Algumas histórias só podem ser contadas tempos depois… por Rita Almeida

A estratégia do Cavalo de Troia representa a inteligência contra a força. É como um drible, um jeitinho. Ela conta com a força e a potência do inimigo, para usá-las contra ele.

Algumas histórias só podem ser contadas tempos depois…

por Rita Almeida

Logo que Bolsonaro foi eleito, em 2018, vários bolsonaristas mães e pais de alunos dos colégios religiosos aqui do meu município, se mobilizaram pelo movimento “Escola sem Partido” e para combater a tal “Ideologia de Gênero”. Animados com a eleição do candidato deles, queriam promover ações para intervir nos currículos e coagir professores que não seguiam suas ideias. Eram vários grupos de whatsapp debatendo esses temas e se mobilizando em várias ações, uma delas era se reunirem com uma certa liderança bastante influente, a fim de conseguirem o apoio dele, e fortalecerem o movimento.

Apesar de não ter filhos em escolas religiosas, acompanhei de perto tal movimento, bem como a história que vou narrar a seguir. Por motivos óbvios, não citarei nomes.

Nesses grupos de whatsapp, que vou chamar de conservadores, havia várias mães e pais que não concordavam com o movimento, todavia, ao invés de simplesmente saírem deles, se mantiveram por lá e criaram, paralelamente, grupos de resistência. Um dos grupos de resistência que acompanhei – só de mães – mantinha algumas “infiltradas” nos grupos conservadores, que diariamente enviavam prints, áudios, vídeos e imagens do que circulava por lá: muita fake news, muito argumento moralista, fundamentalista e muita paranoia. Se consideravam cidadãos de bem a combater as ideias esquerdistas, os comunistas e petralhas. Criticavam pensadores como Marx e Gramsci, por exemplo, mas mostravam total desconhecimento de suas teorias. Nenhuma pauta se baseava em algo minimamente racional, eram argumentos baseados numa moral religiosa, em geral, delirante e fundamentalista. Olavo de Carvalho era constantemente citado, considerado por eles um filósofo respeitado no mundo inteiro. Para vocês entenderem o nível da coisa, eles associavam homossexualidade com pedofilia e “ideologia de gênero” com nazismo, se indignaram com um texto didático que falava do MST e com outro que tinha conteúdo erótico (isso para o ensino médio). Num dos episódios mais abomináveis e absurdos eles questionaram uma atividade onde a professora pedia que cada aluno fizesse uma boneca preta e a levasse para casa para lhe acompanhar em todas as atividades familiares. É impossível reproduzir o tanto de lixo tóxico que essa atividade gerou no grupo de whatsapp. Suponho que se a intenção da escola era conhecer a família da criança e sua dinâmica, tiveram imenso sucesso.

Os conservadores conseguiram algumas reuniões com a tal liderança e, pelos comentários nos grupos, se sentiam representados e acolhidos por ele em suas pautas, tanto que pretendiam estreitar mais os laços com ele. A preocupação do grupo de resistência era que a tal liderança realmente encampasse o movimento conservador e, fortalecido pelo grupo, usasse seu poder para tentar implantar aquelas pautas absurdas nas escolas. Foi então que o grupo de resistência teve uma ideia: munidas das informações que tinham, combinaram de ligarem alternadamente e repetidamente, por vários dias e várias vezes ao dia, para a secretária da tal liderança, a fim de pressioná-lo a fazer mais reuniões com o grupo conservador. Para isso, se passavam por mães deste grupo e adotavam o mesmo tom histérico e paranoico do mesmo, além dos mesmos argumentos absurdos e sem fundamento que circulava no whatsapp.

Nos dias que se seguiram, por meio de suas informantes, o grupo de resistência soube que que os grupos conservadores desconfiaram que alguém estava tentando sabotá-los, mas já era tarde demais, o caos já tinha sido plantado e a tal liderança, obviamente que com medo de se queimar com aquela maluquice toda, se afastou dos grupos conservadores. Até quando soubemos, nunca mais se reuniram. Um detalhe: o grupo de resistência nunca se reuniu presencialmente, a maioria ali nem se conhecia fora do universo virtual e, tudo foi feito apenas com uso do celular (whatsapp ou ligações). Além disso, ele continua existindo e ainda mantém “infiltradas” nos grupos conservadores.

