma sociedade, da qual fazemos parte, todos nós, com nossos diferentes valores, interesses e inserções. Damos vida a instituições democráticas, nas quais fazemo-nos representar, unidos pela noção de que é melhor viver na liberdade pacífica do que sob a opressão da guerra civil”, escreveu o cientista político.

É verdade que desde o século XVI até os nossos dias, construímos uma nação fraturada, das mais desiguais do planeta, apesar da imensa riqueza natural e humana do país. A riqueza dos senhores foi produto da ação construtiva de milhões de trabalhadores escravizados, libertos e livres que sustentaram, com o seu trabalho e seu espírito, a formação e continuam conformando a sociedade brasileira, a sua cultura e suas instituições.

Continuamos vivendo em um sistema injusto, produtor de desigualdades.

Mas este é o país que construímos até aqui e que queremos transformar em favor de mais democracia econômica, política, social, cultural. Porém, “Enquanto lamentamos o edifício que construímos, os profissionais do golpismo mitificam e convocam o povo para que os ajude a destrui-lo”, alertou Paulo Fábio

Os olavetes bolsoneros apostam na guerra civil e na execução de um projeto totalitário. Com a força das suas armas e dos seus esquemas criminosos pretendem suprimir a democracia vendendo a ardilosa ilusão de que “pode existir qualquer bem que nos livre de todo o mal”. Ora, os males que assolam o Brasil são produtos da nossa História.

A nação fraturada, desigual, injusta, nossa democracia de baixa intensidade são produtos da nossa história, a qual podemos e devemos transformar. O fim da escravidão no Brasil significou a continuidade das profundas desigualdades sociais, econômicas, políticas do período anterior. Os pouco mais de 100 anos de República foram insuficientes para a construção de uma nação justa, profundamente democrática.

Desde a escravidão até hoje continuamos vivendo em uma nação fraturada por abismos sociais e econômicos. Isto precisa mudar. É este desejo de transformação que nos levará a ter um Congresso Nacional e um STF melhor do que temos agora. Ao invés de destruí-los como querem os olavetes bolsonaristas, precisamos defende-los e aperfeiçoá-los através do fortalecimento da participação popular na política, pela afirmação do povo brasileiro, pela preservação e aprofundamento da democracia.

As nossas virtudes e os nossos pecados, afinal, “vinculam-se ao fato de serem criações humanas. Não há como querê-los limpos e perfeitos sem sacrificar a nossa própria humanidade”, alertou Paulo Fábio.

A demonização e criminalização da política tem sido o recurso utilizado pela extrema-direita na grande mídia, nos partidos, nos sindicatos, nas associações, no sistema de justiça, no parlamento, nas redes sociais em benefício de interesses estranhos ao bem comum, ao interesse público. Porém, é impossível abrir mão da política democrática, imprescindível, para a melhoria das nossas instituições e para a conquista da democracia econômica e social.

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