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Ainda não há motivos para temer a inflação, por Luis Nassif

De um lado, a renda fixa. O aumento das apostas na inflação futura, pelo mercado, leva o Banco Central a aumentar a taxa Selic. Por outro lado, há uma perda de valor nas LFTs,os títulos pré-fixados. Há também um aumento nas taxas de juros longas, o que aumenta a pressão sobre o Tesouro para aumentar a remuneração de seus papéis.

Ao contrário do FED (o Banco Central americano), o Banco Central brasileiro não atua no mercado futuro de taxas. Com isso, deixa solto os movimentos especulativos de mercados. Basta a combinação de grandes players em cima da articulação de expectativas pelo mercado e por uma mídia acrítica, para conseguir influência no mercado  de taxas.

Por aí se entende alguma alarido em torno dos últimos indicadores de preços.

Raio X do IPCA-15

Fiquemos com o IPCA-15, o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado do dia 15, que emula a taxa oficial. Em setembro o índice ficou em 0,45%, despertando temores.

O primeiro passo é analisar os indicadores em um prazo mais longo.

O IPCA-15 de setembro é de 0,45%. Mas o IPCA-15 acumulado, desde fevereiro, é de 0,42%. Portanto, parte do aumento de setembro foi um mero alinhamento de preços, depois do impacto do isolamento.

Analise os maiores fatores de pressão em setembro:

O maior peso foi Transportes, com alta de 0,85%. Mas de fevereiro para cá registrou queda de 3,46% – mesmo incorporando a alta de setembro.

De qualquer modo, o que importa é o impacto de cada variação de preços no índice final.

A tabela abaixo calcula o impacto de cada setor no índice final.

Lá se percebe que, em setembro, os dois maiores impactos foram nos grupos de Transportes (que impactou em 0,16 ponto o IPCA-15) e Habitação (0,05).

Já de fevereiro a setembro, os maiores impactos foram Habitação (0,14), Comunicação (0,14) e Saúde e Cuidados Pessoais (0,10). Na ponta deflacionária, Transportes (-0,68) e Educação (-0,14).

Quando se decompõe os dados de Habitação, em setembro o maior impacto foi de Encargos e Manutenção, que pressionou setembro em 0,05 e de fevereiro para cá, com 0,12.

Quando se decompõe Encargos e Manutenção, finalmente chega-se ao ponto central: o impacto maior foi dos aluguéis, cujos reajustes são baseados no IGP-M, que tem grande influência do câmbio. Portanto, nenhuma influência de demanda ou de movimentos especulativos.

Se fizermos o mesmo trajeto com Transportes, dá para identificar o vilão da história em setembro: Combustíveis (influência de 0,03 no índice final). Decompondo o índice, se verá que o peso maior foi sobre Gasolina e Diesel. No entanto, analisando-se de fevereiro para cá, Combustíveis derrubaram o índice em 0,06%.

Política anti-inflacionária

Ponto central da história é entender os fatores de pressão sobre os preços para avaliar os caminhos das políticas prudenciais contra inflação. Os pesos maiores foram aluguéis e combustíveis, ambos diretamente influenciados pela alta do dólar.

Acontece que desde 2002, a única política anti-inflacionária praticada por sucessivos governos tem sido a política de metas inflacionárias – de aumentar os juros supondo que haverá redução na demanda pela pressão nos custos de financiamento.

Até hoje, a única consequência foi o da apreciação do câmbio reduzindo os preços dos comercializáveis, com amplos prejuízos à produção interna.

Pretender conter a demanda com a economia em recessão profunda é piada, mesmo para o radicalismo de Paulo Guedes.

Uma análise objetiva sobre a natureza da inflação brasileira mostrará o seguinte:

Há dois fatores de pressão sobre os preços:

  1. Demanda interna.
  2. Demanda externa.

A demanda externa impacta os chamados produtos comercializáveis, isto é, aqueles que são negociados nos mercados globais. Se há um aumento nas cotações internacionais, havendo espaço para exportar, o produtor interno exigirá o mesmo preço nas vendas internas.

Foi o que ocorreu com o arroz. Quando estourou a pandemia, governantes responsáveis suspenderam as exportações de arroz de seus países, para preservar o mercado interno.

No caso do Brasil, permitiu-se a ampliação desmedida das exportações, a redução nas importações e dos estoques reguladores. Ou seja, em vez de um choque de demanda, o governo Bolsonaro produziu um choque de oferta.

Para esse diagnóstico, as políticas adequadas são, de um lado, suspender as exportações, impor taxas de exportação e se valer de estoques reguladores.

Desde o governo Temer, no entanto, o governo acabou com a política de estoques reguladores.

Têm havido, também, problemas pontuais na oferta de produtos no atacado. Mas são problemas pontuais, decorrentes da desorganização das cadeias produtivas com a pandemia. À medida que a economia vá retomando a normalidade, esses gargalos tendem a se dissolver.

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