Uma das perguntas que mais tenho ouvido nos últimos tempos é: Que tipo de estratégia usar para combater essa onda fascista bolsonarista (que vou chamar de Bolsoplanismo)? Contei a história acima porque acho que ela nos dá muitas pistas de com fazer isso.

Já entendemos que a estratégia argumentativa e da racionalidade não funciona, já que o Bolsoplanismo, tal como o terraplanismo, se move na frequência do fanatismo, da mentira e do delírio paranoico. Dados objetivos e fatos históricos também não servem, o Bolsoplanismo parece habitar um universo paralelo, inalcançável. Caracteriza-se, portanto, por uma pobreza simbólica, compensada com um excesso de imaginário e, como já percebemos, o meio virtual é terreno fértil para a circulação desse imaginário. Não por acaso, o Bolsoplanismo, assim como todo o movimento da direita neofascista mundial, tem nadado de braçada nas redes, com seus robôs e fakes news. Já é fato que Bolsonaro se elegeu com a ajuda dessa farsa imaginária, tal como o Trump nos EUA, e ambos continuam na mesma estratégia para governar.

O grande problema é que, milita contra nós que nos opomos ao Bolsoplanismo, o fato de que o imaginário é de muito mais fácil adesão. Enquanto o simbólico depende de raciocínio, reflexão e interpretação, no imaginário é suficiente ver e acreditar. Então, é bastante difícil, quase impossível, combater imaginário com o simbólico na atual circunstância, porque o simbólico vai exigir um tipo de elaboração e riqueza subjetivas que essas pessoas não têm ou não estão dispostas a ter. Muitas delas parecem estar numa espécie de transe, são meros repetidores imagéticos, espelhos uns dos outros e de seus líderes, dispostos adotar uma espécie de servidão consentida.

Desde que o Bolsoplanismo se instalou temos tentado combatê-lo, preponderantemente, pela via do simbólico, que é a via na qual a política tradicional se instaura (no debate, na argumentação, na negociação e na racionalidade), mas temos fracassado solenemente. Então, o que tenho pensado é que a única maneira que temos para, pelo menos entrar neste universo imaginário para tentar desmontá-lo, é utilizando o imaginário também. Usar a fragilidade deles, contra eles, ou a força deles, contra eles. Acho que a história que contei exemplifica bem essa estratégia.

A história do Cavalo de Troia é bastante conhecida. Os gregos, em certo momento da guerra contra os troianos, admitiram que não conseguiriam atravessar as muralhas da cidade de Troia por meio da força, já haviam tentado de tudo. Então, decidiram usar a inteligência estratégica, deixaram diante do portão do inimigo um imenso cavalo de madeira, a princípio, como presente para selar sua rendição. Os troianos, traídos pela própria vaidade e soberba, festejaram o presente deixado pelos gregos e o levaram para dentro dos muros da cidade, sem saber que dentro dele o inimigo se escondia. Durante à noite, o exército grego sai do cavalo e domina a cidade, levando-a a ruína.

A estratégia do Cavalo de Troia representa a inteligência contra a força. É como um drible, um jeitinho. Ela conta com a força e a potência do inimigo, para usá-las contra ele. Sem a vaidade e a arrogância dos troianos e sua certeza de terem vencido a guerra, os gregos não teriam tido sucesso. No Cavalo de Troia, a força do inimigo é também sua fraqueza.

Nessa perspectiva do Cavalo de Troia, o antídoto contra o Bolsoplanismo é injetar nele próprio, mais Bolsoplanismo. Desmontar o imaginário pelo lado de dentro. As mulheres do grupo de resistência aqui da minha cidade fizeram isso amadoramente, numa situação pontual, mas penso que isso também pode ser feito como estratégia mais abrangente, pensada e organizada pelos partidos e movimentos democráticos e de esquerda. Reparem que isso não significa que a esquerda também deva criar seus robôs, suas fake news e seus próprios seguidores cegos e delirantes. A política, nos nossos termos, continuará sendo a de investir no simbólico: no debate, na argumentação, na racionalidade. É Paulo Freire, arte, cultura, leitura, diversidade, ciência, movimento social, tudo o que o Bolsoplanismo despreza e rejeita. No entanto, para lidar com o Bolsoplanismo e seus adeptos precisamos usar as mentiras deles, contra eles. Usar a moralidade tosca deles, contra eles. Usar a burrice deles, contra eles. Usar os absurdos deles contra eles. Usar a paranoia deles, contra eles.

