Alguém que faz falta, por Izaías Almada

“Além de jornalistas, Evanize Sydow e Marilda Ferri buscaram e reproduziram a verdade dos fatos e se revelaram como pesquisadoras"

Alguém que faz falta

por Izaías Almada

Ensanduichado que está o Brasil, espremido entre uma pandemia e um governo irresponsável e incompetente, para dizer o menos, o momento, apesar de todas as dificuldades, é excelente para a reflexão.

Um bom momento para muitos de nós refletirmos sobre a nossa história política, sobre a formação da nossa cultura de origem escravocrata, do nosso capitalismo de dependência e, mais ainda, sobre a imensa desigualdade social do povo brasileiro.

Submetidos a um necessário isolamento social temos, contudo, a excepcional oportunidade de lermos sobre o país, de nos informarmos como chegamos até aqui e entendermos como fomos capazes de entregar o país à direção de pessoas que não têm a menor noção do que é governar.

São inúmeros os livros que estão à nossa disposição para conhecermo-nos como país. E mais do que isso: para, quem sabe, nos identificarmos com homens e mulheres que dedicaram suas vidas para que o Brasil se tornasse uma nação soberana, independente e cumpridora de acordos e leis internacionais que protejam os direitos dos cidadãos contra a arbitragem e a prepotência daqueles que ainda sonham com regimes autoritários, como nos dias que correm.

Entre esses livros gostaria de destacar “Dom Paulo: um homem amado e perseguido”, uma excelente biografia do Arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, escrita pelas jornalistas e também defensoras dos direitos humanos Evanize Sydow e Marilda Ferri.

Transcrevo aqui a contracapa escrita pelo próprio Arcebispo, cujo espírito fraterno e a luta incansável pelos direitos humanos conta de maneira pungente uma parte da história política do Brasil contemporâneo:

“Além de jornalistas, Evanize Sydow e Marilda Ferri buscaram e reproduziram a verdade dos fatos e se revelaram como pesquisadoras. Essa pesquisa foi realmente uma surpresa para mim. E talvez seja uma surpresa para vocês todos. Elas consultaram, em primeiro lugar, as fontes bibliográficas modernas. O que fizeram mais? Uma coisa que eu pensei que nunca conseguissem: foram pesquisar dentro dos arquivos particulares de várias pessoas que são, realmente, confiados somente a amigos ou a pessoas de grande confiança. Estudaram teses, leram relatórios, penetraram no segredo de documentos e discursos muitas vezes difíceis de encontrar e já, quem sabe, arquivados em lugares onde vão desaparecer. O que pareceu ainda mais corajoso, se é possível haver uma coisa mais corajosa do que esta porque exige fino trato e, além disso, arrojo jornalístico: elas consultaram 118 pessoas que são contra dom Paulo ou a favor de dom Paulo. Elas fizeram o que fez o maior escritor cristão da Antiguidade, São Jerônimo. Foram para scrinia cordis, quer dizer, examinaram os segredos do coração de algumas pessoas e puderam revelar aquilo dentro do livro. Coisas que eu mesmo confessei a elas e não confessei a outros”.

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