Ainda assim resistir e recomeçar com dignidade, por Jaqueline Morelo 

Durante séculos, as populações indígenas e afrodescendentes resistiram às várias formas de dominação, espoliação e violência, e souberam criar formas de enfrentamento em condições adversas, sem perder o amor-próprio.

Ainda assim resistir e recomeçar com dignidade 

por Jaqueline Morelo 

Se quisermos sobreviver ao tsunami do atual governo servil à ultradireita mundial, com seu projeto neocolonialista devastador, precisamos ouvir as vozes dos povos indígenas que resistem em terras da Sul América há mais de 500 anos. Devemos dar ouvidos aos descendentes dos milhares de escravos que aqui também construíram, ao longo dos séculos, formas originais de resistência nos quilombos, nos morros e nas periferias das grandes cidades. Eles falam incessantemente. Precisamos começar a escutá-los.

Este Território ocupado por portugueses era, nos idos de 1.500, habitado por mais de mil povos, alguns dos quais com pelo menos 4 mil anos de existência. Apesar de abertos à incorporação do Outro, especialmente pela prática de congregar estranhos à sua comunidade, por meio do cunhadismo, e ainda que tenham ensinado aos portugueses como sobreviver nessa terra, curando-os de inúmeras pragas e pestes nos primeiros anos de invasão, os indígenas passaram a ser capturados e mortos quando não aceitaram ser escravizados nos engenhos de açúcar, na exploração da borracha e do ouro do projeto espoliador português. Por esse motivo, até a década de 1980 eram qualificados como indolentes nos livros de história do Brasil.

Atualmente, somente na região amazônica brasileira vivem 180 nações indígenas, com um total de 306 mil indivíduos, segundo dados do IBGE (2010). São os principais defensores e guardiães da floresta, que possui a maior biodiversidade tropical do mundo e é responsável pelo equilíbrio da estabilidade ambiental do planeta. No momento em que incendiários avançam com a pecuária, a soja, a extração das riquezas minerais, essas comunidades indígenas se unem para enfrentar grileiros, madeireiros, garimpeiros, grandes mineradoras e donos do agronegócio, de quem o governo Bolsonaro é mero mandatário. 

Esses povos podem nos ensinar porque enfrentam há séculos a falsa ideologia de que somos um país pacífico.  Eles já entenderam que estão em guerra permanente contra a dominação, a espoliação e a violência do próprio Estado, que tenta exterminá-los de formas diversas, usando bala, envenenamento, e estratégias de aculturação, como o projeto evangelizador das Missões Jesuíticas (séculos XVI e XVIII), o “emancipacionista” do governo autoritário Geisel (1974-1979), e o atual, que propaga a ideia do índio “ser humano como nós”.  

Os povos da floresta nos ensinam por meio de sua forma de viver diferente da racionalidade capitalista, que considera o universo em sua totalidade e insere o ser humano em uma complexa rede de relações que integram a vida como um todo. A Terra não é vista como recurso a ser explorado, mas como morada sagrada e pertencente a todos, com possibilidades realmente sustentáveis para estas e as futuras gerações.

Os descendentes dos africanos que foram trazidos de várias nações africanas para constituir mão de obra escrava no Brasil, também estão há muito tempo narrando formas de resistência à exploração e à violência. Ao longo dos séculos engendraram formas originais de enfrentamento direto e indireto ao processo de desumanização a que foram submetidos. Sua resistência se deu por meio da religiosidade, com a umbanda e o candomblé, da criação da capoeira e do samba, e também da fuga e fundação dos seus próprios territórios de liberdade, os quilombos. 

Hoje os negros resistem, nas periferias das grandes cidades, à exclusão social, ao racismo estrutural, ao extermínio de jovens pobres. Somente em 2017, foram 49,5 mil homicídios de negros, ou 75% do total de homicídios registrados no país, segundo o Atlas da Violência, publicado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança.  Vinte anos antes, os Racionais Mc´s já denunciavam: “60 por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial./A cada quatro pessoas mortas pela policia, três são negras. /Nas universidades brasileiras apenas dois por cento dos alunos são negros./ A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo. /Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente”. 

Tantas mortes que podem ser contadas por minuto, como afirma o rapper mineiro Djonga, no álbum Favela Vive 3, de 2018: “Mas no meu lugar se ponha e suponha que/ No século 21, a cada 23 minutos morre um jovem negro/ E você é negro que nem eu, pretin, ó/ Não ficaria preocupado? / Eu sei bem o que cê pensou daí/ Rezando não tava, deve ser desocupado/ Mas o menó tava voltando do trampo/ Disseram que o tiro só foi precipitado.”

A resistência política, que também constitui afirmação identitária desses jovens, é narrada pela Cultura Hip Hop, por meio da dança, dos saraus de poesia negra, do rap. Ela é ainda potência transformadora porque denuncia as causas estruturais da violência, da exclusão social e do racismo. A resistência também está sendo feita pelos inúmeros coletivos, grupos de teatro e movimentos que estão sendo criados ou revitalizados nos mais diversos cantos do país, impelidos a formular uma resposta ao retrocesso civilizatório do atual governo.  

Durante séculos, as populações indígenas e afrodescendentes resistiram às várias formas de dominação, espoliação e violência, e souberam criar formas de enfrentamento em condições adversas, sem perder o amor-próprio. Se tivermos humildade para aprender, poderão nos ensinar a resistir e recomeçar com dignidade um novo projeto para o país. 

Jaqueline Morelo  – Jornalista, cientista social, mestre em Ciência Política, é diretora da Associação Internet Sem Fronteiras – Brasil. jaquelinemorelo@gmail.com

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2 comentários

  1. Uma das regiões mais pobres da cidade de São Paulo é o Quilombo da Freguesia do Ó e Vila Brasilândia, para onde foram os Negros após a Abolição. Berço da Moderna Esquerda Brasileira. Nem Serra, Montoro, Erundina, Marta, Haddad, FHC, Covas, Lula, Ulisses, Genoino, Mercadante fizeram algo significativo na transformação e evolução de tamanha miséria, durante 40 anos de farsante Redemocracia. Quantos farsantes?!! 4 décadas de tamanha mediocridade !!!! Não por coincidência, na Cidade de São Paulo, berço da Moderna Esquerda Brasileira, estão os maiores bolsões de Trabalho Escravo de toda a América. Sempre muito pouco explorado pelas Forças Progressistas e Imprensa Ideologizada. Por que será? Coincidência? Quilombos negligenciados. Trabalho Escravo ignorado e omitido. Juntamente com os Povos Indígenas, donos de todo território nacional e que já estavam aqui em 1500, e que ainda hoje em pleno 2019 na maior cidade da Am. Latina, berço da Moderna Esquerda Brasileira, não conseguem ter seus Direitos reconhecidos nas suas Aldeias no Jaraguá, Parelheiros, Serra do Mar entre Ubatuba e Vale do Ribeira e tantas outras regiões paulistas e paulistanas. Por que tamanha omissão? A Casa Grande, travestida de Progressista no berço da Moderna Esquerda Brasileira, pode cometer tantos crimes? Por que? Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação. (P.S. A CENSURA não explica nada)

  2. Numa assertiva concordei com o Bolsonaro : os índios são como nós. Por isso, merecem respeito. Só que ele não é tão maquinal, doutrinado, que não consegue conceber um ser ao mesmo tempo igual, e totalmente diferente.
    Infelizmente, acho que esta população é bem grande. Como escreveu William Reich, em 1935 “Escuta Zé ninguém “. O famoso pensamento em bloco acha que seu modo de pensar, que não tem essência, deve ser estendido a todos.

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