Agro é tec, pop, tudo, inclusive rabo entre as pernas, por Rui Daher

Assim se pronunciou o ministro da “Só Economia”, Paulo Guedes, sobre as reformas: “Vamos fazer a coisa certa. Adoraria zerar (o déficit). Adoraria vender todas as empresas. Mas não é possível”.

Foto Agência Brasil

Agro é tec, pop, tudo, inclusive rabo entre as pernas, por Rui Daher

Para o GGN: Tão ágil em conceder registros de agrotóxicos, inclusive de alguns proibidos na Europa, o MAPA, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, amontoa processos para liberação de fertilizantes importados que chegam ao porto de Santos, essenciais para o plantio já iniciado da nova safra. Os fiscais são poucos, ineficientes, e descontentes com o que Guedes prepara para os servidores públicos. Com isso, os importadores enfrentam atrasos no abastecimento, pagam altos valores sobre o tempo de estadia dos navios, e de armazenagem até a liberação dos produtos. Sofrem, também, os agricultores com a falta dos insumos à tempo e hora de aplicação.

Publicado originalmente em CartaCapital:

Assim se pronunciou o ministro da “Só Economia”, Paulo Guedes, sobre as reformas: “Vamos fazer a coisa certa. Adoraria zerar (o déficit). Adoraria vender todas as empresas. Mas não é possível”.

Chegou a pensar que seria, sacripanta neoliberal? Possível é tomar o chá das cinco, comendo biscuits e muffins na varanda da casa de Olavo de Carvalho, em Richmond, Virginia, EUA.

Pois então, vá! Sua incompetência e falta de visão social infelicita 99% da população brasileira. Os demais estão salvos e frequentam sua mesa de repasto.

À política econômica, adite-se o pouco preparo do chanceler Ernesto “War” Araújo, blasfêmias sobre meio ambiente de Ricardo Salles, deseducação de Weintraub, alucinações de Damares, e os sacos de bondades e maldades agrárias de Tereza Cristina.

Desde que o Regente Insano Primeiro, Jair Bolsonaro, foi eleito e indicou seus filhos para governarem, dou tratos à bola sobre quais os ministros piores. No parágrafo acima, devo ter esquecido vários deles. O astronauta, por exemplo. Assessorias e gabinetes militares, sem dúvida.

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Sabemos que bancada no Congresso, federações, confederações, grandes proprietários de terras, ruralistas, ligados ao agronegócio, apoiaram e votaram no capitão, sem qualquer criticismo, mesmo sabendo das suas históricas inoperância política e despreparo.

Acabar com a moratória da soja na Amazônia é de uma estupidez crassa. Governo e Aprosoja Brasil (Associação Brasileira dos Produtores de Soja), argumentam contra o poder das tradings. Dão um tiro no pé. Sabemos que as ações deletérias delas não estão aí, mas na concentração. A moratória funciona, e bem, há mais de uma década. É justo o compromisso de não se comprar grãos da oleaginosa de áreas desmatadas do bioma. Irão perder mercados importantes, na medida em que o comércio exterior, se pauta cada vez mais pelo fair trade.

Mais: como a destruição ou entrega da Amazônia parece prioridade para o governo atual, o zoneamento agroecológico, criado em 2009, fazia o Banco Central limitar os financiamentos para o plantio de cana nos biomas da Amazônia e Pantanal. Decreto de Jair e Tereza, publicado no Diário Oficial, em 6 de novembro, libera geral. E durante tantos anos reclamamos que não tínhamos planejamento agrícola regionalizado.

E enquanto bondades ambientais, sociais e de costumes vão saindo do saco, como o registro recorde de agrotóxicos, a posse de armas com autorização de matar, pois sempre serão julgadas como em legítima defesa, exploração de minérios em terras indígenas, emasculação de INCRA e FUNAI, fazem na Esquina do Arrocho, o agronegócio se encontrar com as maldades de Paulo Guedes.

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No mesmo sentido, a agropecuária de exportação toma uma invertida na diminuição dos subsídios aos juros do crédito rural, o anunciado fim da Lei Kandir, que vigora desde 1996 e garante isenção de ICMS sobre produtos primários e semielaborados exportados. Isto, afetará em R$ bilhões todas as cadeias exportadoras do agronegócio.

Por outro lado, a 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) entendeu que o produtor rural poderá incluir todas as suas dívidas em caso de recuperação judicial.Quem? Eu, você, agricultores familiares? Saberão caboclos, campesinos, sertanejos, lidar com esse bicho? É minoria a de agricultores constituídos como empresas. Têm cadastro na Junta Comercial? Pois é.

Mas tudo que está ruim pode piorar. Não é assim?

O governo prevê para os fertilizantes, sementes e defensivos, aplicados em taxas crescentes nos plantios brasileiros, até abril de 2020, extinguir o Convênio 100, criado em 1997, que permitiu reduzir a base de cálculo do ICMS nas movimentações interestaduais e, também, autorizar os Estados a criar incentivos (diferimento/isenção) em operações dentro dos próprios Estados.

Na época, o objetivo foi o de baratear o custo dos insumos para os agricultores. Vai-se.

A produção nacional, após as privatizações dos anos 1980/90, tornou-se insuficiente (só as estatais investiam em aumento de capacidade) e concentrada. Hoje em dia, a dependência de importações está entre 75% e 80%, originárias de países onde também há concentração, muitas vezes à beira de estarem oligopolizadas.

Se esses e outros fatores, que o espaço me impede citar, já faziam os insumos agrícolas custarem o “olho da cara” para os agricultores, com o fim do Convênio 100, passarão a custar muito mais, com reflexos, inclusive, nos preços dos alimentos.

E aí? Agro é tec, pop, tudo? Sei não. Talvez esteja mais para rabo entre as pernas.

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