Nos infiltrar com Cavalos de Troia imaginários, é uma ótima estratégia para fazer isso.

Rita Almeida

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3 comentários

  1. De duas coisas, tenho certeza:
    – Os brazileiros superaram os troianos na categoria “Povo mais burro da história”;
    – Muitos moradores de Troia contrários a levar o cavalo para dentro da cidade devem ter se unido aos gregos que saíram do cavalo para ajuda-los a matar os troianos que resolveram levar o trambolho para dentro.

  2. Muito bem pensado
    devemos sempre examinar as bases de tudo que nos é apresentado e criar algo diferente, que pode ser outra mentira, mas que nelas se encaixe………………….

    Como o bolsonarismo usa a mentira universal, vamos dizer assim, dirigida a todos os repetidores hipnotizados, só podemos trazê-los para a realidade um por um, um de cada vez, com uma mentira feita especialmente para ele, e só para ele, não para um grupo

    Já testei em alguns conhecidos e deu muito certo, porque quando um pensamento original é direcionada apenas a uma pessoa, ele não é aceito automaticamente pelas outras, ou seja, elas procuram confirmar antes de aceitar, concordar ou discordar

    é demorado, mas leva muitos a pensar, o que é muito bom pra todos

  3. Um artigo relevante , nessa busca de um caminho para tentarmos reduzir essas influencias nefastas e anti-civilizatórias que visam destruir o Brasil. Num ponto todos concordam: tentar argumentar racionalmente não é eficaz, na grande maioria das vezes. Parece-me que há 3 caminhos. Ridicularizar os líderes e idéias deles, sabendo que fascistas geralmente tem baixa auto-estima e muito medo de serem, fora de sua bolha, considerados ridículos, detestáveis, desajustados. Eles sabem que terão que interagir com pessoas que não fazem parte do seu grupo, no trabalho, na vizinhança, e em determinadas situações em que precisariam de algum grau de aprovação por parte de outras pessoas. Quem instigar neles a desconfiança de que podem ser considerados ridículos, desequilibrados, burros, por terem aquelas idéias, a baixa auto-estima poderá faze-los questionarem-se.
    Outro caminho é tentar afastar os conservadores moderados dos fascistas.Eu tive no facebook uma página de músicas que interessavam aos mais pobres ( música romantica popularesca.) Nunca postei frases que pudessem parecer idéias da esquerda senão os conservadores abandonariam a página. Mas sutilmente falava de algumas situações de uma forma que podia levar os conservadores moderados a se questionarem em relação à paranóia e violencia dos fascistas.
    O caminho mais complexo e difícil é expressar a mesma opinião deles mas de uma forma tão exagerada e doentia que levaria aqueles não tão psicóticos, sociapatas ou ressentidos a terem alguma dúvida sobre a validade das idéias fascistas. (essa é a estratégia do infiltrado, similar à estória relatada no artigo.)
    Se eu, que não sou da área dos especialistas em comportamento humano, tentei levar a dúvida àqueles que tem as certezas da extrema-direita,
    por que as pessoas da área ainda não criaram um método que possa retirar pessoas dessa cegueira fascista, desumana e anti-civilizatória ?
    Vi na internet um acadêmico tentar o caminho da ridicularização aguda comunicando-se com fascistas.Nem sei como ele avalia essa estratégia hoje.
    Na segunda guerra eles foram retirados do poder pelas armas. No contexto atual quem tem as armas tem simpatia por eles ou está unido a eles. Temos que falar com os “pobres de direita” e a classe média, mas de uma forma alternativa quando o diálogo argumentativo é ineficaz.

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